quarta-feira, abril 26, 2006

Na kullë de Orosh

O céu cinza disfarçava a neve que caia devagarzinho sobre a kullë. A antiga fortificação de pedra, enraizada nos montes duros, resistia à brisa pesada que trazia a névoa e fazia os barcos balançarem, ainda amarrados às plataformas de madeira.
Mark Ukaçjerra não podia imaginar um dia mais enfadonho. Um dia mais cheio de dor e tédio ao mesmo tempo. Parado em frente da janela ele viu algo se aproximar no meio da névoa. Era um navio! Seu coração pulou, mas ele permaneceu teimoso na frente da janela. Será que era o navio que ele tanto esperava?
Aos poucos a figura flutuante foi ganhando forma. Era mesmo um navio que se aproximava de Orosh, lá no alto do céu; como o príncipe gostava de dizer, a ilha flutuante de Orosh fcava no limite entre o mundo dos homens e o mundo dos sonhos, nas alturas frias do mundo.
Mark suspirou devagar, temendo transparecer alguma sensação de mágoa ou sofrimento. Mesmo que não houvesse mais ninguém naquela antiga biblioteca ele permaneceu de semblante fechado e ocultou os verdadeiros sentimentos. Não era o navio certo. A bandeira era de algum clã do Rrafsh que viera pagar o tributo do sangue, e não do navio-borboleta que sumira alguns dias atrás. . . Aquele que ele tanto esperava. . . retornar. O navio dela. . .
A neve continuou caindo firme e a neblina pareceu aumentar. Mais nenhum barco viria para Orosh esta tarde: não era seguro navegar por aqueles céus naquelas condições. Ele teria que esperar.
As paredes apareceram subitamente na visão de Mark Ukaçjerra, e toda a petridão da kullë de Orosh caiu sobre ele, pesada. Ao mesmo tempo anoitecia lá fora e a neblina branca prendia a ilha flutuante em si mesma, no frio que reinava nas alturas do céu.
Mark andou até uma estante e pegou o pesado livro que tanto conhecia. O Livro do Sangue. Aquele que registrava os assassinos de todo o Rrafsh lá embaixo. Assassinos não, gjaks. Os que matavam os rivais para recuperar o sangue e a honra do clã, envolvidos nas vendetas familiares e aos quais era permitido matar. Tudo de acordo com o Kânun, o cânone, pilar de toda a tradição e sustentáculo de Orosh. Era Mark Ukaçjerra o encarregado em registrar todos aqueles que vinham à kullë, àquele castelo de pedra enraizado na rocha, para pagar o tributo do sangue, que dava ao gjak o direito de se vingar matando um membro do clã oposto. E assim prosseguiam as vendetas, quase eternas naquelas montanhas.
Como eram chamados mesmo pelos camponeses? pensou Mark, quase sorrindo. Montes Malditos. Era isso. . . As terríveis montanhas das terras altas do Rrafsh. E no alto de tudo aquilo, no céu frio e cinzento, controlando os mecanismos da vingança e do sangue, estava a kullë de Orosh. E Mark Ukaçjerra, o primo do príncipe, controlava os registros do Livro do Sangue, das mortes e da honra lavada ou ainda não-recuperada. Os nomes de todos o gjaks vingados estavam registrados em tinta preta nas páginas antigas. Em suas mãos gemiam milhares de mortos, rios de sangue correndo e preenchendo a pequena biblioteca, caindo no mundo lá embaixo. Tudo envolto pela mais firme tradição.
Por anos e anos a fio foi isso. Lá no Rrafsh as famílias lutavam, matavam-se uns aos outros e vinham pagar o tributo. Uma série de gjaks passavam diariamente por Orosh, apenas para serem registrados no livro que Mark segurava. Tudo como sempre foi, desde a Idade Escura e talvez ainda antes. Nada perturbava os rituais e as regras da morte, da vendeta entre clãs.
Ao menos até agora. . . O Kânun sobrevivera à tudo, até mesmo aos legisladores que vieram do sul, tentando substituir as regras da vendeta por leis civilizadas. Bobagem. O Kânun engolira-os. O sangue continuava a verter e a ser recuperado pelos gjaks.
Mas havia um único ponto, ou melhor, dois pontos verdes e brilhantes que pareciam contestar tudo aquilo.
Diante dos olhos de vidro dela, Mark Ukaçjerra ruía. O mundo e as engrenagens do Kânun, as vendetas, a kullë de Orosh, o Livro do Sangue, tudo isso virava fumaça e espuma e sumia na escuridão. A fragmentação dominava Mark desde que ela aparecera em Orosh. Maldita! Era por isso que mulheres deviam ser afastadas das reuniões de homens, o Kânun já previa sabidamente. Seus olhos lindos faziam tudo parecer obsoleto e contestável. Tudo se escurecia terrível, cheio de dor e sangue, no meio dos quais surgia o redentor brilho verde das pupilas, como se delas emanasse toda a luz que existisse no mundo.
Mark Ukaçjerra bateu os punhos na mesa. . . O mundo escureceu lá fora, escondido na neblina. Logo o jantar seria servido no salão, cheio de fumaça das tochas, de cadeiras estofadas com pelo de urso, de reclamações do príncipe, risadas rudes do feitor dos tributos e olhares de esguela dos serviçais. A raiva o dominou e ele voltou a se despedaçar. Milhões de fragmentos-ele se dispersaram pela sala. Vazios.
Cinzentos como a neblina que envolvia a ilha e a pétrea kullë de Orosh. O único lugar no mundo onde ela parecia não estar. E justamente o lugar onde Mark Ukaçjerra era prisioneiro de sua função, prisioneiro e vítma do Sangue que escorria violento em todo o Rrafsh.

9 comentários:

Charles B. disse...

Viva Ismail Kadaré! A Albânia é tããão legal...

(P.S. - Alguém aí tem idéia de como se pronuncia "Ukaçjerra"??)

Eduardo Dobay disse...

"Ukatchierra".

Eduardo Dobay disse...

Falando nisso, a fonética do albanês parece ser tão certinha...

Nuk flas Shqip.

Muriel A. disse...

uau

Milla disse...

hã?

Charles B. disse...

Que legal Dobz! *brilho nos olhinhos*

Lobz disse...

Que legal... O.O

piochi *um minuto de silencio pela alma do infeliz* disse...

sinistro u.u

Charles B. disse...

Ei gente! Leiam Abril Despedaçado. E depois o Palácio dos Sonhos. E depois o Dossie H. E depois não parem nunca de ler Ismail Kadaré, que tal? Ahhh... é tããão legal!!