quinta-feira, março 19, 2009
Sark 5 - O Engôdo
Fui eu justamente o escolhido para realizar a missão. Teria que, eventualmente, encontrar alguém para entregar à Torre, ou Penélope viveria sua vida interia escondida na vila em que deixei-a.
Foi por isso que inventei William Blight.
(...)
O aposento estava quase todo coberto por uma camada de poeira. Somente a cadeira e a escrivaninha, por serem mais usadas, estavam um pouco mais limpas.
(...)
Não se pode facilmente imaginar o peso de seiscentas folhas febrilmente preenchidas por um louco. Na sala escura eu devo ter enlouquecido e decidido que aqueles dias terríveis haviam acabado, porque eu virei uma coisa só, eu era uma idéia:
Preciso ver Penélope!
E William Blight entrou. Sua jaqueta tinha a mesma cor que o pó da sala, sua barba era grande e desalinhada e seu rosto evidenciava um homem destruído.
Nos olhamos por um tempo, sua boca abriu para emitir surpresa e eu o matei.
Depois de ouvir o corpo cair, saí correndo da casa.
Penélope 6 - O Fim para Penélope Noite
Memorizo cada detalhe de seu tronco. Tento manter um registro mental de cada folha - é difícil, são tantas. Cada vez que uma delas cai, observo-a planar lenta até o chão e reparo na sombra que ela cria. Sempre leio na sombra um nome.
Nunca chamam por mim. Mas chamam por alguém.
Às vezes imagino que são os nomes secretos das folhas - seus últimos suspiros; às vezes penso que são os nomes de pessoas que morreram neste exato instante. Não reconheço nenhum. Ainda bem.
Pátroclo está cada vez mais preocupado. Meu marido exigiu que ele tomasse conta de mim e
Epolenep me disse: - Para a salvação ou a perdição, só te resta esperar. e foi a pior resposta que eu poderia receber. Nos separamos. Ela seria livre, depois que realizasse meu último pedido: que entregasse à Henry a única coisa verdadeiramente importante que me sobrara. Minha vida. Meu destino, minha história. Onde quer que ele estivesse, ele teria que continuar para mim quem eu era, pois o fim já me batia à porta. Ele seria Escolhido em meu lugar, estava lúcida da maldição que lhe legava. Tudo ao mesmo tempo, me despedi das coisas que conhecia e sentei para ver o mar. Enfim, bateram na porta...
Sem sombra, sem redenção.
Noite, logo depois noite. Por quanto tempo e por quantas vidas teríamos que esperar? Eu sozinha. Em um quarto em que, mesmo diante de uma vela acesa, eu não produzia uma imagem. Fui deixada para trás - o céu era de um vermelho noturno, da cor da guerra quando chega até onde estamos.
Neste momento esperei. Parecia que eu não tinha feito outra coisa em minha vida.
Sobraram-me apenas as três perguntas que enumerei durante minha vida:
1 - É possível saber o outro? Por palavras, por ações, é possível conhecer verdadeiramente outro ser humano?
2 - Onde estão os limites? Existem? Qual é a linha misteriosa e invisível que separa o dia da noite, eu de você, o objeto de seu fim?
e, por último:
3 - O que fiz de errado?
Por que minha vida não aconteceu? Por que não fui Escolhida, não fui esposa, não fui uma pessoa que existiu e realizou e teve sonhos? Foi por causa da guerra e da destruição geral? Bobagem, creio que não podemos culpar os tempos, nem a existência de Torres. Foi então Sark? Foi seu mêdo, sua ausência, que me destruiu? Eu teria sido feliz sem ele? Se escolhi viver com ele e amá-lo, como posso culpá-lo por não resolver meus problemas? Talvez tenha que culpar-me por não ajudá-lo, por também ter mêdo e ausentar-me.
Então o que sobra? Foi a voz que me fez ser Escolhida e abandonar minha vida? Mas então por que também não construí uma vida como Escolhida, por que nisso também falhei?
Esperei, imaginei, conheci algumas coisas e no fim nada parece ter acontecido comigo. Fui transformada em uma sombra com pouca vida e talvez tenha sido culpa minha que não soube - apenas agora - pedir ajuda. Na cidade vermelha e escura. Morrerei sozinha.
Há um limiar que cruzo agora. Chegou a hora do fim. Não poderão compreender a sensação de terminar, de deixar para trás o medo e a esperança e sumir da visão de Deus; isto é o que acontece comigo agora.
batem na porta.
A cadeira. A escada. Sem minha sombra pareço ter perdido o dom das palavras. Vou me esforçar ao máximo para contar o fim de Penélope:
Ela termina quando se levanta e vai atender ao chamado insistente e mesmo violento que bate à porta. Ela não sabe se é um grupo de policiais furiosos, emissários da Torre terminando enfim a perseguição ou algum louco da guerra. Mas o homem que está do outro lado não é nenhum destes. Ela nunca o viu antes.
- Meu nome é Haccu, ele diz.
Mas é mentira. Seria bom se terminasse assim, mas esta não é a história que eu preciso contar. Nesta história o homem também veste uma espada pendurada ao ombro, mas ele não está ali para levá-la à Henry Sark.
- Meu nome é Haramis Mictian, e estou aqui para levá-la embora. Vou te salvar como ultimo favor que faço ao meu discípulo imbecil que perdeu seu rumo.
A sombra dele não dizia nada.
O caderno que conta sua história ficou em cima da mesa. Claro, ele não poderia seguir além do fim.
Ela foi com ele pela noite clara e assustadora.
Cruzaram a guerra e os campos como em um sonho. Depois de várias noites chegaram na Casa onde o mundo termina.
quinta-feira, outubro 09, 2008
Penélope - quatro
O homem à porta: é preciso descrevê-lo. Escuro, de porte majestático e indiscutível. Olhos perfeitamente magnéticos que me assustaram. Posso conseguir expressar um medo tão fundo, tão primitivo?
- Você é a esposa?, ele perguntou, pondo a mão sobre a porta, de um modo que me fez sentir que nunca mais poderia fechá-la.
Acenei e ele entrou.
Então na contraluz pude ver sua sombra, tempestuosa e estrangeira, este homem não deveria estar aqui! Poder, me gritou sua sombra, vingança, destino e Deus. Tantas outras palavras, e em línguas destinadas à proibição. Ver sua sombra foi olhar em um rasgo do universo, ver o vertiginoso e repugnante fundo. Este homem era o mestre de meu marido, aquele que estava construíndo a Torre em nosso mundo.
- Onde está Sark?
Epolenep tremeu e eu andei para trás. Henry terminava de descer a escada e viu quem chegara; fez um cumprimento e tocou em meu ombro, então pude ir embora.
Os dois homens se afastaram e foram conversar ao portão. Eu entrei, assustada demais para me concentrar em outra coisa. Epolenep me olhou esfregar a estante com um pano. Ela me disse a calamidade está próxima.
- Não sejamos pessimistas.
As vozes dos dois chegavam distantes demais. Conversavam no escuro, não pude ler suas sombras.
Henry voltou depois de um tempo. Pude ouvir o movimento de sua roupa quando fez uma reverência e seus passos na escada. Convêm-me descrevê-lo neste momento também:
Estava assustado. E suas unhas curtas pareciam ainda mais brancas. Uma mecha de seu cabelo preto caía sobre o olho esquerdo. Sua boca, um pouco aberta, revelava os dentes cerrados e rijos. Ele se apoiou sobre a bancada como se desabasse, respirou algumas vezes bem silencioso e disse:
- Arrume as malas e avise nossa vizinha porque estamos indo embora.
Não havia entendido a razão, mas cumpri a ordem. Nos separamos e eu comecei a me preparar para a coisa terrível que ele havia me pedido em voz tão calma.
Hoje tenho um pouco de dificuladade em me lembrar de nossa casa em Estafansa. Eu não sabia, quando ouvi Henry dizer aquilo, por quanto tempo ficaríamos fora, por isso não sabia que tipo de olhar merecia minha casa.
Agora tenho saudades. Estávamos casados enfim, morando juntos em Estafansa, um certo tempo depois das atribulações sofridas no templo de Compostela que, apesar de angustiantes na época, só consigo me lembrar com carinho.
Apesar de não ter entendido a razão secreta das palavras de Henry, sabia que aquilo se resumia a uma coisa: fosse o que fosse era uma fuga. Estávamos aproveitando os últimos minutos dados para escapar.
Abri o armário. Ali, vendo minhas roupas e meus objetos tão pessoais, me desesperei. Poucos conhecem o terror de guardar os seus pertences para fugir. Coloquei tudo de modo apressado e desorganizado dentro da mala. E se me arrependesse? E se estivesse escolhendo errado? Rapidamente consegui trazer também este caderno. Eu levaria poucas coisas. Por quanto tempo ficaríamos fora? Onde iríamos?
O que estava acontecendo?
Senti que seria impossível perguntar, mas também seria impossível continuar arrumando minhas coisas sem saber.
Era muito escuro, asism eu sentia, pensar no que teriam discutido à porta. Sentia também que não podia ainda discernir uma razão.
Olhei ao redor, para a casa. Quem cuidaria dela enquanto estivéssemos fora? O que aconteceria com tudo o que iríamos deixar para trás? Quem alimentaria o peixe?
Henry estava em silência e trazia suas coisas. Nada mais foi dito.
Avisei minha vizinha, aturdida pela falta de informações que dispunha. Por sorte ela entendeu, como eu havia entendido, que era inútil fazer perguntas e que o melhor era agir.
Saímos eu e ele e a noite era escura. Paramos em um restaurante no caminho onde fingimos que estava tudo bem. Depois de um tempo de luzes ofuscantes e sorrisos colocados entre uma multidão desconhecida, voltamos à estrada escura.
Era tarde da noite e já havíamos saído da cidade. Não dormi. Olhava a escuridão passar mas não dormia. Como poderia? Diante de nós se abria um limiar, um umbral terrível e ameaçador; dormir apenas nos faria deslizar para o outro lado.
Tenho essa impressão. É durante o sono que mudamos. É enquanto dormimos que as nossas idéias mudam de lugar e logo abandonamos aquilo em que mais acreditávamos; as coisas terminam devagar, com a passagem do tempo: e essa passagem do tempo se dá onde menos nos damos conta. Se ficássemos acordados sempre, perceberíamos os limites e nunca mudaríamos de opinião.
Durante toda a noite viajamos. Vi a estrela do norte subir e descer até que, exaustos, chegamos
Era uma pequena cidadezinha, próxima a um lago onde, mais tarde eu saberia, dormiam patos listrados, em conjunto e felizes, sem saber que atravessávamos limites e rompíamos fins.
Logo estaria amanhecendo. E a noite, terminada.
Henry havia me dito no caminho. Seu mestre aparecera à nossa porta esta noite porque tinha uma missão a lhe oferecer. Ele deveria encontrar e matar um homem. Henry havia ficado abalado, ele não se sentia capaz de matar. Mas o homem da Torre lhe dissera que era preciso, que só assim o seu projeto triunfaria e, como os dois acreditavam no projeto, sabiam que seria preciso realizar muitas ações impensadas, entre elas terminar uma vida.
Eu nada disse. Apoiava secretamente sua decisão de não matar.
- É algo que eu preciso fazer, ele me disse.
- E você acha que não conseguirá? eu perguntei.
- Você não vê? Quem eu preciso matar é você.
Olhei-o confusa.
- Ele me ordenou que encontrasse o Escolhido, que havia um no mundo agora. E que seria uma pessoa a nos atrapalhar porque faria de tudo para destruir os planos, acreditando estar destinada. Eu conseguiria. Eu teria conseguido matar uma pessoa...
Então ele me disse:
- Mas é você!
Nos olhávamos. Só havia o escuro que tomava formas diferentes: seus olhos assustados, nossas mãos frias, roupas e cabelo.
- Então o que faremos?
- Agora você deve ficar escondida. Eu te trouxe para uma cidade nos arredores de Estafansa. Ninguém pensará em procurar o Escolhido aqui, então acredito que você ficará segura por enquanto. Então, eu farei o que devo fazer. Vou ser obrigado a levar adiante minha missão de busca. E ao fazê-lo, eu irei despistá-los.
- Como?
- Se eu estiver no comando, isso será fácil. Mas nada disso importa. O que eu te peço é que fique quieta e more aqui por uns tempos. Eu sei que vai ser difícil de suportar essa mudança, mas vamos ter que continuar acreditando que vamos nos reencontrar. E não fale a ninguém sobre as sombras. É disso que estão atrás.
- Eu farei.
- Eu vou me esforçar o máximo para te manter à salvo. Por favor, espere por mim.
Um último toque, um último olhar. Este era um limite que eu me recusava a ultrapassar. Ele estava triste porque perdera a capacidade de acreditar no que mais confiava. Seus projetos, no fim, haviam decidido como alvo a mulher que amava. Naquele momento eu vi escrito em sua sombra toda a sua dor e vacilação diante da dúvida imensa que o dominava. Eu vi as palavras onde está certo? e porque somos? Pensei ver também o medo de morar ali, longe dele, e percebi que olhava na verdade parte de minha própria sombra, misturada à de tudo o mais no escuro.
Nos separamos. E foi como se houvesse sido para sempre.
Ele sumiu no fim da história, para dentro de sua própria vida.
A noite estava escura e eu não pensei em dar mais nenhum passo. Estava gelado ficar de pé na estrada mas nada podia ser feito. Eu estava petrificada, imobilizada.
Epolenep me mostrava uma confusão de palavras, que era a confusão que eu sentia. Medo, medo, escuro, amanhã.
Tive muito medo do amanhecer e do que ele traria. Não poderia suportar a passagem do tempo.
É preciso ficar em silêncio e não despertar atenção. Vou viver...
Fechada.
...nesta cidade por um certo tempo, preciso me acostumar.
Eu era Escolhida esse tempo todo. Me lembro muito bem de ter me encontrado com um deus que me disse isso. Minha habilidade de falar com sombras não era a prova? E agora seria perseguida por isso? Sempre ouvi dizer que os Escolhidos fariam coisas incríveis, e que poderiam mudar toda a estrutura do mundo. Achava que era tolice. Com todos os problemas pelos quais o Império passava ultimamente, eu acreditava que essas histórias milacurosas eram normais, já que traziam esperança para os que haviam perdido a sua.
E eu, o que fiz como Escolhida? Sim, admito que pensei em fazer coisas grandes e bonitas como as histórias(certamente agora tenho inimigos grandes a me desafiarem). Mas agora sentia ainda mais forte e viva esta vontade: Eu estava pronta para cumprir um destino que eu preferi ignorar por boa parte de minha vida.
Porque o que fiz neste tempo foi apenas me casar. E viver feliz em Estafansa, sem compreender muito de mim mesma. Poderia agora tentar procurar por algo que fosse realmente meu, escondido em alguma estrada do mundo? Sim, eu poderia começar tentando entender qual era a verdadeira extensão de minha habilidade. Eu gostaria de ajudar as pessoas, nem que fosse devolvendo-lhes um pouco de esperança...
Mas não podia. Agora precisava me esconder, ficar em silêncio e não chamar a atenção. Ou isso arruinaria o plano de Henry para me manter à salvo. Preciso me acostumar a viver nesta pequena cidade próxima a um lago e me acostumar a não ser mais quem eu deveria ser e estivera evitando estes anos todos.
De repente, não haviam mais caminhos.
segunda-feira, março 19, 2007
O Silêncio de Penélope
Era como se. . .
Certas coisas foram parando de funcionar. As palavras cresceram tanto e me cobriram como uma selva impenetrável que eu as perdi. Quando vi as máquinas de guerra cercarem a cidade, todas as sombras gritaram ao mesmo tempo. Eram tantas palavras e memória sendo jogadas velozmente de um lado a outro que ficou impossível sequer pensar.
Pouco, tão pouco tempo depois, os foliões que celebravam a Noite de São Bartolomeu perceberam que a guerra chegara às suas casas e que havia um ódio intenso por trás das ações humanas.
Procurei minha voz e tentei dilacerar o medo e a inundação de palavras que nada diziam; atravessei a selva impenetrável com a firme resolução de que estava ali. Epolenep nos viu morrer.
Corri pela rua tentando encontrar algum modo de gritar minha presença, de acender uma chama sinalizadora para indicar a localização de vidas.
"Estamos aqui! Não nos matem, estamos aqui."
Sark reapareceu atrás de mim e abriu com um empurrão a porta da casa de senhorita Cassandra.
Estavam todos ali. Senhor Marco em uma cadeira perto da porta, fumando nervosamente seu cachimbo. As cinco mulheres pálidas semi-ocultas pelas sombras da casa escura lá no fundo.
- Vamos - ordenei-lhes, puxando cuidadosa senhorita Cassandra pelo braço - Temos que sair daqui.
Sark guiou senhor Marco até a porta antes que esse pudesse argumentar ou reclamar.
- Cassandra está grávida - avisei meu amrido - Se pudermos informar os homens que atacam eles a deixariam passar.
Susto. Impossível. Foi o que me disse sua sombra.
"Estamos aqui. Uma mulher e um bebê no mesmo corpo, não nos matem."
- A guerra perdeu sua humanidade há muito tempo - disse Henry - Vão nos amtar a todos, meticulosamente e sem distinção, porque estamos em seu caminho.
Como se. . .
Enfim,
a noite
Alguns cacos de vidro voaram na primeira explosão. Quando uns poucos, que somente
buscavam
Eu busco. Eu, Penélope Noite. Eu escolhida. Eu que deveria salvar a todos, mas os condenei.
Me lembro de uma coisa bem bonita: ao se sentar na carroça que os levaria escondidos para a segurança, a senhorita Cassandra disse Fernanda e todos entendemos que naquele momento ela escolhera o nome de sua filha.
Que haveria de sobreviver e crescer e ser feliz.
Ou foi o que eu vi no centro daquele labirinto selvagem de palavras demais.
As primeiras explosões foram de aviso, como se quisessem nos informar do acontecimento funesto por sobre o pipocar dos fogos-de-artifício da já extinta festa de São Bartolomeu. Mascarados corriam pela rua e o fogo começou.
Começou!
Vi a carroça partir com tristeza. Senhorita Cassandra e senhor Marco foram embora de minha vida naquela noite. Sumindo aos poquinhos na escuridão que cercava a cidadezinha.
Ali, no Coração das Trevas, um buraco se fazia. Ele antes era uma pequena cidade, um lugar onde pessoas tinham expectativas, conversavam, se odiavam, se vangloriavam, não entendiam, namoravam, coziam e observavam coelhos. Agora era só vazio. Todas as palavras que nunca mais seriam usadas voando pelo ar como um brasa brilhante que sobe no ar quente e entupindo meus ouvidos de pensamentos que eu não podia pensar.
E se. . .
E se eu estivesse gastando o meu estoque de palavras que estavam guardadas para eu usar durante toda a minha vida? Me atormentava o silêncio final.
Senti-me ao lado de Sark, no alto da colina.
- Estou exausta. Não vou conseguir fugir.
- Se eu distrair as máquinas de guerra você pode escapar. Ainda tenho minha autoridade da patente da Torre Negra, eles vão me ouvir.
Um som fundo e constante. Era assim que elas funcionavam.
- Não quero que você morra para me salvar. Se você se for eu ficarei sozinha para sempre, porque mais ninguém é como você Henry Sark, capaz de me entender.
(Eu estava certa.)
- Eu prometo que voltaremos a nos encontrar. Você me promete que irá fugir, aconteça o que acontecer, e sobreviver? Se você estiver viva eu irei ao seu encontro, e vou me lembrar para sempre de tudo o que aconteceu entre nós.
(E ele estava errado.)
Mas eu ainda não sabia. Pensei que poderíamos ter ainda outra tentativa, que quando Pátroclo apareceu ainda tínhamos alguma chance.
Sark conversou com Pátroclo rapidamente. Deu-lhe instruções de me levar a algum lugar, de cuidar de mim e de nunca fazer-me mal.
Eu iria, outra vez, ser exilada do mundo.
Mas esta noite era diferente da outra noite, essa noite era a última entre eu e Henry, e a mais apaixonada.
Debaixo da árvore, depois que Pátroclo correu para atrasar as máquinas de guerra, Sark disse que me amava. E isso, apesar de tudo o que aconteceu e acontecerá, era verdade. Eu sabia que era verdade, pois não eram apenas seus lábios que falaram, mas a noite em volta, a árvore, a colina, a família de coelhos, os patos listrados, o corvo solitário e tudo o mais que eu nunca veria novamente.
Nossas palavras se soltaram e cruzamos nossas vidas.
- Meu destino é seu destino.
- Minha dor e alegria é sua dor e alegria.
- Nossa sombra.
Conversa de Amor
(sem falar)
(porque o mundo acabava ali)
Vínhamos da fronteira final como quem busca um simples
Era azul com um fundo de verdade, nossa casa, esboçado pelo
Onde estavam as palavras, me perguntei? No fundo
de um longo abismo, ele respondeu.
e sorri, porque não podia
Era engraçado, era engraçado mesmo. E foi assim que começou.
Mas por que nós? Se
de noite as aves
- terminavam os encontros, quando os bancos da praça ficavam escuros e tudo em volta ia
Tão simples!
Um talher que brilhava
e eu me lembro de quando caiu
pois todas as
Minha vida
Comecei do começo, de onde me lembro. Por que sou definida pela memória que tenho de mim, do que acho que sou.
só quando vi seus olhos
, burburinho alheio
sua ironia, seu vexame
E quando morreu
Vontade, baboseira
Era como se. . .
e, portanto, perfeito.
Somente com
Tenho certeza apenas nas palavras. Um grande vazio se abateu
fruta
vergonha
"Estamos aqui"
Terminar o seu
galhos das árvores. Cruel e feroz em seus balanços e ondulações. Tudo isso eu
em seus
olhos tenros
"Penélope" ele disse. Soltou o lápis e
cacos e cacos de vidro! Uma chuva de
as lâminas despedaçadas que nunca mais
espelho do meu amor
Ah, Henry Sark, eu. . .
"Estamos aqui. Não nos matem, estamos aqui."
Essa era
Colocamos nossas iniciais no final da carta, como se ainda quiséssemos dizer algo:
P. S.
terça-feira, março 13, 2007
A pegada de Penélope
Vi-o e, com isso, compreendi o fim da cidade. Foi uma visão tão lúcida, tão real, que quase chorei por tudo o que ainda não havia acontecido.Ele subia a colina mancando, de passos tortos e tristes. Seu cabelo parecia diferente, cortado ao estilo militar usado na Torre. Seus olhos fundos traíam cansaço infinito. Sua alma inteira me gritava algo que ainda não podia caber em palavras.
Ele não havia me visto, por isso permaneci petrificada onde estava e senti a presença invisível atrás de mim que sabia ser da antevisão do fogo que queimaria as casas e devoraria as árvores. A chegada do viajante parecia confirmar o fim. As tochas de São Bartolomeu dançavam tontas, imunes aos presságios que parecia se encaminhar para a realização.
- Sark! consegui gritar por entre os obstáculos de minha própria garganta fechada.
Ele me olhou com medo. Sua sombra me falou a palavra amor e a miha devolveu com a palavra esperança; percebi neste instante que não havia perdido a capacidade de entender a linguagem das sombras e sorri, porque neste mesmo instante o universo era aberto e eu estava em seu centro. Nos braços afoitos de Sark eu estaria sempre no centro, vendo coroarem as idéias e voarem os pássaros migratórios.
- Vamos - ele falou. Estão vindo logo atrás de mim, temos que fugir mais uma vez.
- Você parece mais velho... e mais sábio também Henry Sark.
Ele suspirou a seu modo, como fazia quando me reprovava uma atitude fútil. De minha parte, eu sabia que não estava perdendo tempo, porque sabia simplesmente que não havia tempo algum. Eu havia visto o Juízo Final e sabia que de nada nos servia correr agora, principalmente porque...
- Eu tenho que avisar senhora Cassandra - falei - E o senhor Marco. É bom que eles fujam também.
- Não há tempo meu amor, eles sabem de tudo e vem atrás de você! Eles descobriram, vamos fugir!
- Agora, mais do que nunca, sinto-me aberta. Você não entenderia isso; não passou esse tempo todo esperando.
- Eu esperava também! Esperava por um tempo em que pudéssemos viver juntos. Você não tem idéia do que fiz para enganar Ganz e todos da Torre! Não me diga que foi fácil para mim só porque estava na estrada. Era escuro e cansativo andar pelo mundo sabendo que nenhum dos caminhos era você.
- Eu sei que agora eles sabem quem sou. E que estão vindo. Eu vi.
Ele me olhou profundo. Me disse que nunca havia tirado da cabeça uma mulher chamada Penélope e que morreria por ela agora que tudo estava descoberto.
- Antes eu teria dito que queria poder ficar aqui com vcoê para sempre - contei-lhe - Mas agora quero ser o que finalmente tenho liberdade de ser: a missão de uma escolhida é salvar os outros, quero salvar Cassandra e Marco, e quem mais puder.
- As máquinas de destruição estão vindo aí. Ninguém vai sobreviver.
- Qual fim buscamos?
- Buscamos um final feliz.
- Eu busco um final livre. E, afinal, ser livre é ser feliz? Ou a liberdade nos tira a possibilidade de felicidade?
- Se sobrevivermos a essa noite seremos os dois. Já sou considerado um traidor e expulso da Torre. Você é uma inimiga a ser destruída. Não temos mais lugar nenhum para pertencer.
- Isso não é ser livre.
- Também não é morrer desonradamente. Podemos ir embora agora?
A colina suspirava noite; os ecos da festa que acabaria em tragédia soando no fundo.
- Se temos que fugir não estou fazendo o que escolhi. Então, só para vencê-los, quero fazer o que eu escolho fazer: quero salvar as pessoas da aldeia.
O rugido das máquinas gigantescas começou a soar no horizonte. A qualquer momento, a qualquer instante. . .
quinta-feira, fevereiro 22, 2007
Penélope - cinco
Nada disso vai embora. Acho que isso é para sempre então. Devo me acostumar com a pequena cidade, mesmo que ela nunca se acostume comigo.
(Aliás, tenho medo de que o velho que sempre carrega uma vassoura esteja na verdade me espiando. Não duvido que se ele subesse quem sou me entregaria sem hesitar para os homens da Torre Negra. Detesto aquele velho ranzinza, assim como detesto não saber o que vai me acontecer. )
É por isso que vou para a lagoa olhar os patos. Já são meus amigos e conversam comigo. Todo fim de tarde - ou Crepúsculo - saem da água e caminhamos juntos pela grama enquanto ainda se pode ver. Acho lindo ficar vendo as coisas perderem sua nitidez e as sombras se esticarem espreguiçosas. Por isso acompanho os patos caminhando no quase escuro em seu quase-desengonçado passo, vendo o céu se tingindo de explosão para depois cair em escuridão azul e preta. Quando caminho pela relva nessa hora do dia, meu coração hesita em resistir, pensando em cada coisa pequena e bonita que existe no mundo; sonho em sobreviver somente no Crepúsculo, e dormir o resto do dia. Só assim eu pararia de chorar toda noite por não ser não ser não ser.
Mas o festival está tão perto. E a iminência do dia de São Bartolomeu me deixa mais contente por ver em todos os rostos a alegria de uma criança.
Busquei a água no poço novamente e conversei com as crianças que brincavam ali perto. Elas me disseram que brincavam de "Pássaro Negro", um jogo cheio de corrida e esconder. Sem pensar, achei que estava vivendo aquele jogo; por um instante minha vida se tornou o desafio do pequeno pássaro negro, de escapar e não ser visto.
Chorei debaixo de Sem-Nome pensando nisso. Pensando em como poderia ser livre, em qual abandonar me levaria à liberdade? qual impulso de escolha eu teria que seguir para chegar ao lugar onde terminam todas as coisas?, em como queria abrir minhas asas e sair dali, para - quem sabe, por que não? - conhecer o mar que eu só havia imaginado.
Um melro tinha seu ninho na árvore Sem-Nome. Eu podia vê-lo depois que os coelhos iam dormir, pois era essa hora que ele cantava. Eu caminhava com os patos pela relva e voltava para a árvore para ouvi-lo cantar. Corria então até a casa de senhora Cassandra e chegava cansada no momento em que o jantar era servido. Adoro a sensação da roupa chacoalhar e voar equanto corremos. Adoro passar correndo pela grama e levantar insetos assustados, com a música do melro preto ainda na cabeça e lembrando de como os patos suportavam o clima frio. Eles migram para longe, sabia? Voam em bandos para os outros hemisférios e conhecem partes do mundo banhadas em sonho e magia. O cheiro da noite era complexo e múltiplo, e me fazia querer correr mais ainda, para tentar alcançar as estrelas.
Dentro de casa o cheiro era outro: as mulheres tentavam esconder o odor da comida para não provocar mais fome do que já tínhamos. A guerra deixava pouca coisa em nossas mesas e não era raro jantarmos e almoçarmos apenas pão, comendo os nacos que nos cabiam com avidez. Estranhamente talvez, não me sentia triste ou injustiçada, já que acabara de alimentar os coelhos, caminhar com os patos e escutar o melro cantar, e me considerava satisfeita. No dia seguinte faria o mesmo, e assim por diante até que fosse feliz. Minha nova vida em meio à natureza me dava sempre alma nova para sorver e as palavras me enchiam de vontades no crepúsculo; se tudo continuasse assim, eu seria muito grata ao mundo por poder me colocar em um lugar onde podia ter sempre novas sensações de estar inteira.
Mas à noite pensava. E todo o esforço em busca da felicidade que tive durante o dia sumia como pó. Pensava e pensava em tudo o que não era cheio, em tudo o que me faltava e concluia que sentia que precisava de uma vida. Uma vida nova com menos dores de não querer mais estar aqui, menos querer coisas que sempre estão além. Mas quem disse que as mulheres ganham novas vidas?. A dor voltava sempre, e não deixava de pensar que falhei em ser esposa e escolhida, em ser uma cidadã ativa e uma pensadora; no final das contas nunca existia uma Penélope, era sempre um não-alguma-coisa que sobrava. Será que o tempo cura mesmo nossas dores? Sentia tanta falta de Sark quanto no primeiro dia. Os nossos cortes internos podem ser remendados e curados? Quando será que poderei ser sem-dor de novo? Algo dentro de mim me diz que nunca superarei as feridas enquanto ainda esperar. Se Henry fosse morto, seria mais fácil, mas como em algum momento espero que ele volte, eu crio expectativas que são sempre destruídas, e isso irá continuar acontecendo até o final de minha vida, se eu não perder a esperança, essa coisa estúpida, que me faz continuar querer, quando na verdade tenho que viver nessa cidade e matar meus sentimentos para não sentir mais dor.
-
"Quando você vai parar de subir à colina e chegar atrasada para o jantar?" me perguntou senhor Marco um dia, enquanto cuidava do balcão. Ele achava que estava perdendo grandes oportunidades de me envolver com as pessoas da região e fazer amigos.
Cidade idiota. Não quero nenhum amigo. Quanto menos souberem de mim, melhor. Pois aí nunca saberão quem sou. Isto é... se eu for mesmo a Escolh- . Quero dizer, o que foi que eu fiz nesse sentido? Além de trabalhar no armazém do senhor Marco e subir na colina verde para olhar o lago não fazia mais nada em minha vida. Quem era eu? Ótima pergunta, pena que não havia nenhuma ótima resposta para os céus me darem.
"Gasto meu tempo lendo todos os livros que o senhor me emprestou", eu menti. Lia os livros durante as noites febris de insônia, que não eram poucas. Mas sabia que se o senhor Marco achasse que estava lendo livros ele me permitiria ficar sozinha.
Já a senhora Cassandra entendeu que eu precisava de um tempo calmo para mim mesma. Só que a solução que inventou foi a pior possível: pensando que o tempo que eu passava sozinha era tempo desperdiçado em reflexões tristes que só me deprimiam, me colocou para costurar junto com as outras moças. Pelo contrário! Se ela me ocupasse as noites lhe seria eternamente grata, mas tirar de mim os passeios até a colina e o lago dos patos era terrível. Teria que passar quatro tardes da semana costurando roupinhas de bebês e lençóis para os recém-casados. Àquela altura, já não aguentava mais ver a vida na cidadezinha se repetir: era sempre alguém que se casava ou tinha filhos ou o filho de alguém se casava ou algum casal era filho de alguém que se casou. As fofocas que contavam as velhas moças eram sempre as mesmas. A odiosa dona Hortênsia sabia que eu não tinha habilidade para costura e logo me deu um trabalho difícil para me ver falhar e poder repreender-me com sua voz nasal. Meu Deus! Há algo maior do que isso?! Tem de haver uma vida mais interessante e cheia de cor no universo em que vivemos! Por que ninguém vem me resgatar? Onde você está Sark?! Por favor, por favor, por favor, me salve.
À noite senhora Cassandra pôs minhas mãos na água quente para ver se melhoravam dos machucados. Senhor Marco foi gentil e me deu uma pasta que tirara do prórpio armazém. Os dois tentaram me econrajar e disseram que eu acabaria sendo melhor. "Você ainda tem muito tempo livre, pode praticar sua costura quando quiser" me disse Cassandra com bondade. Expliquei para eles que o queria era justamente poder experimentar a natureza que morava na colina e passar o tempo sozinha, comigo mesma. Não era um tempo de tristeza, contei ao senhor Marco, pelo contrário, era minha parte favorita do dia: vê-lo sumir aos poquinhos e respirar seu cheiro quando virava noite.
Cassandra me permitiu subir à colina quando quissesse. Mas teria que costurar algo, mesmo se fosse lá em cima, já que o festival de São Bartolomeu se aproximava (eu me perguntava se este seria o grande evento social dali) e as velhas damas estavam sobrecarregadas e precisando de ajuda. Coube a mim costurar a fantasia de minotauro, feita de couro simples e um pouco tosco. Era claro que nunca seria a fantasia mais bonita: era esse o modo de dona Hortência fazer com que eu continuasse desapercebida, costurando uma fantasia insossa e inútil. A inveja dela me deixou mais tranqüila: o que não queria mesmo era ter a atenção da cidade, embora, por outro lado, eu secretamente desejei costurar a fantasia de Arlequim, dourada e brilhante.
Cassandra me ensinou bastante, e eu realmente pude aprender praticando sob a árvore, enquanto alimentava os coelhos com cenouras roubadas da despensa.
O melro, o belo pássaro negro que cantava para anunciar a noite, apareceu com dois ovos no ninho. E assim tudo continuava sem mudar. Minha vida parecia ser feita de intensas interrupções e longos períodos de calmaria: grandes baques como conhecer Sark, ser feita Esc- pelos deuses e fugir da casa de Estafansa eram sempre seguidos por períodos de vazio e de uma calma inquieta.
Por quanto tempo continuaria isso? Queria poder ler o futuro e saber se durariam anos ou semanas. Me atormentava pensando que Sark poderia estar, agora mesmo, ali na cidade, procurando por mim.
Me doía imaginar certas coisas: que ele nunca iria voltar; que ele veio e nos desencontramos; que cartas suas foram barradas ou extraviadas; que os peixes de minha antiga casa estavam agora todos mortos, já que ninguém os alimentava havia meses; que as escadarias do Panteão em Estafansa- lugar onde gostava de tomar sol quando menina - estavam sendo tomadas pelos exércitos da Torre Negra; que aquele homem terrível que comandava toda essa guerra assustadora e que aparecera um dia no portão lá de casa sabia onde eu estava..
sábado, fevereiro 10, 2007
O Exílio de Penélope
Com muito mais prazer ela observava os patos deslizando. Gostava da cor de seus pescoços, um verde brilhante, e achava linda a sua plumagem marrom-e-branca. Os patos sempre a acalmavam, já que faziam sua mente deslizar pela superfície da lagoa plácida. No caminho da volta sempre parava para colher amoras. Arregaçava o vestido e subia em uma árvore para descer quinze minutos depois toda lambuzada e feliz. Levava sempre um punhado para a senhora Cassandra como agradecimento e se encantava com o simples prazer de ver o dia morrer. Não havia coisa mais misteriosa para Penélope do que aquele momento em que o dia já se foi, mas a noite ainda não chegara. Era o momento em que tinha que parar de ler pois não enxergava mais as letras impressas no livro, mas podia muito bem admirar o rosado-alaranjado do céu. Quando, pensava Penélope, o dia acaba e a noite começa? Onde fica a linha divisória que determina a mudança? Ela pensava neste momento do dia como uma fase independente, nem dia nem noite, chamada Crepúsculo. Mas ainda assim o problema persistia: onde começava e acabava o Crepúsculo? Qual momento dividia exatamente os momentos?
Um dia doeu-lhe tanto o peso de sua vida que resolveu atrair os patos para ver o quanto confiavam nela. Levou alguns biscoitos para a lagoa e secretamente - pois escapara furtivamente em um momento em que ninguém mais precisava dela - jogou os biscoitos na água para ver se atraía os patos listrados. Pensou que viriam correndo para comer em sua mão, mas acabaram ignorando totalmente o alimento jogado. Penélope se sentou triste na pequena ponte que cruzava a ponta da lagoa e colocou os pés descalços na água. Pensou em como era covarde e triste. Em como deveria estar em algum lugar fazendo alguma coisa ou em uma aventura terrívelmente emocionante talvez para salvar o reino que caía, mas nada. Estava ali, escondida e triste, pensando que nunca mais seria feliz - e poruqe havia de ser? Por acaso merecia felicidade?
Penélope Noite nunca responder ao seu chamado e se sentia culpada por tudo o que acontecia. Talvez por isso fingia estar com sono e ir dormir toda vez que senhor Marco dava notícias de Estafansa e da guerra que se desenrolava. Ou foi por isso que duas vezes fugira para os fundos do armazém para não ouvir um freguês comentar sobre a Torre Negra.
Muito triste se dirigiu à árvore Sem-Nome da colina verde. Quando estava quase chegando viu um movimento de animal próximo à ela, chacoalhando a grama e fugindo para a direita, onde não poderia mais ser visto. E esta foi a primeira vez que Penélope conheceu a família de coelhos selvagens que moravam ali.
Uma vez surrupiou um pote de mel do armazém, com a desculpa de que depois pagaria, e levou até a árvore para comer. Deixou um pouco no chão para as formigas, desejando estar fazendo uma boa ação. Queria que os deuses fizessem o mesmo com ela: que jogassem um pouco de seu mel para a pequena humana lá embaixo. O problema é que os deuses nunca fazem nada por bondade apenas, e Penélope continuou abandonada no mundo. No entanto, o mel que a humana deixou cair atraiu os coelhos. Estes sim se aproximaram dela sem medo e comeram próximos à sua mão. Penélope ficou tão feliz com a confiança que os pequenos roedores lhe davam que prometeu trazer sempre algo para eles comerem. Senhor Marco nunca percebeu que as cenouras começaram a sumir; afinal, nem ele nem Cassandra gostavam muito de cenouras, então, para que a preocupação?
A vida ali continuava devagar. Se pudesse sobreviver às noites, Penélope pensava consigo, poderia sobreviver à tudo em seu exílio. Se pudesse sobreviver às noites solitárias e imaginativas, onde sonhos não realizados tomavam o lugar de sua vida real e a faziam preferir a morte, sobreviveria à falta que sentia de Sark. Isto é, se ele algum dia voltasse.
Os patos listrados de lindos pescoços verdes eram os únicos ali que concoradavam com ela, e deslizavam calmos na lagoa como se dissessem "sim Penélope, ele vai voltar".
terça-feira, novembro 07, 2006
Penélope - três / H. Sark - cinco

"No meu quinto dia de estadia no templo de Campostela eu tentei o proibido: experimentei os meus recém-adquiridos poderes. Depois de verificar se o austero quarto estava trancado e se o corredor lá fora estava silencioso, reclinei-me sobre a cama espartana e olhei as sombras dançando no teto por efeito da vela bruxuleante. Eram horas silenciosas, da madrugada fria, e acho que apenas eu estava acordada naquele momento.
Sabendo-me sozinha, comecei a mover as mãos em uma dança sem sentido. Percebi assustada que as sombras me seguiam, que a matéria escura estava junto aos meus dedos: eu poderia controlá-la e movê-la o quanto quisesse!
Fiquei orgulhosa, e também me odiei por isso. Ainda não havia aceitado ser Escolhida, portanto estava proibida de me divertir movendo sombras. Era um destino que eu relutava, negava, e que, por enquanto, não seria aceito sem explicações. Mas não havia maneira de entender. A estátua não voltou a falar, o deus ficou silencioso; mesmo agora a Sala das Sombras foi fechada sem razão e não posso mais rondar por ali, esperando outra manifestação divina (Que provavelmente não virá nunca).
Porque gosto tanto de ter poderes? Acho que isso me faz sentir única, o que significa que as atenções se voltarão para Penélope. Eu, que tinha inveja dos peregrinos por terem deuses para pedir, tenho que ser a deusa de alguém, oferecendo o que me pedem.
Não que alguém tenha me pedido alguma coisa. Ainda. Não sei. Talvez nunca saibam sobre mim.
Eu terei de dizer para as pessoas que sou a...
*
Por outro lado, acho que tenho um certo orgulho de meus poderes, por causa Dele. Sim, eu gostaria que ele prestasse atenção em mim. Será que o que eu quero é impressioná-lo? Mostrar a ele que sou única e supreendente? Isso seria tão mesquinho e arrogante!
Vi-o poucas vezes depois de nosso primeiro encontro. Uma vez no refeitório, com seus estranhos companheiros de viagem; outra caminhando ao redor do altar central; e a terceira foi no salão vazio cheio de janelas.
Não cheguei a conversar em nenhuma das vezes. Ao contrário, quem me interpelou outro dia foi seu companheiro, um tal de Ganz, que perguntou:
- Senhorita, conhece a Sala das Sombras?
- Conheço, respondi timidamente, esperando um olhar do outro estranho.
- Já ouviu falar de coisas anormais acontecendo lá dentro?
- Não, respondi. (Isto é, sem contar com a garota que entrou lá dentro outro dia e escutou um deus falar pela voz de uma estátua, escolhendo-a para salvar o mundo).
Insatisfeito, o homem foi embora.
E ontem mesmo a Sala das Sombras foi fechada. Pensei que poderia levar o estranho até lá e mostrar a ele as estátuas, tudo uma desculpa para conversarmos e eu conhecê-lo melhor. Mas agora já foi. Agora já acabou.
É por causa dessa Sala que estou aqui, em meu quarto, esperando o silêncio atingir o corredor para poder praticar ainda mais. Já consigo coisas incríveis: desde que tentei pela primeira vez minhas habilidades cresceram e se aprimoraram: Agora consigo escurecer levemente uma sala - declinar a luz e aumentar a sombra de um lugar. É divertido praticar em meu quarto, fazendo a vela dançar de confusão.
Também aprendi sozinha uma habilidade sem nome, a que eu chamo de "pegar" as
sombras. Nada mais é do que poder mover a matéria escura, como se eu tivesse uma mão sobrenatural capaz de tocar o abstrato.
Posso sentir as sombras, saber onde está o escuro e em que lugar é noite.
Consigo mover este elemento e moldá-lo. Já tenho muitas habilidades, mas ainda não sou um Escolhida, não sei lidar com meu poder. É que, afinal, não sei para que usá-lo! Ninguém nunca me pediu nada (mas ninguém nem sabe de nada!), não saí daqui de dentro do templo, não busquei ajuda. Tenho medo do que pode acontecer nestes tempos turbulentos. Notícias terríveis chegam do norte, de Estafansa. Dizem ser o fim de Olstomé.
Consigo mover as sombras, mas será que eu terei que... atacar? Luta? Guerra? Eu não! Me recuso terminantemente a matar outra pessoa, não sou do tipo de brigar. Mas agora nem sei mais de que tipo eu sou, vida roubada que tenho.
Ouviu Penélope? Você é a Escolhida das Sombras.
Acontece que não sei quando e por quê usar os meus poderes.
Eles já me meteram em confusão. Devia ter ficado quieta, mas insisti em ser curiosa e em testar-me. Pois bem. Aconteceu.
Outro dia comecei a reparar nas sombras das pessoas (de um certo modo, estes exercício são muito bons, pois distráem minha mente dos grandes problemas). É engraçado perceber como as nossas sombras têm dentro de si muito de nós. Elas nos tráem; contam para os outros quem somos. Muito silenciosa e dissimulada eu espreitei os peregrinos que chegavam, vendo na sua projeção escura seu segundo eu separado do corpo. Vi alguns sonhos, de relance. Desejos, insinuações, tentativas e coisas que poderiam ter sido. Descobri a minha mais incrível habilidade: conversar com sombras.
Elas não falam com vozes, como nós. Mas usam palavras. Como se isto fosse a sua matéria-prima, sua comosição inicial.
É possível saber o outro através de palavras? Pois eu soube sombras, rastros de pessoas, irmãs-gêmeas tristes e vingativas.
Dizem, em lenda, que quando uma pessoa está para morrer sem cumprir o seu destino, sua sombra a salva. Ela é a eterna companheira, elo de ligação com a morte. Assim, as sombras podem acelerar ou retardar nossa partida.
Se tenho medo? Claro que mexo com coisa perigosa, além do sentido humano normal, mas medo não tenho. Ou melhor, ele é afastado pela sensação de que, uma hora ou outra eu tenho que fazer isso, então vamos em frente, vamos lá, ouvir o que elas tem a dizer. Não sobra tempo para o medo.
Mas a maior das descobertas, a que desencadeou toda essa escrita, foi na madrugada que iniciava o meu oitavo dia no templo.
Era tudo silêncio àquela hora. Cansada de sempre treinar na solidão do meu quarto, fui dançar com as sombras por entre os corredores vazios de Campostela. As estátuas se erguiam mais ameaçadoras do que nunca e eu temia ser descoberta.
Coração palpitando, fui tentar mais uma vez entrar na Sala das Sombras. Nada. Desisti. Era impossível abrir aquela porta fortemente trancada. O que havia de tão proibido ali? De repente, percebi: será que sabiam sobre o deus? Era por isso que trancaram a sala, para que ninguém se encontrasse com o divino? Será que eu corria algum risco? Sabiam sobre mim também? E quem era esses eles que minha paranóia insistia em criar?
Ah não, ah não, ah não!
O que será agora? Perceberam tudo o que eu tentei dissimular?
Corri pelo escuro, o medo dominando meus pensamentos. Na hora não fui esperta, não percebi as pistas que me deixavam. Com medo de estarem me seguindo, fugi na direção do meu quarto.
Quando parei, ainda na sala das janelas, não conseguia mais respirar. O que será que haviam descoberto sobre a Sala? Eu estava em perigo?
Tentei me acalmar olhando para as colinas de capim ondulante sob o céu noturno.
- Eles não sabem de nada.
Saindo das paredes uma voz grave e sibilante cortou a escuridão. Arfando mais do que nunca eu gritei:
- Quem disse? Quem é? O que está acontecendo?
- Eles não sabem do que nos aconteceu. O deus vai ficar bem. Nós ficaremos bem.
Comecei a tremer sem saber de onde vinha a voz misteriosa. Estava apavorada, amaldiçoando a minha curiosidade, quando percebi:
Era minha sombra quem falava. Encostada na parede da sala a minha sombra conversava comigo!
- O que... O que... balbuciei
Tenho a impressão de que ela deu uma risada. Era um som chiado e penetrante que me deixou mais assustada ainda.
- Sou sua irmã, (foi essa a palavra usada pela sombra: irmã) não se assuste. Eu queria dizer que estou orgulhosa do seu progresso, você vai bem como Escolhida. Por isso achei que esta era a hora de me revelar, de conversar contigo.
- Eu não... eu não entendo!
- Ora, você já conversou com outras sombras antes! Já a vi tentando com os peregrinos. Por que comigo é tão diferente assim?
- Eu não sei, respondi. Conversar com a minha prórpia sombra era algo pessoal e esquisito. Ali, na semi-escuridão da luz de velas, estávamos sozinhas. Tive medo do que ela pudesse fazer.
- Vamos, não tema, não tema. Eu vim aqui com um conselho.
Afastei a cabeça com suspeita. Ela fez o mesmo.
- Queria te contar, minha cara Penélope, sobre o seu caminho como Escolhida. Está disposta a ouvir?
- Estou, falei. Mas antes, eu tenho uma curiosidade: como eu posso te chamar?
Ela riu novamente, e quando moveu a cabeça para o lado eu fiz o mesmo. (Começara a imitar a minha sombra?)
- Pode me chamar de Epolenep, só por diversão.
- Não acho que vou conseguir pronunciar isto...
- Escute: vai ouvir o que tenho a dizer? (aquiesci com a cabeça) É isso, tenho que lhe falar sobre uma missão que pensei para ti. Você deve começar a agir como Escolhida, portanto elaborei algo que poderia fazer para ajudar as pessoas. (a encarei com suspeita e um pouco de raiva. Não queria ser a Escolhida. Ainda não. Mas bem, vamos ouvir tudo o que ela tinha a dizer.)
- Você já ouviu falar, minha querida Penélope, do Rei das Sombras? Nunca? Eu sei. Sombras sabem coisas além dos seus gêmeos. Por isso te digo: aqui perto de Campostela, em uma colina mágica e perigosa, existe uma série de túneis subterrâneos, esquecidos há anos pelos humanos. Lá dentro é o palácio do Rei das Sombras, onde as Sombras-livres, aquelas sem os seus humanos-irmãos, moram e dançam o dia todo. Se você for até lá e prender o Rei, você terá salvo as pessoas das vilanias e crueldades das Sombras-livres. Não é isso o que uma Escolhida deve fazer? Ajudar o mundo? E como fica aqui perto, eu imaginei que você gostaria de começar a sua... carreira.
- Parece um bom plano, mas você se esquece de que eu ainda não sei usar os meus poderes. Se terei que prender uma criatura tão perigosa como você diz ser esse tal de Rei das Sombras, prefiro descobrir a extensão de minha força antes, ou poderei morrer sozinha em algum dos túneis devido ao meu despreparo.
- Bobagem, não creio. Você parece estar pronta. Eu te ensinarei tudo sobre as sombras e com esse conhecimento você poderá derrotá-lo.
- Mas eu nunca briguei com ninguém antes. Agora terei que derrotar uma criatura?
- Não, basta uma magia para prendê-lo. Eu te ensino tudo o que você precisa saber. Conheço-te a vida inteira Penélope, conheço-te por dentro e sei que você é capaz. Cansei-me de te ver aqui nesse templo escuro e velho; vamos sair, vamos nos mover. Quero ver os seus primeiros passos como Escolhida!
A vela rodou no vento, fazendo a sombra se indefinir.
Acenei afirmativamente e Epolenep começou a me ensinar tudo o que hoje sei sobre as sombras. Ela falou das lendas sobre a nossa morte e nossa sombra andarem lado a lado, sobre o aspecto vingativo e traidor de nossas irmãs-gêmeas, sobre como elas espiam nossa vida, mas podem escapar à noite sem que saibamos e sobre o perigo que são as Sombras-livres, capazes de fazerem o que quiserem. Ficamos conversando na sala e depois no quarto escuro. Por fim, quando achou que eu estava pronta, a minha irmã escura se calou e ficou sendo apenas uma imagem na parede.
Apaguei rapidamente a luz, para que ela sumisse dissolvida no escuro.
No entanto, a noite toda senti sua presença, querendo, sussurrando, instruíndo...

Quando pensei estar pronta para enfrentar o Rei das Sombras, nós duas, eu e minha irmã-gêmea, saímos para fora do grande templo negro de Campostela. Era o entardecer do meu nono dia ali.
Assim que coloquei os pés na grama macia, minha sombra se dissolveu no capim alto e sumiu muda nos múltiplos feixes de planta. As primeiras estrelas piscaram sonolentas e, por costume, fiz um desejo:
"Que tudo corra bem".
Um grupo de peregrinos extasiados passou por mim, todos rindo contentes. Dei alguns passos ouvindo o shoque shoque de grama raspando em roupa, quando uma voz me chamou:
- Você já vai embora? ele perguntou doce e angustiado (quase cortante, disfarçando). Engoli em seco e virei-me, dando de cara com o estranho que olhara em meus olhos outro dia.
Desta vez nos encaramos com sobriedade. Olhares sérios e comuns. Vi o seu cabelo escuro, suas mãos nervosas e seus ombros largos.
Ele baixou o olhar encabulado - Me perdoe, foi desrespeitoso de minha parte intrometer-me assim em sua vida.
Eu, que havia visto sua alma, que poderia dizer?
- Não foi nada desrespeitoso senhor! (e, para evitar um silêncio:) Eu não estou indo embora. Pensei apenas em caminhar por estas colinas, conhecer um pouco a região.
- São lugares perigosos, principalmente à noite, é melhor não ir sozinha.
- Conte a verdade.
- Como? perguntei de um salto
- Me desculpe! (atrapalhou-se o estranho) Pareceu que eu estava te oferecendo minha companhia, mas, acredite, não queria forçá-la a nada (colocava as mãos atrás da cabeça e depois as torcia e depois coçava o rosto, sem saber como se desculpar) Só estava preocupado, as colinas são mesmo perigosas.
Sorri diante da sua confusão. Mas estava mais interessada era na terceira voz, que logo repetiu:
- Conte a verdade.
- A verdade? sussurrei olhando para Epolenep. A sombra estava quieta.
O viajante me encarou sem entender.
- Conte-lhe a verdade.
- Quem é? falei assustada. Dera para ouvir vozes misteriosas agora? Olhei para a longa parede do templo e a compreensão bateu-me.
Encarei devagar o estranho e expliquei a ele minha triste situação.
- Gostaria que não pensasse em mim como louca. Porém (por que dizia isso ao homem por quem eu me apaixonara?) o caso é que a sua sombra está falando comigo.
Desta vez seus olhos se fecharam. Baixara as cortinas do assombro, incredulidade e surpresa.
- Conte-nos tudo, pediu a sua sombra.
- Meu nome é Penélope Noite (eu comecei. Por essa loucura perderia meu amor?) e consigo falar com as sombras e entender o escuro. Eu estava saindo na verdade para encontrar o palácio do Rei das Sombras-livres, porque sou...
- Mas não tudo! gritou-me Epolenep - Vamos ter alguns segredinhos, pois não.
A sombra do homem concordou com um aceno de sim.
E o homem? E meu caro estranho que eu queria tanto impressionar?
Pois ficou ainda um tempo parado, olhando para mim come se fosse mesmo uma maluca pregadora de algo inconcebível. Que minutos mais desesperados! Não achávamos, nenhum dos dois, algo a dizer para o outro. Como já havia dito demais, resolvi ficar em silêncio. Por fim, ele disse:
- Meu nome é Sark. (e pausou, olhando agora em meus olhos) Não sei se acredito no que você diz, mas uma garota tão determinada como você parece decidida a ir atrás deste Rei das Sombras. Como eu havia dito, as colinas são perigosas, então me ofereço para te acompanhar. Desta vez ofereço mesmo minha proteção de guerreiro. Minha cara Penélope, você aceita?
Seus olhos brilharam de ironia e alegria, talvez entusiasmado por ir atrás de algo desconhecido. Só posso imaginar, mas me sinto segura ao dizer que os meus olhos brilharam de volta com esperança. Finalmente saía de dentro do detestável templo escuro e mergulhava nas colinar-mar. Melhor do que isso? Era acompanhada pelo belo viajante, que se oferecera para proteger-me. Tudo o que precisara era afirmar-me como Escolhida... Algo pelo qual relutara, mas...
(hesito)
Não sei agora o que quero. Não sei mesmo meu caminho. Gostaria de poder escolher quem sou, ao invés de estar à disposição de um poder divino silencioso.
Por enquanto me basta narrar o nosso breve passeio:
- Muito obrigado viajante (agradeci enquanto dávamos nossos primeiros passos pelo capim macio) Me sinto muito contente agora (shoque shoque). Mas, se me permite uma pergunta: você disse que o seu nome é Sark, mas (olhe minha intromissão!) poderia jurar que ouvi seus companheiros te chamarem diferentemente, outro dia, lá no templo.
Seu rosto se fez uma careta.
- É uma brincadeira, um jogo de mau gôsto. Eles às vezes me chamam pelo primeiro nome(ele pausou). Mas eu prefiro Sark. É um nome mais forte, intimidador.
- E você quer ser intimidador? Eu gostaria de saber o seu primeiro nome.
Ele riu, baixou o rosto e voltou a olhar para as estrelas.
- Eu me chamo Henry Sark, se você insiste.
- Eu insisto. E prefiro muito mais te chamar de Henry. É mais doce.
- Eu não sou doce, ele afirmou categórico.
- Não vejo razão para não ser. Você me parece triste e sozinho, mas não é alguém cruel ou malvado. (olhei para o seu rosto. Ele ficou quieto. Sark entendia a extensão de seu ser. Talvez eu estivesse enganada. Ele era cruel? Gostaria de sabê-lo, entender até onde ele ia.)
- Você pode me cahamar de Kras, disse a sua sombra, dando continuidade à brincadeira dos nomes invertidos.
Caminhamos em silêncio pela grama alta, buscando uma referência qualquer. O que seria uma colina mágica e pergisosa? O que seria, naquela escuridão estrelada, uma colina?
- O que vamos fazer com o Rei das Sombras quando o encontrarmos? - Henry Sark me perguntou.
- Eu vou derrotá-lo.
Olhou para mim incrédulo. Era porque sou uma menina? Por entender minha inexperiência? Por ainda me achar um tanto maluca?
Ergi o pote-estrela e expliquei: Aqui dentro deste vidrinho está um feitiço, capaz de prender sombras-livres em seu interior. Minha própria sombra me ajudou a fazê-lo. Se jogarmos isso em cima do Rei quando ele estiver enfraquecido, o feitço irá prendê-lo.
- Mas e se o vidro quebrar?
- O vidro tem que quebrar. Por isso devemos jogá-lo em cima do Rei, para abrir e liberar, e com isso prender.
Caminhamos silenciosos.
- Eu já vi coisas muito estranhas, ele confidenciou. Creia em mim, o mundo é um lugar esquisito. Então, quando você diz coisas sobre o escuro, eu decido acreditar.
Nos olhamos de novo. Ele tinha decidido acreditar em mim? Não via mais hesitação em seus olhos.
Porém... Em sua sombra, ainda havia um rastro...
- A sua sombra te contou tudo isso?, Henry perguntou, com suspeita - Eu não acho seguro confiar em algo tão maligno e traidor.
- Porque você diz isso delas?
- Por que ela traiu suas iguais. Se ela te contou tanto sobre o Rei delas e como capturá-lo, as sombras não passam de traidoras vingativas. E ninguém é capaz de contrariar a sua própria natureza. Você devia ter cuidado com o que ela te ensinou, pode ser tudo enganação.
Mais um pilar de segurança caiu.
- Não gostei de nosso companheiro - resmungou Epolenep - Muito maledicente se você quer saber.
- Mas ele está certo - continuou Kras - Ninguém pode ir contra a sua natureza.
E a minha natureza, qual era? Escolhida, filha, apaixonada? Eu iria descobrir isso algum dia? Talvez agora, caminhando por entre o ondulante capim noturno, em direção a algo sinistro e desconhecido, eu descobrisse, afinal, quem é a Penélope Noite. Ou então eu estaria, nesta aventura assustada, construíndo quem eu sou.
...
Quem eu sou? Talvez as sombras saibam a resposta.
(shoque shoque fazia o capim, à medida que avançávamos)
De repente, não estava mais com tanta vontade de avançar.

Quem é esta garota? Por que em sua presença eu me desdobro em ridículas gentilezas? Resolvi segui-la em sua peregrinação até o Rei das Sombras-livres. Acreditava nela? Não sei. Conversar com o escuro... suspeito de enganação.
Mesmo assim a dama Penélope precisava de um guerreiro que a protegesse de sua prórpia curiosidade. Deixei Ganz e Pátroclo dormindo lá em cima e caminhamos pelo capim alto.
Coloquei a mão sobre a bainha de Kagemonji. Seguro. Prendi a capa de viagem para afastar o frio e olhei para ver se Penélope não se sentia incomodada no anoitecer. Ela caminhava devagar, atenta para o seu passo incerto.
Tento entender agora, após todos os acontecimentos, o que senti naquele momento. Era um sentimento apreensivo, tímido, ainda suspenso em desconhecido nas névoas da minha consciência. Não havia nome, mas em mim havia uma falta de ar, um constante deslumbramento.
E era tudo por causa dela. Agora eu sei, tenho um nome. Posso definir e cercar este sentimento. Não vou dizer por enquanto, mas era coisa tola, juvenil. Eu sei, eu sei, que vergonha! Mas tenho as idades trocadas.
Nunca tive juventude. Passei da curta infância à maturidade séria rapidamente, graças à minha estadia em uma tumba e ao treinamento severo de mestre Haramis. Agora, que me empenhava em ser um adulto respeitável, esta garota aparece e me transforma em um jovem suspirador.
Me confundo. Que idade tenho? Como devo agir? O amável, prestativo e cheio de ideais Henry ou o cruel, decidido e poderoso Sark?
H. Sark (eu) terá de viver como uma eterna contradição.
Mas de volta à história:
O vento aumentou e agora o capim ondulante nos fustigava os braços e rosto.
- Minha sombra nos diz que devemos nos apressar - falou Penélope - Pois logo vai chegar o dia.
- Achei que sombras se enfraquecessem na luz - respondi, pronto a desacreditar aquela maluquice.
(Após uma pausa, em que ficou a olhar o chão à sua esquerda, ela me respondeu: )
- Não. Durante o dia a escuridão se concentra na gruta e o Rei fica mais forte. Então vamos logo, ela ordenou.
A grama farfalhava alegre enquanto buscávamos alguma trilha por onde passar. Olhei novamente para Penélope, que transitava com os olhos entre o capim e as estrelas, talvez atrás de uma pista qualquer.
Por fim, ao chgarmos às colinas, e ela sorriu-me, e o luar branco de seus dentes encantou-me de tal modo que ainda fiquei por um momento parado, deslumbrado pelo seu eco. Meu coração deu uma fisgada - que papel de tolo eu faço - e abandonei o reflexo para correr atrás da dona da ilusão, que deslizava em seu vestido escuro por entre o mato.
- Kras diz que é logo ali naquela colina, ela sorriu. E como era lindo o seu sorriso!
- Quem é Kras? Uma das sombras?
- A sua sombra, ela respondeu impaciente, fazendo-me olhar com extrema suspeita para a figura escura que caminhava ao meu lado.
- Não vejo nada por aqui, só as colinas - Estávamos agora no alto, com uma bela vista do Campo das Estrelas sob o céu noturno, uma das mais lindas visões no mundo todo. Lá longe se via o vácuo no céu que identificava o templo de Campostela. Por todos os lados os astros celestes nos confidenciavam segredos e mistérios, junto ao balouçar sereno do capim no chão.
- Olhe só Sark! - Penélope chamou, mostrando-me algo no chão: um enorme buraco, mais escuro que a treva da noite, no topo da colina maior.
Era definitivamente a entrada do Palácio do Rei das Sombras. Quem entraria primeiro?
- Eu vou, - falei, decidido a agradá-la e já colocando as pernas para dentro da boca negra.
- Cuidado, ela pediu - Epolenep me diz que as sombras-livres são extremamente perigosas. Sem seus humanos-gêmeos elas podem liberar toda a sua maldade e vingatividade. O mesmo vale para homens que perderam a sua sombra-gêmea: estes não tem arrependimento.
Acenei devagar com a cabeça.
- Dê-me o seu pote, eu vou enfraquecer o Rei para você. Deixe que eu o prendo enquanto o distraímos: não quero te ver chegando tão perto de uma criatura perigosa.
Penélope demorou para responder. Por fim, resolveu dar-me o pote-estrela com o tal feitiço dentro.
Olhamos um para o outro mais uma vez. Que brilho era esse que eu enxergava em sua íris? Seria todo um arco colorido de sentimentos desconhecidos? O que os meus olhos lhe revelavam? Seria aquele desconhecido e brumoso sentimento-sem-nome?
Perturbado afastei a cabeça. Começara a minha missão; era tempo de ser um guerreiro.
Entrando pela terra seu sorriso me iluminou a queda escura. Com um baque, cego e tonto, aterrisei sobre uma matéria desconheida.
Com outro baque, Penélope aterrisava sobre mim. Doloridos e assustados pela súbita cegueira que a treva nos provocava, começamos a tatear as paredes de terra.
- Epolenep! Epolenep! ela chamava - Ah Sark!, onde estão as nossas sombras? Que lugar é esse? Não vejo nada neste escuro.
- Está tudo bem, acho que há um caminho por aqui. Segure minha mão.
De fato. Conseguimos seguir por um corredor estreito, temendo pela tolice irrevogável de nossos atos. Quando viramos a esquina - uma luz!
- Há algo ali, sussurrei devagar. Vamos tentar ser o mais discretos possível.
Caminhamos agachados pela escuridão, eu com meu sentimento desconhecido e simples, ela com seus segredos. A luz aumentava, vindo de uma série de archotes colocados nas paredes. Estranhamente, também a música aumentava: vindo de algum lugar do fundo da caverna um som macabro e crepitante tocava, nos arrepiando até os ossos. E nos seguindo, mais definidos do que nunca, iam os sinistros Kras e Epolenep.
A caverna estreita se abriu em um grande salão, iluminado por milhares de chamas no teto. No centro, infinitas figuras escuras de sombras-livres rodopiavam sozinhas no ar, independentes dos restritos anteparos. Apontei para Penélope uma sombra maior, sentada em um não-sei-o-que-em-ruínas - uma porta, um portal? - com uma brilhante e reluzente coroa na cabeça - isto é, supondo partes humanas para sombras.
Estávamos no Palácio do Rei das Sombras-livres!
Involuntáriamente nossas mãos se buscaram. Por pouco tempo ficaram unidas em seu abraço cálido antes que uma presença fria e ameaçadora pousasse sobre elas: Epolenep debruçou-se ao nosso lado, olhando fixamente para o centro do salão. Como que então as sombras ainda ligadas deram para moverem-se sozinhas? Reparei na face pálida de Penélope e encarei furioso a minha própria sombra, ordenando interiormente que ela ficasse quieta.
- Ela diz... - suspirou a garota, falando obviamente de sua sinistra irmã-gêmea - que devemos nos apresentar. Que é mais educado assim. Ou senão - e seu rosto empalideceu ainda mais - Epolenep o fará por nós.
- Maldita! sibilei. Coisa velha e escura, monstro terrível! Deixe a pobre Penélope em paz!
- Não Henry, está tudo bem.
- Não, não está! - revoltei-me briguento - Se essa bruxa vai nos trair de qualquer modo, deixe que eu vá. Você fica aqui escondida e tente não se preocupar. O pote está comigo, eu ficarei bem.
- Cuidado então. Por favor, não faça nada perigoso - ela pediu. A doce e encantadora Penélope! Enquanto ela me encarava com temor, sua sombra se interpunha dissimulada entre nós, sem revelar emoção alguma, fingindo não ser com ela.
- Fique aí - eu ordenei, enquanto descia a escada circular para o luminoso salão. Assim que meus pés tocaram o círculo interno, a música e os guinchos pararam de um rasgão. Uma risada tenebrosa ecoou e o Rei das Sombras, erguendo-se mais alto do que dois homens, falou a mim:
- Humano! Que diversão! Olhem sombras-sombras, quem veio nos visitar.
Precisava ganhar tempo, me aproximar. Comecei a conversa:
- Meu nome é H. Sark. Eu vim do norte, do decadente reino de Olstomé.
- Um reino decadente? E o que as Sombras-livres têm a ver com sua tola política? Tudo patetagem para nós! - ouvindo isto todas as figuras escuras do salão se aproximaram de mim - Vamos ouvir, o que você tem a dizer que interesse a nós, habitantes das profundezas.
(e agora, o que dizer?) - Vim aqui fazer um trato.
- Um trato? - todas as sombras se inclinaram.
Acenei ao Rei para que este se aproximasse, como se tivesse um segredo a contar-lhe. Mudando sua forma para deslizar pelo ar, ele colocou o seu ouvido escuro próximo à minha boca - fora pego!
Comecei a sibilar palavras sem sentido para o ouvido ávido - Lá em cima... no Campo... das Estrelas - minha mão pegou secretamente Kagemonji e entrei em posição - onde... tem... uma... grande... Agora! - com um grito saquei a espada e cortei um rasgo no rosto parado e atônito do Rei.
Percebi lívido a minha estupidez. Nenhum arranhão - era óbvio - na grande sombra negra!
Erguendo-se alto e furioso, a coroa piscando brilhante, o Rei das Sombras urrou:
- Olstomé? Campostela? Acho que você não veio aqui falar de nenhum dos dois, não senhor! Eu enxergo a sua intenção. Você pode tê-la ocultado em seu rosto, mas seu gêmeo - sua aberração gêmea! - me diz que você busca me matar!
Então, pela primeira vez - e foi neste momento em que qualquer dúvida a respeito de Penélope se dissipou - eu ouvi Kras falar, talvez efeito daquela caverna que fazia as sombras agir tão estranhamente:
- Me desculpe irmãozinho, nada pude fazer. Você é um bom companheiro, não desejava te fazer mal. Mas não posso contrariar a minha natureza traiçoeira, me desculpe Farei o que pudermos para não nos matarem, prometo.
Eu sorri para o meu irmão-gêmeo. Certo, não podemos evitar, o que eu fiz era estupidez de qualquer modo. Não seria certo culpar apenas minha sombra, por agir como sabia agir.
- Que aberração! Que aberração! - o Rei gritava enquanto seus súditos me prendiam em seus abraços opacos e arrepiantes - Olhem que humilhação, que tonteira! Uma grande sombra se rebaixando perante um homem qualquer! Vamos meus amigos, vamos libertar este companheiro de sua prisão de carne. Tragam a faca!
- A faca! A faca! A faca! - cantavam as sombras-não-mais-gêmeas, dispostas a me matarem para que Kras se unisse às suas legiões. E não vou dizer que este foi contra, afinal, como ele disse, sua natureza traiçoeira não era contornável.
O Rei das Sombras, segurando em suas mãos uma reluzente faca de prata, cresceu e mutou em um monstro pluriforme, de vários braços e olhos sombrios, pronto para dilacerar o intruso que era segurado contra uma parede de terra. Ele que viesse! Já segurava em minha mão o pote-estrela com sua magia, e me preparava para joga-lo sobre o monstro. Talvez não funcionasse - o Rei estava forte e poderoso naquele momento - mas era minha única chace de sobreviver!
Já levantava as mãos segurando o recipiente de vidro quando um grito interrompeu e silenciou o ritual macabro:
- Parem!
As sombras arfaram de surpresa, olhando para onde Penélope estava de pé, sozinha no salão. Tanto Kras quanto o Rei permaneceram impassíveis, este último ainda me segurando firme contra a caverna com um de seus múltimplos braços.
- Não Penélope! eu gritei.
A garota andou até o Rei e ordenou a ele "Solte-os!". Era preciso coragem - devo admitir - para ordenar ao monstro o que quer que fosse.
Foi com uma gargalhada cruel saída de suas muitas bocas dentadas que ele respondeu:
- Eu sou o Rei das Sombras-livres! Vivo em meu Palácio subterrâneo com minha côrte, praticando a cada dia atos de vingança livre-arbitráriamente! Ninguém pode me matar: sou sombra - como seu amigo acabou de perceber. Meu trono é uma das portas dos antigos, a Porta da Morte. Vê agora o meu poder? Meu reino é esta caverna de terra, o medo, o sussurro intencionado, o temor do fim, o desespero dos condenados e o oculto por trás dos assassinatos! É isso o que eu sou. E você?, você pode me vencer? Quem é a garota que desafia as sombras-livres?
No silêncio que se seguiu todos rondaram a pobre Penélope.
E ela? Ela olhou para o Rei. Olhou bem dentro dos seus olhos - poços de trevas. A garota versus Sombra-Rei. Encarando-o firmemente ela lhe disse:
- Eu não quero ser quem eu sou. Minha missão ainda não aceitei. Por isso, por explicação, eu digo apenas: Eu sou Penélope Noite.
Como um vento, como um chiado, Rei das Sombras ergueu a faca e condenou sua adversária à morte.
E, como um eco débil de sua irmã, Epolenep gritou:
- Parem!
Desta vez todas olharam surpresas.
- Há uma solução... - começou dizendo a sombra-irmã. Ah! Aquela bruxa, aquela monstra! Certamente planejava algo... - Proponho, me escutem bem, uma troca. Talvez o Rei concorde. - e, se aproximando teatralmente do centro do salão, expôs seu plano - Talvez possamos deixar os dois humanos escaparem com vida. Para isto basta deixarem algo para trás. O que proponho, meu caro Rei, minha querida Penélope, é o seguinte: se nós duas nos separarmos e deixarmos de ser irmãs, vocês podem escapar. Assim todos teremos o que queremos: eu serei livre, o Rei aumentará sua legião e os intrusos ficarão à salvo. O que acham? É um excelente trato, não é?
- Maldita sombra interesseira! - gritei com fúria, fazendo apertar o abraço aprisionante das sombras - Era isso o que queria desde o princípio! Foi por isso que nos trouxe até aqui, não é mesmo, criatura do abismo? Sombra maldita! Monstra! Não acredite em uma palavra do que ela diz, Penélope.
- Devemos admitir irmãozinho - disse Kras seriamente - que estamos sem opções. Epolenep parece oferecer a única saída. Mas será seguro confiar nela?
Olhamos todos para Penélope, afinal, era sua a decisão:
- Você me ensinou bem, minha cara sombra-irmã. Mas nem você ou Kras serão libertados. Acho que agora eu entendi, já sei do que as sombras sã feitas. Se por um lado você me trái para unir-se ao Rei, também escuto seus sussurros propondo-me outra alternativa. Eu declino a sua oferta. Vou derrotar o Rei do meu modo.
A esperta Penélope! Será que já esboçava o seu plano àquela altura ou antes mesmo já sabia o que devia ser feito?
Ela estava certa. Sombras são parte de nós. Uma parte escura e sussurrante, muito além de um apêndice removível, que pode atrair ou afastar a morte. Como Penélope mostrou, o faziam ao mesmo tempo.
- Eu quero que vocês dois, Henry e Yrneh - ela disse à mim, usando meu primeiro nome para brincar de inverter - se preparem para o momento certo e usem "aquilo". Sigam minhas indicações.
Segurei firme o pote-estrela e olhamos apavorados, Yrneh/Kras e eu, enquanto a linda e doce garota que acabávamos de conhecer avançava de punho em riste na direção do grande Rei das Sombras.
- Humana! - urrava este, espumando de fúria - Ousa então jogar fora a sua salvação para me enfrentar? É tão fraca como os outros, não vai sobreviver! Você será esmagada pela treva infinita!
- À morte! À morte! - gritava esta, sempre avançando, em língua inventada de medo e heroísmo - Sark, Rosnado, Epolenep!
Um espasmo de fúria percorreu meu corpo e tentei brandir minha espada - Afastem-se de mim, seus seres anômalos e assombrados! Eu tenho que salvá-la! - gritei, erguendo o pote-estrela para o alto.
As duas forças convergiam com rapidez e raiva na caverna. Penélope e sua sombra, bradando gritos desconhecidos, correndo para a boca da fera! A fera escura, feita de sombras-livres mutáveis, crueis e insatisfeitas, prontas para engolirem a garota e soterrá-la eternamente em suas múltiplas escuridões! No momento exato, no clímax do encontro e do choque, Penélope Noite olhou para mim com suas íris poderosas e me ordenou que jogasse o pote de vidro.
As sombras ganem, gritam, guincham e se jogam por sobre a garota, agarrando-a, erguendo, cobrindo-a. Mas esta planejara tudo! Ela move suas mãos de encontro e as separa. As minhas acabam de largar o projétil de vidro quando as mãos de Penélope ordenam que se faça a treva! - em um instante toda a galeria se escurece e mergulha na mais indistinta indefinição!
Na noite eterna não existem sombras. Percebo a genialidade da moça, a extensão de seu poder - e foi neste instante confuso de queda e barulho que o vago sentimento ganhou seu nome de Amor em meu coração. Amor e orgulho. O Rei das Sombras e seu exército minguaram enfraquecidos, mergulhados no escuro primordial, sem luz para definirem-se, sem separação dentro do todo, presas fáceis do feitiço que escapava do pote de vidro. Não existem sombras na noite eterna.
Sinto vultos roçando meu rosto, ouço fantasmas chorando. Um desespero me domina - também eu sumira engolido pela treva? Perdi meus sentidos, onde está Kras? Tateando desorientado chamei por Penélope. Ouço sua voz:
- Você foi preso Rei das Sombras, junto ao seu exército de desejos corrompidos e insinuações perigosas. Por cem anos deverá habitar esta sua pequena prisão de vidro: este é o seu castigo!
Ouço os protestos do rei deposto e busco desesperado pela vencedora deste duelo sobrenatural em meio à sombra que me rouba a capacidade de sentir distâncias ou espaços.
Por fim, esbarramo-nos no meio do nada universal. Ela está no chão, ajoelhada, e chora. Minha querida Penélope! Seguro seus finos antebraços, cobertos de terra e lágrimas. Nossos corpos se abraçam aliviados, não vemos nada, eu tento consolá-la. No meio da sombra silenciosa, cegante e assustadora, sem vontade ou controle, beijamo-nos. Com um ímpeto úmido e desesperado, na treva escura do centro do mundo.
domingo, novembro 05, 2006
Penélope - dois / H.Sark - quatro
"Não sei por onde começar. Não sei, não sei mesmo. Estou tão perdida!
Dentro e fora do grande templo é a mesma coisa. Aqui as sombras frescas silenciosas, lá o campo lindo infinitamente quieto. Nenhum dos dois me oferece paz de espírito; continuo tensa e percorrida por fantasmas, vozes sussurrantes.
Ainda ouço ecoando a voz do templo, aquela voz que nunca foi ouvida:
"Penélope Noite... ela chamava... Você é... - "
Não, não quero mais continuar! Chega de ouvir os sussurros de novo e de novo!
Agora quero ficar sozinha, sem ver ninguém, sem dizer palavra. Só este caderno me dará algum conforto, aqui onde me escondo.
"Se eu soubesse o que fazer!" chora a minha cabeça.
Pá-Tum-tum! Pá-tum-tum! canta meu coração acelerado.
E eu fico aqui no meio, totalmente perdida e sem saber o que é o melhor. Gosto de pensar que, independente do que acontecer, as coisas vão melhorar. O mundo vai se aquietar e me deixar embalada em seu sono.
A voz me pediu para abandonar a minha vida.
Até onde eu vou ser capaz de fazê-lo? Tenho uma terrível aflição do futuro, um medo sem razão.
Estou hospedada neste templo há três dias. Vim a pé de Estafansa para desejar saúde a minha convalescente Mãe, que está de cama desde que resolveu sair doente para o festival do Verão. Ora, adivinhem, sobrou para a sua pequena Penélope pedir uma ajuda aos deuses, e por isso me encontro aqui no belíssimo Campo das Estrelas, vendo o vento bater no capim e dançar, ou o sorriso fervoroso dos peregrinos diante do altar central.
Engraçado pensar que eu vim aqui atrás de deuses. Pode-se dizer que encontrei mais do que gostaria, que encontrei uma nova vida a me esperar, como um corvo espreitador grasnando meu nome.
Mas as freiras são muito gentis. Cuidam de todos os peregrinos e viajantes que chegam à estas paragens e cozinham para nós em sua cozinha colossal. Tem sido muito agradáveis estes últimos três dias - apesar das dúvidas, agonias e repetidas reflexões tortuosas que me afligem sem parar. Ah! (nem sei mais a quem suspirar! Deus, deuses, eu? alguém ouvirá minhas preces? Sinto inveja dos outros peregrinos; eles têm a atenção dos céus enquanto que de agora em diante eu terei de fazer tudo sozinha).
Às vezes escapo para o jardim. Fico olhando as longas colinas quase-mar. Digo deste modo porque é o que me parece quando olho o vento batendo no capim: um lindo mar ondulante, corcoveado e verde. Se fosse assim, o grande templo de Campostela seria o navio que cruza reto as águas, e eu sua passageira.
Para onde vamos? Por enquanto fico aqui. Ora sozinha nas sombras, ora ajudando os peregrinos que chegam maravilhados. Vamos meu grande navio negro! Você roubou o meu destino com sua voz portentosa, então diga-me aonde devo ir e cruzaremos juntos as águas turbulentas.
Sei que agora só me resta o desterro: vou viajar para todos os lugares que existem. Esta idéia me enche de medo e assombro. Que maravilha! Que terror!
E minha Mãe? Por causa dela vim até aqui e agora será que devo abandoná-la também? e meu Pai? e o meu querido gato Rosnado?
Nas sombras do templo eu às vezes choro. Mas às vezes mal posso esperar para sair e conhecer lugares tão bonitos quanto este Campo das estrelas. E o que posso fazer? Como agir se sou apenas Penélope Noite?
Noite... foi este sobrenome tão diferente dado pelos meus pais que me enroscou em meu destino. Agora quero só saber como vou agir e o que fazer com o Passado. Me ajude meu anjo da guarda, eu preciso de você; e é por isso que olho com inveja os atendidos peregrinos.
"Penélope Noite... disse a voz que era feita de escuro... Você é a Escolhida das Sombras, ouviu? Você tem que encontrar o Krystalian agora. Esta é a sua missão, Escolhida das Sombras."
Ouviu?
Sim, ouvi.
" Olstomé vai cair. O que vemos agora são os dias finais deste Império agonizante, prestes a entrar na escuridão e no esquecimento. Digo, com um pouco de receio de me tomarem por um fanático louco, que só podemos nos felicitar pela queda de um reino tão cruel e cheio de vícios como este. Sei que pareço hipócrita, já que, como sabem, fui chanceler do estado-maior de Olstomé, um cargo importante, influente e tudo o mais. Mas, se querem mesmo saber, estes dias estão no fim. Não sou mais um gentil súdito olstomiano: meu ódio me levou para longe deste erro. Como sempre digo, minha raiva e meu desejo de felicidade acabaram por me afastar do caminho ruim, de encontro ao magnífico projeto de Uruguthár!
Começou quando percebi o abuso dos impostos sobre a população. Durante as revoltas nortistas, quando os 7 reinos se separaram de Olstomé, 100.000 pessoas morreram de fome por não terem como comprar seu alimento. Uma delas, por acaso, foi Forja Lunn, minha antiga madrasta e sobrevivente das guerras e pestes que aniquilaram minha família. Não que eu tenha motivos para chorar um desafeto ancestral, mas o fato de conhecer uma das vítmas do descuido governamental me abriu os olhos para a grande quantidade de problemas no reino. Antes, quando eu ainda era um tanto ingênuo, pensei que era a minha chance de consertar o que estava errado. Já que era o chanceler de estado-maior eu poderia trazer a solução; mudar o mundo e coisa-e-tal. Olhando agora, vejo o meu engano. Eu tinha muito menos poder do que o meu título pomposo me levara a acreditar; os grandes do reino me esmagaram sem dó, e pior, fingiram que eu não existia. Nem se deram ao trabalho de discutirem comigo, o seu silêncio orgulhoso foi devastador. Arrasado, percebi o quanto o poder era importante, e o quanto Olstomé era fraco. E fútil. E tolo. E que seus súditos não passavam de um bando de babacas sem pensamento próprio.
O que eu buscava, percebi, era maior que tudo aquilo. Era um poder mais puro e decisivo, capaz de realmente moldar o mundo.
Então entra em cena a grande Torre Negra que estão construíndo no leste. Ah, mas os escritores que a apelidaram de nada sabiam! Deveriam chamá-la de Torre Branca, Torre da Virtude, Torre do Poder! Sua magnífica construção se estende diante do rio de fogo como uma mão enorme, a nos receber. O que se discute ali dentro é a criação de um mundo perfeito! Pois ouviram o que eu disse? Ali se discute, ali se conversa. Ali nós podemos juntos criar algo superior. Seu idealizador, um homem desconhecido e misterioso, está sempre nos mostrando o caminho correto a ser seguido. Foi ele quem me ensinou sobre o poder. E disse que meu futuro seria glorioso, pois meus ideais de guerreiro serão coroados na Nova Era - a grande Uruguthár. Uma Era sem tolas bobagens e convercices sem sentido.
E é assim que me encontro aqui nesta estrada, viajando com meus dois companheiros de Missão. Pois viram o que aconteceu? Depois de apenas sete meses dentro de Uruguthár já tenho uma missão especial. Aqui sou reconhecido, diferente de como acontecia no finado Império de Olstomé. O que diria meu antigo mestre se me visse aqui?
Já lhes falei sobre ele? Dou risada de me lembrar do habilidoso espadachim Haramis Mictian, que durante uma guerra foi se esconder em uma tumba e lá dentro encontrou um garotinho de treze anos. Treinou-o sob o caminho do guerreiro e o fez crescer sob sua rigorosa diciplina. Ensinou o que ele podia aprender e hoje aqui estou, o mais brilhante estrategista de todos! Mas já chega, que começo a me gabar. Mestre Haramis teria me dado uma bela bordoada por isso, e me encarado sério com suas sombrancelhas encurvadas, exigindo um pedido de desculpas. Me pergunto onde ele está agora? Talvez também tenha se juntado à Torre Negra; seria bom lutar ao seu lado novamente, mostrar-lhe o quanto amadureci na arte de desembainhar e na de matar. Seu conhecimento sobre as pessoas e suas naturezas seria uma grande vantagem nesta guerra que se inicia. Nós, aos poucos, estendemos nossa influência para o oeste, visando o mundo como um todo. Mestre Haramis: um bom substituto de pai, um excelente espadachim. Gostaria de vê-lo novamente.
Não há como negar que seria melhor companhia do que estes dois que caminham comigo. O primeiro é o odioso Pátroclo, por quem eu nutro um ódio antigo e azedo, mas que insiste em me acompanhar. Seria tão bom se neste novo mundo que surge pudéssemos matar quem nos viesse à telha! Seria a sobrevivência do mais forte e o fim dos chatos pedantes. Pátroclo certamente teria conhecido o seu fim a um bom tempo; e não pensem que eu teria qualquer segundo pensamento ou remorso. Já matei e matarei de novo pelos meus ideais. Penso que se um ideal é verdadeiro ele é forte: e qual é a melhor maneira de demonstrar a força de um ideal senão matando por ele? Mas não levem à sério minha brincadeira de mau gosto - voltemos ao assunto.
O outro companheiro é Ganzelthot, apelidade de Ganz, que veio reclamando a viagem toda. Mesmo assim, ele é meu único amigo, se é que posso dizê-lo assim. Ganz é forte e habilidoso, respeito-o por isso: estamos em pé de igualdade no que diz respeito a lutas corporais. Já no que concerne o pensamento, sei que sou mais inteligente. Se bem que Ganzelthot tem uma característica que dispensa o raciocínio: a crueldade. Extremamente perverso ele é capaz de qualquer coisa e muitas vezes me surpreendi tendo que pará-lo ou refrear seus instintos assassinos. Mesmo assim, ele é meu único amigo.
Se é que posso dizê-lo assim.
A estrada ao sul da capital Estafansa é esburacada e poeirenta. Faz muito tempo que andamos. Ouço Ganz praguejar novamente e Pátroclo sibilar consigo mesmo. Se o Novo Mundo se iniciar com sujeitos como estes daí estaremos em maus lençóis. Mas, como disse, confio nas pessoas. Sei que todas merecem duas chances e que podem mudar. Afinal, é isto o que queremos fazer: mudar as pessoas. Visando sempre o Bem maior.
Mal posso esperar o fim da jornada. Ao longe já vejo a grande e negra silhueta do Templo de Campostela, por entre os campos ondulantes de capim. A noite chega e podemos ver as lindas estrelas cintilando devagar. Não consigo pensar em algo mais bonito do que isso. A beleza do mundo me preenche e tenho que me esforçar para pensar na nossa Missão: trancar a sala das Sombras. Selá-la fortemente para que ninguém possa entrar ali. Nosso mestre diz que um poder terrível se esconde na sala das Sombras, e que é nosso dever impedir que outros tenham acesso a ele. Aos poucos, a figura do templo de Campostela vai se fundindo com o céu noturno e desaparece, apenas perceptível pelo vazio de estrelas deixado no meio do firmamento."

"Tamanho é o tumulto dentro de mim que poder-se-ia descrever os últimos dias deste modo:
Penélope: sou a Escolhida das Sombras, ando de um lado à outro no templo de Campostela, não sei o que fazer, fui escolhida, encontrei um homem lindo, nossos olhares se cruzaram, me apaixonei. Não sei o que fazer. Sou a Escolhida.
Por que isso aconteceu?
(entrei por acaso na fase da culpa? Tenho que culpar alguém?)
Se eu tiver, só posso culpar a mim mesma por ter entrado na Sala das Sombras. (Mas como eu ia saber? Muitos pergrinos vão lá rezar todos os dias. É culpa minha se naquele dia preciso eu entrei sozinha e fui espiar a estátua maior e acabei me encontrando com um deus que me escolheu como sua portadora? E agora?! eu me pergunto. Sem resposta alguma.)
Não vou perder a minha vida antiga assim! Quero primeiro saber. Entender. Não vou ceder antes disso: não farei nada como Escolhida pois ainda não sou!
Certamente não posso falar mal de minha Mãe, que deve estar doente e preocupada. Também não consigo ficar zangada com as freiras do templo, que foram sempre tão gentis comigo. E os peregrinos, com seus sorrisos deslumbrados me causam pena e inveja, mas nunca ódio.
Quero ficar sozinha, apenas eu e minha sombra.
Não esqueço, não consigo! No escuro vazio ao qual eu me retraí não tenho muitos pensamentos; aqui, três fantasmas me perseguem: o Primeiro é a voz do kassim que me escolheu como salvadora do mundo, que fica repetindo e ecoando dentro de minha cabeça meu destino em outra vida; o Segundo é a visão de minha Mãe deitada em sua cama, com meu Pai ao seu lado me acenando um adeus e, mesmo não estando na cena real, eu imagino que ali também está Rosnado, me pedindo um copo de leite ou um carinho; e o Terceiro fantasma são dois. Dois negros olhos tristes.
Lá fora o vento no capim. Lá dentro a frescura do santuário. E Penélope é seguida continuadamente pelos seus fantasmas, não importando o quanto ela escreva em seu caderno. Vão embora e deixem-me pensar! Deixem-me no vazio, e quem sabe este me preencha.
E você? Você quem é? Estranho misterioso que se aproximou de mim ontem, chegando cansado ao templo de Campostela. Lembra de quando você se sentou em um banco e eu fiquei admirando de longe seu porte altivo e o seu ar um tanto melancólico? Aí você olhou pela janela; devia estar pensando nos belos campos-mares de capim ondulante.
E eu vi algo em você que era duro. E muito sério. Aquilo me atraiu, pois queria desfazer o nó que havia na sua alma. Queria poder ter mãos de anjo, para tocar o seu coração, poder sentir o que você sentia. Podemos saber o Outro? Não sei, mas naquele momento a minha vontade era tremenda. E que gosto teria...
Me surpreendo tanto escrevento coisas assim para estranhos! Mas, meu senhor, meu caro misterioso, querido viajante, o quanto você é um estranho? Eu te vi sim. Eu te soube naquele momento, nossos mundos se cruzaram. Foi um esbarrar de almas. Você caminhou devagar na minha direção e me perguntou algo, eu estava distraída, você nem me olhara direito, eu nem olhara para cima, eu não respondi, você perguntou de novo e então, coordenado sem aviso, nos olhamos um pro outro dois universos se chocando foi tão gostoso e você ficou sem fala e eu não sabia o que dizer pois você tinha feito uma pergunta e eu nem ouvi mas não importava porque os seus olhos negros eram lindos e ali eu vi a raiva e a força e o desejo e uma tumba escura e o seu medo. Nossas sombras se tocaram e eu senti... Será que me apaixonei? Mas eu nem conheço você! Ou conheço sim? Eu que tentara tanto através das palavras não imaginava que o rio corresse pelos olhos, o desabar que caiu sobre mim foi profundo.
Mais um problema a me assaltar? Além dos deuses agora o amor me chama? Quem é você? Não sei seu nome, mas vi o seu coração. Não sei de onde veio mas saboreei a sua dor. Quero saber-te mais, estranho.
...Ainda escrevo para ele? Por que escrevo para ele? O estranho nunca vai ler.
Eu não quero mais nada, sr. Olhos Negros, me deixe em paz.
Você e seus companheiros são visitas no templo, por isso me escondo nas sombras tentando te espiar. Quero esquecer a voz que ouvi na Sala das Sombras e pensar agora no meu caminho para longe das confusões, pois sinto meu coração prestes a explodir.
Se você me deixar uma pegada, apenas uma, eu posso saber quanto você mede e como você andava. Mas para ter entendido o seu ar melancólico, seu porte altivo, seu orgulho de guerreiro, eu precisava, agora entendo, ter olhado nos teus olhos. Será que você sentiu o mesmo? Será que você me viu e me soube através daquele olhar apaixonado?
Me dê uma pista, uma pegada, jovem guerreiro. Não conheço o seu passado com palavras, mas senti o peso dos seus sentimentos.
Você viu o meu passado? Viu a minha Mãe e meu Pai e agora minha aflição de Escolhida?
Posso te ver novamente?
Que tolice. Algo que não vai ser lido. Penélope, sua tola... Vai afundar no peso dos seus fantasmas. Queria poder sair daqui, correr ao lado do vento nas colinas-mares de Campostela, mas sem você nada parece ter graça, estranho que conheci de súbito. Viajante de negros olhos tristes, abertos.
H. Sark - três / Penélope - um

- "Mas porque não poderia sentí-lo? Acostumei-me a pensar que tudo o que nos viesse na forma de instinto natural de sentimento fosse bom: felicidade, amor, surpresa, ódio. Acredito nas pessoas; acredito que o ser humano está certo, absolutamente correto em suas vontades. Temerosos eram os deuses que destruíram Babel, estes conheciam a extensão de nossa força! - A humanidade depende de nós para ser direcionada e encaixada no correto caminho. Eu vejo no futuro um mundo melhor. Eu também, porque não?, busco o Bem. E por isso acredito que devemos afastar de nós tudo o que nos obstruiu de chegar lá: Deus, religião, esperanças tolas, primitivismos e oposições infundadas. É por isso que escolhi o caminho do guerreiro, sem casa para repousar. Sigo as ordens da grande Torre Negra porque algo em mim diz estar certo. E é confiando em minha humanidade que penso ser o ódio algo natural, portanto aceitável.
- Matar é a lei na selva. Sendo humanos progredimos, isso é claro. Nós saímos do estado de selvagem bestialidade. Porém, ouso afirmar que o ódio ainda nos guia!
- Claro, claro, e porquê não? Não entendo porque as pessoas me olham deste modo quando trago o assunto à baila. Por acaso pareço louco? Eu, pessoalmente, posso dizer que estou onde estou - Chanceler de estado-maior da corte de Olstomé, dito com orgulho - graças ao meu ódio. Quando era pequeno uma guerra e uma peste deram conta de aniquilarem meus familiares mais preciosos; só eu sobrevivi. Se não fosse pelo meu ódio, pelo meu instinto de vontade de viver, não teria saído nunca do buraco onde me enfiara para morrer. Estou onde estou porque batalhei para isto. Lutei acirradamente pelo que eu acreditava. Detesto usar frases melosas de poetas menores, tolos e piegas, porém não há outro modo de colocar a situação. Acreditem: sou eu feito de meu ódio, a partir dele moldado e no mundo inserido. Tenho orgulho de minha posição. Orgulho tremendo!
- Acredito que somos movidos por ambições. Ninguém é capaz de fazer algo verdadeiramente altruístico. Quando fazemos um bem somos movidos por instintos mais básicos (ou seja, mais humanos) do que gostaríamos de afirmar, tais como a vontade de sermos valorizados, a Cobiça por recompensas, o desejo da Fama. Não existe o Bem e o Mal. Portanto, ninguém é capaz da maior das malvadezas sem se arrepender, assim como ninguém é capaz da maior das caridades sem um interesse pessoal em segundo plano. "Faço o bem para ir para o Céu!" Amem, cantam os padres, Amem. Isso tudo me enoja.
- Mas porquê falava disso? Ah sim, para justificar-me. Justificar aquele meu sorriso de alegria diante do livro de poemas sangrados. Cada vez que os abro (não há como negar para uma platéia tão cônscia da verdade) sorrio ligeiramente. A tristeza de Pátroclo só me causa alegria. Adoro ver suas linhas infelizes deslizando pelo papel, me regojizo com seus suspiros de dor, quase dou risada com suas promessas suicidas! E quem há de dizer que meus sentimentos são ilegítimos? São tão naturais e espontâneos! - como o amor! Contra o qual não há remédio.
- Se odeio Pátroclo é por causa da sua infeliz propensão à Poesia. Ele não é capaz de compor um ode decente que seja, mas se vangloria como o maior dos Camões. Ele é um homem cheio de faltas e pecados - defeitos inúmeros! Não vejo como ele poderia ser merecedor de meu amor e caridade. Ódio é só o que tenho para infelizes como ele.
- A raça humana é sem dúvida um brinquedo interessante para os Céus. Tão frágil, tão tola, tão insípidamente voltada para o vazio de si própria. Um dia desejo que tudo isso acabe, que todos se vão para as profundezas do Inferno e deixem o planeta a descansar!"
"Um dia, voltando para casa, encontrei no chão molhado algumas pegadas. Estavam marcadas contra a lama que o resto de uma chuva recente deixara próximo ao bosque. Inclinei-me devagar para observar aquele resto de pessoa. Algo tão sutil, deixado sem pensar no chão. Uma marca solta, um caminho percorrido. Voltando para casa peguei o bloco de desenhos e, reclinada contra o tronco da árvore do jardim, tentei desenhar como seria o homem que deixara a pegada no chão.
Seria ele alto? Talvez pelo comprimento da marca pudessemos dizer.
Seria ele velho ou novo? Outra vez o tamanho do rastro nos informaria a respeito da idade do misterioso personagem.
Acreditava ele em um universo único ou em milhares de divindades espalhadas dentro de cada um de nós? ... Ah, mas isso não poderia ser respondido pela pobre pegada! Isso teria de ser um recheio bem recheado, feito com esmero a partir de Imaginação apenas.
Fiquei a imaginar que pegada eu poderia ter deixado. Será que poderiam ver pelo comprimento de meus pés o meu gosto por mel? O que de mim ficaria para sempre e o que sumiria no vazio do universo?
E o que de fato sabemos sobre os outros? Não encontrei solução, não sei o tipo de pegada que minha Mãe deixaria. Gosto muito de explorar estes limites que definem pessoas diferentes.
Se falo muito é por puro nervosismo, ou quem sabe excitação de encontrar algo diferente.
Tentei por muito tempo ser os outros. Fundir-me à Existência e pensar junto com minha Mãe, caminhar junto com meu Pai e deitar-me na sacada com o gato Rosnado. Gostaria de saber se os pensamentos são realmente transponíveis entre as pessoas. Será que durante a mutação em palavras algo se perde? Até que ponto podemos nos transmitir aos outros?Um dia percebi que os sonhos são coisas únicas e pessoais. Sonhos são algo que só vive o sonhador. Ao tentar explicar à Mãe a paisagem etérea que vi durante o sono, percebi o quanto as palavras deturparam o sentido do que vi, obrigando algo tão incorpóreo a existir no mundo. Nunca mais expliquei sonhos. Eles são só matéria pessoal, diluída, efêmera. Tinha medo de matá-los ao prender palavras pesadas em seus fios compridos de imagens e ilusão.
O que não deixa de ser irônico: palavras são a minha vida.
Desde que eu era pequena eu me imaginava com este certo caminho, e sabia quais eram as escolhas certas a fazer para percorrer o meu caminho de mim mesma. Escolher errado era me perder, mas talvez, penso agora, sozinha no quarto, talvez não existem escolhas ou caminhos. Quem sabe o que eu teria sido ou dito em outras situações? Em qualquer escolha eu teria as palavras a me acompanhar, como sempre fizeram?
Divago demais. Sei que são coisas que não poderei passar completamente a vocês. Claro, sentimentos e sonhos são formados da mesma matéria. Como poderia transmitir para uma outra pessoa algo que não existe? Quais os canais que somos capazes de usar? Até que ponto as palavras são confiáveis?
Continuo a escrever, pois é assim que eu aprendo. Aprender, eu suspeito, é lembrar-se. Me parecem existir coisas que já sabíamos desde há muito. Eu sei, pois isso é algo que me demorou para ficar claro. Mas um dia, olhando o mundo, lembrei-me, descobri. Percebi que as coisas são o que elas são.
Divago novamente? O que queria perguntar-me era sobre a validade das palavras. Não sei se é possível saber o Outro, mas continuo a empurrar os limites. Sonho que um dia as palavras hão de me levar lá, onde só existe cachoeira e silêncio. Quem sabe no final do arco-íris não exista uma Palavra Perfeita, capaz de destruir as barreiras que condicionam a existência.
?
Quem sabe?"

