Desmond avançou quase triunfalmente pela sala de jogos. Estava prestes a interrogar seu suspeito favorito:
Como sempre, o mordomo.
- James Ford, profissão "ajudante pessoal de Lord Hugo". Atuais investimentos: quem sabe o assassinato de um ricaço e a fuga com sua grana?
- Você está ameaçando o cara errado - respondeu James.
- E quem disse que estava ameaçando alguém? - indagou Desmond, fingindo inocência - Estava só tentando confirmar uma hipótese.
- Pois pode ir esquecendo, cowboy. Você não me engana com seus truques e vozes.
James Ford tinha algo de esquisito. Não se parecia em nada com um mordomo comum. Era irritado, irônico e não tinha delicadeza natural nenhuma. Ah sim, e era americano.
- Há quanto tempo você trabalha para Lord Hugo?
- Três dias - sorriu Ford. O seu sorriso irritou Desmond: era espertinho. De acordo com sua visão de mundo, ele era o único que podia ter sorrisos espertinhos.
- Pouco tempo, não acha?
James deu de ombros.
- Deve ser então uma coincidência que o seu patrão morreu três dias depois.
- Sem dúvida - respondeu James, com um toque ameaçador na voz - Eu não tenho anda a ver com isso.
Desmond encarou-o. Ford era mais esperto do que havia pensado a princípio.
- Vou ser sincero - disse o investigador - Eu acho que há algo de errado com o senhor. Não sei o que é, mas pode ter certeza de que eu vou descobrir e que a polícia adorará ter uma conversa com o senhor, meu caro Ford; Pode ser que não tenha nada a ver com o assassinato brutal, mas vou descobrir o que você fazia nesta casa.
- Hurley era... desculpe, Lord Hugo era meu conhecido. Quando soube que eu estava na Inglaterra e sem dinheiro nenhum me ofereceu este emprego.
- Isso deve ter sido humilhante.
James Ford olhou-o fixamente.
- Um pouco, sim - admitiu. - Mas desde que ganhasse uma boa grana.
- Sem contar o que você tirou de fora...
- Vamos ver se o senhor investigador sente falta de algo nessa casa - sorriu Ford. Com aquele sorriso espertinho especial.
- O fim de semana durou três dias - informou o Inspetor. Agora estavam os dois, ele e Desmond - Por assim dizer, começou na sexta-feira à tarde e Lord Hugo foi encontrado morto ás 5 horas do domingo. No primeiro dia ficaram em casa e jogaram baralho para se conhecerem.
- Achei que alguns já se conheciam - comentou o detetive.
- Alguns sim, mas nem todos eram amigos - disse o Inspetor - Então, às 9 horas chega Charlie Pace, atrasado e sem ser convidado. Há uma cena na porta da frente, em que ele insiste que largou o vício e pede abrigo para o amigo. Depois, todos jantam e vão dormir. No sábado tem um passeio de manhã e torneios de tênis à tarde. Lord Hugo apenas assistiu e se divertiu. O vencedor foi... o Dr.Jack, quem diria.
Desmond consentiu, analisando os testemunhos.
- O jantar do sábado foi animado e acordaram todos tarde no domingo. Não saíram nesse dia. Acharam o corpo de Hugo ali mesmo, na biblioteca, com a cabeça desfeita e a máscara no rosto.
- Era uma máscara de sua coleção pessoal, não é mesmo?
- Isso. O problema é que a máscara que cobria Lord Hugo era parte do enfeite da sala de música. Alguém tirou-a de lá, levou para a biblioteca e usou-a para cobrir o cadáver.
- Isso é curioso. Mas quem foi o primeiro a achar o corpo e a chamar a polícia?
- John Locke achou o corpo e chamou os outros. Dr.Jack ligou para a polícia - informou o Inspetor - Existem registros.
- Temos a linha temporal - disse Desmond - Falta conferir se é verdadeira. Vamos ver quem mentiu e quem escondeu informação. Quero saber de cada um o que aconteceu no fim de semana. Enquanto isso, preste atenção, temos que vigiar os suspeitos, sem que eles saibam. Ainda não achamos a arma do crime e esse pode ser o momento que o assassino está esperando para livrar-se dela. Inspetor, preciso que preste atenção a todos eles, sem exceção. E peça aos policiais que terminem de examinar a biblioteca: se houverem impressões digitais na máscara será de grande ajuda.
- Não se preocupe Desmond, a polícia fará seu trabalho.
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quarta-feira, junho 27, 2007
segunda-feira, junho 25, 2007
O Mistério da Máscara Javanesa - (?)
Desmond pulou com êxtase em cima da mesa e gritou, de modo que toda a mansão de Lord Hugo pôde ouvir:
- Na verdade o assassino sou eu! Sim, eu sei que enganei vocês todos, que fingi ser um detetive e investigar meu próprio assassinato. Sou tãão esperto!!!
Todos soltaram um "oh!" impressionados.
- Pois é, e só estou revelando tudo isso porque decidi que a razão do crime era somente o reconhecimento. Então podem admitir: sou um baita assassino, não sou? Agora que vocês já sabem de tudo, morreremos todos.
Dizendo isso, Desmond pegou o tubo de explosivos convenientemente localizado à sua direita e acabou com toda a farsa maníaca. Meia hora depois, quando os bombeiros chegaram, quase nada sobrou da mansão onde crimes hediondos foram cometidos.
FIM
Isso não tem nada a ver!!!
Foi uma mentira, tá. Prometo que vou terminar de escrever a Máscara Javanesa, e do jeito certo.
Só queria soltar um pouco a tensão que é arquitetar um caso misterioso e fazer pistas e fazer pistas falsas e torcer para os leitores acreditarem em certas coisas...
Por falar nisso, já repararam qu... (não vou terminar isso ainda. Ia contar minha teoria sobre quem é o assassino nos livros da Agatha Christie, mas achei que ia revelar o assassino da minha história [que NÂO é o Desmond] então vou deixar para depois. Prometo que é uma teoria interessante.)
- Na verdade o assassino sou eu! Sim, eu sei que enganei vocês todos, que fingi ser um detetive e investigar meu próprio assassinato. Sou tãão esperto!!!
Todos soltaram um "oh!" impressionados.
- Pois é, e só estou revelando tudo isso porque decidi que a razão do crime era somente o reconhecimento. Então podem admitir: sou um baita assassino, não sou? Agora que vocês já sabem de tudo, morreremos todos.
Dizendo isso, Desmond pegou o tubo de explosivos convenientemente localizado à sua direita e acabou com toda a farsa maníaca. Meia hora depois, quando os bombeiros chegaram, quase nada sobrou da mansão onde crimes hediondos foram cometidos.
FIM
Isso não tem nada a ver!!!
Foi uma mentira, tá. Prometo que vou terminar de escrever a Máscara Javanesa, e do jeito certo.
Só queria soltar um pouco a tensão que é arquitetar um caso misterioso e fazer pistas e fazer pistas falsas e torcer para os leitores acreditarem em certas coisas...
Por falar nisso, já repararam qu... (não vou terminar isso ainda. Ia contar minha teoria sobre quem é o assassino nos livros da Agatha Christie, mas achei que ia revelar o assassino da minha história [que NÂO é o Desmond] então vou deixar para depois. Prometo que é uma teoria interessante.)
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Mistério
quinta-feira, junho 14, 2007
O Mistério da Máscara Javanesa - Parte 3
A pianola tocava uma música antiga - que fora um sucesso estrondoso durante um mês e depois caíra em desuso, servindo só como lembrança cômica hoje em dia.
O médico pessoal de Lord Hugo, Dr. Jack Sheppard, preparava algo no bar sob a supervisão do Inspetor da polícia.
Desmond mal podia esperar para tirar algo a limpo com ele.
- Então doutor, precisando de alguns drinques? - brincou.
Jack sorriu e deu um gole em seu whisky - Acho que estamos todos precisando. Despois de tudo o que aconteceu... - baixou a cabeça e franziu a testa preocupado.
- Claro, com certeza. Não quis, você sabe... - Desmond, disse, gesticulando para o Inspetor que concordou com mais acenos de cabeça, como atores em uma peça - As pessoas são capazes de qualquer coisa quando bebem demais - ele prosseguiu, com o cinismo crescendo - O doutor por exemplo; tem de estar sempre sóbrio e preparado para lidar com emergências. Por isso acho que esse fim-de-semana na casa de Lord Hugo foi uma bênção, você não concorda inspetor?
- Com certeza, agora você não tem que se preocupar com seus pacientes - continuou o Inspetor.
- Isso não, - Jack disse - vocês não querem dizer que...
- Absolutamente não! - concordou Desmond - Só estava perguntando para o doutor se ele bebeu um pouco neste fim-de-semana, só isso.
- Eu não matei Lord Hugo. - disse Jack muito sério - Ele era meu paciente.
- Nós sabemos. - disse o Inspetor em seu modo usual, mexendo no paletó e no bigode cinzento - Na verdade, andamos investigando e descobrimos que Lord Hugo vem dando muito trabalho para todos. Ele parecia ter algumas manias...
- Sim, isso é verdade. Ele tinha muito medo de estar sobre uma maldição, como se coisas ruins acontecessem ao seu redor.
Desmond se lembrou da conversa que tivera com John Locke, que considerou um lunático perfeito. Talvez todos estivessem um pouco loucos. - Como eu ia dizendo, - prosseguiu o detetive - O álcool nos induz a fazer coisas que nem pensávamos sermos capazes de fazer enquanto sóbrios. Parece que recolhemos um testemunho de que o senhor andou bebendo demais doutor Jack... Existe algum caso de alcoolismo na família, algum problema a ser esquecido? Acho que o seu inconsciente fez todo o trabalho para você, se livrou do paciente mais complicado.
Jack estava a ponto de segurar Desmond pelo colarinho e gritar com ele, mas era esperto demais para saber que isso só o incriminaria ainda mais. Ao invés disse, se segurou e falou:
- Eu nunca faria mal para Lord Hugo. Ultimamente ele esteve preocupado com sua sorte, achava que iam acontecer catástrofes nesse fim-de-semana, que íamos morrer porque ele era amaldiçoado. Sim, ele pensou em cancelar o jantar, mas John Locke o convenceu de que seria uma boa idéia se livrar do medo dessa maldição, que ele poderia nos chamar e que nada ia nos acontecer.
- No fim, - disse Desmond - ele estava certo. Lord Hugo tinha tanto medo de que algo acontecesse aos seus convidados que acabou sendo a vítma. Parece que seus medos tinham algum fundamento. Havia alguém instigando-os?
- Eu sempre tentei convencê-lo de que eram bobagens - disse o médico - Superstições sem nenhuma base. Ele achava que o dinheiro trouxe toda a maldição.
O Inspetor sorriu - O dinheiro traz muitas maldições, eu sei disso.
- À propósito dr. Jack - disse Desmond - Me deixou curioso acerca de uma coisa: um pouco antes, quando falava com Miss Kate Austen, o senhor fez algum gesto, alguma advertência para ela, não foi? Estava muito interessado em saber o que era.
Jack abriu um sorriso e balançou a cabeça.
- Não sei do que o senhor está falando. Me desculpe.
- Ah sim, - disse Desmond - Entendo então. Acho que por enquanto é só.
Antes de conversarem com Charlie Pace, o Inspetor puxou Desmond de lado e confidenciou-lhe:
- Este aí foi o tal que chegou atrasado.
- Então o nosso músico não foi convidado, mas veio mesmo assim... Vamos descobrir porque Lord Hugo não queria sua companhia, e porque ele resolveu insistir.
- Mais uma coisa Des... Parece que os vícios do sr.Pace não são tão leves assim: pelo que consta ele abusava da heroína. Dizem que foi por isso que perdeu o emprego na Orquestra.
Desmons sorriu. Aí sim estava um mau exemplo da espécie humana! Algo com que ele se acostumou a lidar esses anos todos. Enfim seria divertido.
- Sr.Pace, posso ter uma palavrinha com o senhor? Meu nome é Desmond Hume, e este é o inspetor da polícia.
- Claro - ele respondeu, com um forte sotaque inglês - Eu, eu..
- Não se incomode, estamos bem. Só queria algumas respostas. Por exemplo, meu caro sr. Pace, porque o senhor veio? Sabemos que Lord Hugo não estendeu o convite ao senhor. Quem sabe você estava interessado na sua coleção de máscaras raras? Soube que seu hobby excêntrico pode ser vendido por uma fortuna nos becos de Londres.
- Não é nada disso! - ameaçou o sr. Pace - Hugo era meu amigo, nunca faria algo com um chapa como ele! Podem acreditar: todos gostavam dele; eu nunca roubaria algo.
- Mas pediria dinheiro emprestado... - experimentou Desmond.
- Eu pedi um pouco sim. Vocês sabem, depois de ganhar na loteria, cheio da grana, eu achei que... - Charlie gesticulava nervosamente, tentando se explicar - Mas ele disse não e, olha só, me pediu para ficar longe... Ao menos até ficar limpo, você sabe.
O Inspetor e Desmond trocaram um olhar que perguntava claramente: "E agora, você está limpo?"
Charlie Pace se fingiu de ofendido e gritou:
- Mas é claro que estou! Pela santa madrugada, eu nunca faria algo de mal ao velho Hugo. Ele sim era um cara bom, um sujeito decente! Quando me pediu para ficar longe eu fiquei completamente na fossa, pensando que era meu fim e tudo o mais. Não conseguia mais chegar perto dos meus amigos e me arrependi de tudo: de ter sido expulso da Orquestra, de experimentar heroína, de... de... Enfim, eu fiquei limpo e resolvi aparecer, mostrar ao meu chapa que eu podia melhorar. Podem checar! Não tenho nada disso no meu corpo. Nunca mais depois daquele dia.
- Então você é muito mais durão do que eu pensei, garoto. - disse Desmond - Quase nenhuma crise de abstinência, estou surpreso que pôde largar o vício assim, com força de vontade meramente. Querendo impressionar Lord Hugo, e disso não duvido, querendo mostrar aos seus amigos que ainda tinha um pingo de respeito. Foi corajoso sim, meu caro sr.Pace, mas não acho que esteja dizendo a verdade.
- Como assim?
- Como assim... Ainda não sei, mas acho que o seu problema é um pouco mais difícil de ser resolvido do que você nos fez achar. Quando Lord Hugo negou um empréstimo, pois sabia o que você iria comprar com o dinheiro, o senhor deve ter ficado irritado. Talvez se sentiu mesmo no fundo do poço. E sabe o que eu acho? Que pessoas no fundo do poço são capazes de tudo, inclusive de roubar de seus melhores amigos.
- Eu nunca...
- Ainda não terminei Sr.Pace. Pode ser que Lord Hugo tenha descoberto, que tenha ficado extremamente decepcionado com o senhor.
- Não sou um assassino!
- Não esteja tão certo quanto a isso. A heroína é uma droga muito particular, você sabe. Se o senhor me permite uma sugestão, eu diria que qualquer objeto roubado desta mansão poderia ser extremamente incriminador se encontrado em determinadas mãos... - enquanto Desmond falava, Charlie Pace empalidecia devagar, sem saber como responder - Mas, se o roubo destes objetos não tiver nada a ver com a morte de Lord Hugo, eu sugiro vir à claro o quanto antes sobre o assunto.
- Qualquer um que os devolva - continuou o inspetor - Não será processado por maiores crimes e ficará livre de muitas suspeitas.
Os dois homens da polícia se inclinaram para a frente e olharam fundo para Charlie Pace. Desmond adorava pôr os suspeitos contra a parede, fingir-se de mal, de bom, de brincar com os sentimentos dos investigados.
O Sr.Pace olhou de volta nervoso.
- Eu não sou nada disso que os senhores estão pensando! Me sinto ofendido, caras, eu não roubei de Hugo, nunca toquei em um só objeto da casa para comprar o que quer que seja..
Extremamente ofendido, o ex-músico encerrou a entrevista. Disse que não poderiam mais conversar com ele, ao menos não antes que ele arranjasse um advogado.
Desmond odiava advogados. Tanto trabalho para pegar o assassino, tanta enrolação e giros sem sair do lugar. Sobrava pouco espaço para as intuições e brincadeiras.
O médico pessoal de Lord Hugo, Dr. Jack Sheppard, preparava algo no bar sob a supervisão do Inspetor da polícia.
Desmond mal podia esperar para tirar algo a limpo com ele.
- Então doutor, precisando de alguns drinques? - brincou.
Jack sorriu e deu um gole em seu whisky - Acho que estamos todos precisando. Despois de tudo o que aconteceu... - baixou a cabeça e franziu a testa preocupado.
- Claro, com certeza. Não quis, você sabe... - Desmond, disse, gesticulando para o Inspetor que concordou com mais acenos de cabeça, como atores em uma peça - As pessoas são capazes de qualquer coisa quando bebem demais - ele prosseguiu, com o cinismo crescendo - O doutor por exemplo; tem de estar sempre sóbrio e preparado para lidar com emergências. Por isso acho que esse fim-de-semana na casa de Lord Hugo foi uma bênção, você não concorda inspetor?
- Com certeza, agora você não tem que se preocupar com seus pacientes - continuou o Inspetor.
- Isso não, - Jack disse - vocês não querem dizer que...
- Absolutamente não! - concordou Desmond - Só estava perguntando para o doutor se ele bebeu um pouco neste fim-de-semana, só isso.
- Eu não matei Lord Hugo. - disse Jack muito sério - Ele era meu paciente.
- Nós sabemos. - disse o Inspetor em seu modo usual, mexendo no paletó e no bigode cinzento - Na verdade, andamos investigando e descobrimos que Lord Hugo vem dando muito trabalho para todos. Ele parecia ter algumas manias...
- Sim, isso é verdade. Ele tinha muito medo de estar sobre uma maldição, como se coisas ruins acontecessem ao seu redor.
Desmond se lembrou da conversa que tivera com John Locke, que considerou um lunático perfeito. Talvez todos estivessem um pouco loucos. - Como eu ia dizendo, - prosseguiu o detetive - O álcool nos induz a fazer coisas que nem pensávamos sermos capazes de fazer enquanto sóbrios. Parece que recolhemos um testemunho de que o senhor andou bebendo demais doutor Jack... Existe algum caso de alcoolismo na família, algum problema a ser esquecido? Acho que o seu inconsciente fez todo o trabalho para você, se livrou do paciente mais complicado.
Jack estava a ponto de segurar Desmond pelo colarinho e gritar com ele, mas era esperto demais para saber que isso só o incriminaria ainda mais. Ao invés disse, se segurou e falou:
- Eu nunca faria mal para Lord Hugo. Ultimamente ele esteve preocupado com sua sorte, achava que iam acontecer catástrofes nesse fim-de-semana, que íamos morrer porque ele era amaldiçoado. Sim, ele pensou em cancelar o jantar, mas John Locke o convenceu de que seria uma boa idéia se livrar do medo dessa maldição, que ele poderia nos chamar e que nada ia nos acontecer.
- No fim, - disse Desmond - ele estava certo. Lord Hugo tinha tanto medo de que algo acontecesse aos seus convidados que acabou sendo a vítma. Parece que seus medos tinham algum fundamento. Havia alguém instigando-os?
- Eu sempre tentei convencê-lo de que eram bobagens - disse o médico - Superstições sem nenhuma base. Ele achava que o dinheiro trouxe toda a maldição.
O Inspetor sorriu - O dinheiro traz muitas maldições, eu sei disso.
- À propósito dr. Jack - disse Desmond - Me deixou curioso acerca de uma coisa: um pouco antes, quando falava com Miss Kate Austen, o senhor fez algum gesto, alguma advertência para ela, não foi? Estava muito interessado em saber o que era.
Jack abriu um sorriso e balançou a cabeça.
- Não sei do que o senhor está falando. Me desculpe.
- Ah sim, - disse Desmond - Entendo então. Acho que por enquanto é só.
Antes de conversarem com Charlie Pace, o Inspetor puxou Desmond de lado e confidenciou-lhe:
- Este aí foi o tal que chegou atrasado.
- Então o nosso músico não foi convidado, mas veio mesmo assim... Vamos descobrir porque Lord Hugo não queria sua companhia, e porque ele resolveu insistir.
- Mais uma coisa Des... Parece que os vícios do sr.Pace não são tão leves assim: pelo que consta ele abusava da heroína. Dizem que foi por isso que perdeu o emprego na Orquestra.
Desmons sorriu. Aí sim estava um mau exemplo da espécie humana! Algo com que ele se acostumou a lidar esses anos todos. Enfim seria divertido.
- Sr.Pace, posso ter uma palavrinha com o senhor? Meu nome é Desmond Hume, e este é o inspetor da polícia.
- Claro - ele respondeu, com um forte sotaque inglês - Eu, eu..
- Não se incomode, estamos bem. Só queria algumas respostas. Por exemplo, meu caro sr. Pace, porque o senhor veio? Sabemos que Lord Hugo não estendeu o convite ao senhor. Quem sabe você estava interessado na sua coleção de máscaras raras? Soube que seu hobby excêntrico pode ser vendido por uma fortuna nos becos de Londres.
- Não é nada disso! - ameaçou o sr. Pace - Hugo era meu amigo, nunca faria algo com um chapa como ele! Podem acreditar: todos gostavam dele; eu nunca roubaria algo.
- Mas pediria dinheiro emprestado... - experimentou Desmond.
- Eu pedi um pouco sim. Vocês sabem, depois de ganhar na loteria, cheio da grana, eu achei que... - Charlie gesticulava nervosamente, tentando se explicar - Mas ele disse não e, olha só, me pediu para ficar longe... Ao menos até ficar limpo, você sabe.
O Inspetor e Desmond trocaram um olhar que perguntava claramente: "E agora, você está limpo?"
Charlie Pace se fingiu de ofendido e gritou:
- Mas é claro que estou! Pela santa madrugada, eu nunca faria algo de mal ao velho Hugo. Ele sim era um cara bom, um sujeito decente! Quando me pediu para ficar longe eu fiquei completamente na fossa, pensando que era meu fim e tudo o mais. Não conseguia mais chegar perto dos meus amigos e me arrependi de tudo: de ter sido expulso da Orquestra, de experimentar heroína, de... de... Enfim, eu fiquei limpo e resolvi aparecer, mostrar ao meu chapa que eu podia melhorar. Podem checar! Não tenho nada disso no meu corpo. Nunca mais depois daquele dia.
- Então você é muito mais durão do que eu pensei, garoto. - disse Desmond - Quase nenhuma crise de abstinência, estou surpreso que pôde largar o vício assim, com força de vontade meramente. Querendo impressionar Lord Hugo, e disso não duvido, querendo mostrar aos seus amigos que ainda tinha um pingo de respeito. Foi corajoso sim, meu caro sr.Pace, mas não acho que esteja dizendo a verdade.
- Como assim?
- Como assim... Ainda não sei, mas acho que o seu problema é um pouco mais difícil de ser resolvido do que você nos fez achar. Quando Lord Hugo negou um empréstimo, pois sabia o que você iria comprar com o dinheiro, o senhor deve ter ficado irritado. Talvez se sentiu mesmo no fundo do poço. E sabe o que eu acho? Que pessoas no fundo do poço são capazes de tudo, inclusive de roubar de seus melhores amigos.
- Eu nunca...
- Ainda não terminei Sr.Pace. Pode ser que Lord Hugo tenha descoberto, que tenha ficado extremamente decepcionado com o senhor.
- Não sou um assassino!
- Não esteja tão certo quanto a isso. A heroína é uma droga muito particular, você sabe. Se o senhor me permite uma sugestão, eu diria que qualquer objeto roubado desta mansão poderia ser extremamente incriminador se encontrado em determinadas mãos... - enquanto Desmond falava, Charlie Pace empalidecia devagar, sem saber como responder - Mas, se o roubo destes objetos não tiver nada a ver com a morte de Lord Hugo, eu sugiro vir à claro o quanto antes sobre o assunto.
- Qualquer um que os devolva - continuou o inspetor - Não será processado por maiores crimes e ficará livre de muitas suspeitas.
Os dois homens da polícia se inclinaram para a frente e olharam fundo para Charlie Pace. Desmond adorava pôr os suspeitos contra a parede, fingir-se de mal, de bom, de brincar com os sentimentos dos investigados.
O Sr.Pace olhou de volta nervoso.
- Eu não sou nada disso que os senhores estão pensando! Me sinto ofendido, caras, eu não roubei de Hugo, nunca toquei em um só objeto da casa para comprar o que quer que seja..
Extremamente ofendido, o ex-músico encerrou a entrevista. Disse que não poderiam mais conversar com ele, ao menos não antes que ele arranjasse um advogado.
Desmond odiava advogados. Tanto trabalho para pegar o assassino, tanta enrolação e giros sem sair do lugar. Sobrava pouco espaço para as intuições e brincadeiras.
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Mistério
quinta-feira, maio 31, 2007
O Mistério da Máscara Javanesa - Parte 2
- Parece que vocês estavam se divertindo bastante neste fim-de-semana - comentou Desmond na varanda principal - É uma bela casa, sem dúvida. Lord Hugo era um sortudo por poder custear uma propriedade no campo como esta.
John Locke, o misterioso e calado homem careca, sorriu de volta. Estavam os dois sentados, sozinhos na varanda, observando as belas árvores do chamado countryside inglês. Ah sim, pensou Desmond, a verde e aprazível Inglaterra. Belo lugar.
- Foi um adorável fim de semana - concordou Locke - Uma pena que terminou assim.
- Claro, - concordou o detetive - Porque matar a galinha de ovos de ouro, certo? Acha que mataram o pobre coitado por algum motivo? Raiva, vingança pessoal?
- Tudo acontece por um motivo, senhor investigador.
John Locke sorriu misteriosamente, olhando-o de soslaio. Desmond não conseguia se sentir confortável com um cara desses por perto. Muito metido a sabido para o gosto dele.
- Então você concorda que foi um de vocês que pôs uma bala na cabeça de seu anfitrião?
- O assassinato de Lord Hugo foi infeliz e terrível e não vejo razão em um ato tão negro. Eu realmente espero que você consiga alguma resposta para sua busca. Mas saiba que está mexendo em território perigoso.
- Acha que o assassino pode vir atrás de mim? - zombou o confiante Desmond.
- Não é disso que estou falando. Como eu disse, tudo acontece por um motivo. O assassinato de Lord Hugo foi o sacrifício que este lugar exigiu. Você não pode sentir no ar e nas árvores? Este é um lugar especial, cheio de significados. Ninguém constrói uma mansão dessas e sai impune.
- Acha que os espíritos ficaram zangados?
- Acho que a morte é o Destino de todos nós. Não sei se vale a pena investigar mais a fundo: sinto que somos inocentes.
- Talvez o senhor Locke acha melhor que eu interrogue aquele carvalho ali. Ou então, espere! Acho que vi uma raposa suspeita circulando a paisagem.
John Locke sorriu de volta.
- Só estou dizendo que este lugar não é normal.
- Eu que o diga - disse Desmond - Mataram o pobre Hugo com um tiro na cara. O que houve aqui foi um ato sórdido cometido por alguma pessoa. Se ele é o sacrifício exigido pelo seu sucesso, então me diga mr. Locke, quem foi o executor deste ato? Quem puxou o gatilho em nome do ritual?
O homem careca olhou ao seu redor. Procurando alguma resposta, pensou Desmond com raiva.
- Eu não sei - disse por fim John Locke.
E Desmond foi embora.
Lady Littleton estava preocupada, abanando o leque apressada para se sentir melhor. Ao seu lado, Desmond observava suas reações enquanto conversava com Miss Austen, uma americana muito bonita, chamada pelos outros de Kate apenas.
- Foi terríver, todos nós sentimos falta dele - concordou Miss Austen enquanto Lady Littleton afogava um choro. - Não consigo imaginar porque fariam isso. Quer dizer, todo mundo pensaria imediatamente no dinheiro, mas não acho que Lord Hugo teria deixado especificamente algo para nós, ou mesmo se lucraríamos com sua morte. Não há razão para matarem alguém como ele.
- Ele sempre me fazia rir... Quando estávamos tristes e desesperados, você sabe...
- Eu entendo, Miss Littleton - disse Desmond, observando muito mais do que devia.
- Pode me chamar de Claire - ela pediu. Uma moça tão delicada, tão simpática! Seria impossível que ela fosse a assassina fria e cruel.
- Neste caso, Miss Kate Austen - prosseguiu Des na conversa - Qual você acha que seria o motivo?
- Eu não sei. Mas se quiser ouvir o que eu penso... - enquanto ela se inclinava para mais perto do detetive para falar, Desmond pensou ter visto um gesto de aviso vindo do médico, encostado na parede da saleta. Bruscamente, Kate parou de falar e voltou a posição normal - Me desculpe, eu não deveria ter dito nada. A verdade é que eu não acho justo que alguém tenha acabado com a vida de um grande amigo nosso.
Foi um gesto tão rápido, tão simples. Que tipo de ordem o Dr. Jack teria dado a Kate para que ela se calasse? Alguém estava enganando Desmond, e ele não gostava nada disso.
Lady Claire Littleton recomeçou a chorar baixinho e Kate Austen dedicou-se a consolá-la. Desmond olhou com suspeita para o médico e voltou-se para a doce garota:
- Não se preocupe, minha querida Lady Claire. Eu prometo que pegarei esse assassino, e que ele terá o que merece.
- Muito obrigado senhor detetive. Só de pensar que ele pode, que ele... é um de nós! Tenho medo do que pode acontecer.
- A polícia cuidará de tudo. Você está mais segura aqui do que em qualquer lugar.
Desmond fez uma reverência e se dirigiu para a sala de piano. No caminho, Miss Kate interceptou-o com um gesto de dúvida:
- Senhor Hume, gostaria de fazer uma pergunta.
- Mas é claro, estou às suas ordens.
- O senhor vai mesmo encontrar o assassino? Ou será que costuma sempre dar falsas esperanças para todas as damas que encontra.
- Eu acredito em minha capacidade.
- Então, por favor, resolva o caso.
Kate se virou para voltar até a sala de estar quando Desmond replicou:
- E qual é o se interesse nisso?
Ela sorriu para ele e foi cuidar de Lady Littleton.
John Locke, o misterioso e calado homem careca, sorriu de volta. Estavam os dois sentados, sozinhos na varanda, observando as belas árvores do chamado countryside inglês. Ah sim, pensou Desmond, a verde e aprazível Inglaterra. Belo lugar.
- Foi um adorável fim de semana - concordou Locke - Uma pena que terminou assim.
- Claro, - concordou o detetive - Porque matar a galinha de ovos de ouro, certo? Acha que mataram o pobre coitado por algum motivo? Raiva, vingança pessoal?
- Tudo acontece por um motivo, senhor investigador.
John Locke sorriu misteriosamente, olhando-o de soslaio. Desmond não conseguia se sentir confortável com um cara desses por perto. Muito metido a sabido para o gosto dele.
- Então você concorda que foi um de vocês que pôs uma bala na cabeça de seu anfitrião?
- O assassinato de Lord Hugo foi infeliz e terrível e não vejo razão em um ato tão negro. Eu realmente espero que você consiga alguma resposta para sua busca. Mas saiba que está mexendo em território perigoso.
- Acha que o assassino pode vir atrás de mim? - zombou o confiante Desmond.
- Não é disso que estou falando. Como eu disse, tudo acontece por um motivo. O assassinato de Lord Hugo foi o sacrifício que este lugar exigiu. Você não pode sentir no ar e nas árvores? Este é um lugar especial, cheio de significados. Ninguém constrói uma mansão dessas e sai impune.
- Acha que os espíritos ficaram zangados?
- Acho que a morte é o Destino de todos nós. Não sei se vale a pena investigar mais a fundo: sinto que somos inocentes.
- Talvez o senhor Locke acha melhor que eu interrogue aquele carvalho ali. Ou então, espere! Acho que vi uma raposa suspeita circulando a paisagem.
John Locke sorriu de volta.
- Só estou dizendo que este lugar não é normal.
- Eu que o diga - disse Desmond - Mataram o pobre Hugo com um tiro na cara. O que houve aqui foi um ato sórdido cometido por alguma pessoa. Se ele é o sacrifício exigido pelo seu sucesso, então me diga mr. Locke, quem foi o executor deste ato? Quem puxou o gatilho em nome do ritual?
O homem careca olhou ao seu redor. Procurando alguma resposta, pensou Desmond com raiva.
- Eu não sei - disse por fim John Locke.
E Desmond foi embora.
Lady Littleton estava preocupada, abanando o leque apressada para se sentir melhor. Ao seu lado, Desmond observava suas reações enquanto conversava com Miss Austen, uma americana muito bonita, chamada pelos outros de Kate apenas.
- Foi terríver, todos nós sentimos falta dele - concordou Miss Austen enquanto Lady Littleton afogava um choro. - Não consigo imaginar porque fariam isso. Quer dizer, todo mundo pensaria imediatamente no dinheiro, mas não acho que Lord Hugo teria deixado especificamente algo para nós, ou mesmo se lucraríamos com sua morte. Não há razão para matarem alguém como ele.
- Ele sempre me fazia rir... Quando estávamos tristes e desesperados, você sabe...
- Eu entendo, Miss Littleton - disse Desmond, observando muito mais do que devia.
- Pode me chamar de Claire - ela pediu. Uma moça tão delicada, tão simpática! Seria impossível que ela fosse a assassina fria e cruel.
- Neste caso, Miss Kate Austen - prosseguiu Des na conversa - Qual você acha que seria o motivo?
- Eu não sei. Mas se quiser ouvir o que eu penso... - enquanto ela se inclinava para mais perto do detetive para falar, Desmond pensou ter visto um gesto de aviso vindo do médico, encostado na parede da saleta. Bruscamente, Kate parou de falar e voltou a posição normal - Me desculpe, eu não deveria ter dito nada. A verdade é que eu não acho justo que alguém tenha acabado com a vida de um grande amigo nosso.
Foi um gesto tão rápido, tão simples. Que tipo de ordem o Dr. Jack teria dado a Kate para que ela se calasse? Alguém estava enganando Desmond, e ele não gostava nada disso.
Lady Claire Littleton recomeçou a chorar baixinho e Kate Austen dedicou-se a consolá-la. Desmond olhou com suspeita para o médico e voltou-se para a doce garota:
- Não se preocupe, minha querida Lady Claire. Eu prometo que pegarei esse assassino, e que ele terá o que merece.
- Muito obrigado senhor detetive. Só de pensar que ele pode, que ele... é um de nós! Tenho medo do que pode acontecer.
- A polícia cuidará de tudo. Você está mais segura aqui do que em qualquer lugar.
Desmond fez uma reverência e se dirigiu para a sala de piano. No caminho, Miss Kate interceptou-o com um gesto de dúvida:
- Senhor Hume, gostaria de fazer uma pergunta.
- Mas é claro, estou às suas ordens.
- O senhor vai mesmo encontrar o assassino? Ou será que costuma sempre dar falsas esperanças para todas as damas que encontra.
- Eu acredito em minha capacidade.
- Então, por favor, resolva o caso.
Kate se virou para voltar até a sala de estar quando Desmond replicou:
- E qual é o se interesse nisso?
Ela sorriu para ele e foi cuidar de Lady Littleton.
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Mistério
segunda-feira, maio 14, 2007
O Mistério da Máscara Javanesa - Parte 1

Desmond H. entrou na sala escura e aspirou os fortes aromas de tabaco e de sangue espirrado sobre o carpete. O inspetor da polícia estava ali. Um homem gorducho, já se encaminhando para a aposentadoria, com um senhor bigode cobrindo grande parte do rosto em tufos cinzentos de autoridade e cinismo. O inspetor era o tipo de homem que vira demais: conhecia cada detalhe sórdido do mundo e mal podia esperar para se mudar para uma ilha paradisíaca qualquer e se dedicar à sua plantação de batatas. Se ainda não o tinha feito era porque, no fundo, amava seu trabalho.
Desmond H. também. Curtia cada fétido e deplorável instante de seu trabalho como detetive; adorava entrar nas casas dos outros em busca de respostas, em busca dos segredos ordinários que as vidas do subúrbio são tão boas em esconder. Mas naquela noite o caso era diferente. Era coisa cerebral, material de trabalho para aqueles detetives dos romances ingleses: Agatha Christie e tal; ordem e método. Desmond odiava os casos em que tinha que pensar muito; se não conseguia diferenciar o culpado dos outros com apenas uma olhada já achava muito incômodo e desperdício de seu tempo. Acreditem, Desmond era o tipo de cara que podia diferenciar um bastardo de um assassino das outras pessoas (não que os outros não fossem bastardos também, mas Des conhecia os tipos diferentes, sabia quais eram os que iam a fundo e apertavam o gatilho e quais paravam antes da curva final) - ele era bom, muito bom no que fazia.
- Temos os suspeitos na sala ao lado - disse o inspetor. Ele tinha algo de diferente hoje. Parecia.. sorridente. Desmond não pôde deixar de sentir um leve arrepio com isso; esse caso estava ficando mais desagradável ainda - Parece que estavam dando uma festinha na casa e, quando ninguém estava olhando, algum espertinho resolveu estourar a cabeça do anfitrião.
A massa de sangue e carne espalhada no tapete central deixou Desmond levemente nauseado.
- Alguma gracinha? - o detetive perguntou, olhando para a misteriosa máscara javanesa posta sobre o rosto do falecido.
- O assassino deve tê-la tirado da parede - confirmou o inspetor, coçando seu bigode cinza - Lord Hugo tinha uma coleção de máscaras muito bonita. Dizem que andou viajando pelo mundo atrás de novas aquisições... Você sabe, depois que ganhou na loteria.
Então o caso tinha um motivo, pensou Desmond. Um ricaço cheio da grana, que passa seus dias em selvas tropicais atrás de máscaras exóticas para pendurar nas paredes de sua mansão em Dorcester; motivo? Herança era sempre a primeira opção.
- Quer dizer que Lord Hugo era um homem de sorte?
- Não me diga que você não ouviu falar disso - espantou-se o inspetor, erguendo suas também espessas sombrancelhas - Aconteceu há apenas quatro semanas e saiu em todos os jornais! Parece que, pela primeira vez na história de Dorcester um homem acertou todos os númerosa da loteria. Lord Hugo ganhou tudo, ficou milionário do dia para a noite.
- E quem é que gostaria de ver esse sonho terminado?
- Parece que tudo foi tão rápido que ele juntou mais inimigos do que amigos no processo. Você sabe Desmond, o de sempre: pessoas que achavam que mereciam uma parte do dinheiro, pessoas que apareceram de repente querendo ajudá-lo. Ah sim, provavelmente você gostaria de ver os supeitos.
Desmond sorriu. Chegava sua parte favorita da investigação. O inspetor o levou a uma sala ao lado, enquanto explicava:
- Como já disse, o morto estava dando uma festa particular. Convidou quatro amigos para passarem o fim de semana. Pelo que contaram nos depoimentos iniciais, um deles acabou chegando no segundo dia, mesmo sem ser convidado.
- Quem sabe se sentiu por fora e veio visitar o seu grande amigo - sorriu Desmond. Estava interessado nesse intruso impertinente.
- Podemos dizer que ficaram na casa apenas Lord Hugo, os cinco convidados e o mordomo James Ford.
A cabeça de Desmond ocupou-se de vários devaneios, tentando desvendar o dito popular que prega o assassino como sendo sempre o mordomo. Seria um caso interessante, sem dúvida.
O inspetor conduziu-o pelo hall em direção ao salão. Assim que entrou, o detetive observou cuidadosamente todas as seis pessoas presentes. Algumas viraram a cabeça curiosamente em sua direção, outros permaneceram em suas poltronas com cara de enfado. Desmond prestou atenção ao mordomo James, encostado em uma parede, e nas duas damas sentadas no chaise-longue.
- Estes eram todos que estavam na casa durante o fim-de-semana? - perguntou em voz baixa ao inspetor - Ninguém mais poderia ter entrado?
- Negativo - confirmou o inspetor, silencioso - Defenitivamente um deles é o assassino.
Desmond sorriu e olhou-os firmemente. Observou com cinismo um homem jovem, músico sem dúvida, conversar impaciente com um policial.
- Aquele é Charlie Pace, antigo violinista da orquestra de Dorcester, atualmente anda por aí sem emprego - explicou o inspetor - Era um grande amigo de Lord Hugo. - adicionou, como um motivo de inocência.
- Se eram tão amigos, talvez seja aqui que ele arranjava dinheiro para financiar seus vícios. Um músico aposentado com olheiras tão grandes? O cara é um vagabundo maior, pode ter certeza que nunca deu duro na vida.
- Mas é o assassino? - perguntou ansioso o inspetor. Desmond negou com a cabeça e se virou para o outro lado do salão. Observava agora as duas senhoras - São Lady Littleton e Miss Austen. Não há muito o que contar sobre elas, parecem inocentes.
Desmond sorriu apenas, observando os movimentos que Lady Littleton fazia com o leque para se refrescar. Nada era simples, ele parecia dizer.
- Aquele ali é Jack Sheppard, um médico das redondezas. Atendia sempre Lord Hugo toda vez que ele tinha seus ataques de pessimismo e tristeza; infelizmente ele era muito supersticioso e vivia assustado, talvez por causa do dinheiro da loteria. E aquele é John Locke.
Desmond virou sua cabeça para o homem careca na janela. Parecia tranqüilo e quase sorridente... A escória humana, pensou Des; seria ele capaz de assassinar e sorrir depois? Não, ele não podia definir. Eram todos atores muito bons, ou então inocentes. Desmond não queria acreditar na inocência; procurava sempre ver o pior nas pessoas, era quase um vício.
Não conseguira descobrir o assassino ainda. Isto o preocupava, deixava-o tenso por ter que resolver o caso do modo normal. Desmond odiava quando sua intuição o deixava na mão.
Olhou para o inspetor cansado.
- Vamos começar este caso então.
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