segunda-feira, outubro 03, 2016

IA

Não conheço muito os trabalhos dedicados à criação de uma inteligência artificial, e por isso não entendo muito bem uma série de coisas sobre estas tentativas. Uma das coisas que não entendo muito bem é o objetivo desta criação. No que consiste essa outra inteligência que tentamos criar?

Isso se liga a outra coisa que me incomoda que é a necessidade dos robôs de parecerem humanos? Não basta pensarem livremente, mesmo sendo uma caixa de metal, um objeto qualquer? Por que a busca por outra inteligência deve passar por todas as dificuldades de se reproduzir um corpo humano?
Acredito que, inconscientemente, percebamos que o ato de criar gente já existe há muito tempo.
Mulheres têm dado à luz diariamente a novos seres humanos, criando novas inteligências e novos corpos, de maneira surpreendente, e nem sempre damos crédito a esse milagre biológico. Nós possuímos a capacidade de criar outros seres, mas nem sempre damos crédito a esse milagre biológico. Será que é porque o compartilhamos com animais? Porque ele foi desenvolvido ao longo de milhões de anos e de maneira inconsciente dos seres que participavam desta transformação?
Provocativamente, será que podemos entender as tentativas de criar uma IA como um roubo dos homens de uma tecnologia das mulheres?

Mas existem outros aspectos da IA, pelo que eu entendo, que não estão nos seres humanos que regularmente nascem. Um computador poderia realizar operações mentais muito mais complexas do que nós. A conjunção entre gente e máquina nos faria superar certos limites do pensamento que nos fariam ver novos horizontes.
Neste sentido, entendo a tentativa de criação de uma IA, se pensarmos como a tentativa de criar um ser que nos supere. Seria muito interessante conhecer uma entidade assim.

Mas de maneira geral, me surpreendo pela pouca novidade destas empreitadas. De alguma maneira, estamos à séculos criando seres que nos superam. Um exemplo possível é Deus.
Concordamos que Deus é uma invenção humana. E concordamos também que Deus nos supera em todos os aspectos, sendo, ainda, perfeito. Por que não entender Deus como uma Inteligência Artificial construída por humanos?
Convenhamos que, para uma importante parcela da população, Deus passa no teste de Turing. Diariamente, a ele são atribuídos fenômenos e eventos. Para muitos, sua realidade é indiscutível e revelada através de seus efeitos no mundo real.
E não apenas Deus, mas em diferentes períodos históricos temos deuses, espíritos, objetos e animais, todos que foram dotados de agência e inteligência para agirem sobre as nossas vidas. Agora, tentamos colocar em nossos computadores e carros essas habilidades.

O que estou tentando entender é essa conexão entre uma inteligência nova e a robótica - pensada como seres de metal, cabos e correntes.

Se o homem moderno nasceu, como diz Harold Bloom, do Hamlet de Shakespeare, então ele morreu na Segunda Guerra Mundial. Teve vida importante e breve, e agora vemos o surgimento do homem contemporâneo. Este, surgiu quando a América foi descoberta, e já existia por aqui. Esperou todo esse tempo e agora se torna a cara da gente mundial.

segunda-feira, janeiro 19, 2015

Um Mundo Menos Humano

O dever dos homens para o futuro é o de desaparecermos cada vez mais. Em face a toda destruição que trouxemos, é óbvio que o mundo precisa cada vez menos de nossa humanidade. Não quero dizer que precisamos nos extinguir em números, mas sim em espírito. Ao invés de existirmos, será nossa função, ao continuar, se continuarmos, de deixar o mundo viver por nós..
Com isso quero dizer realizar as pedras por nossos corpos, fazer falar aos bichos por nossa fantasia, deixar o raio passar por nossa fictícia medula humana, e ser dele a voz que fala. Se nossa consciência é um evento extraordinário no universo, único talvez, então ela não é a nossa. Somos só a comsciência do mundo, e esta não nos pertence. A palavra é dos outros, mesmo que nós a falemos. Abrir caminho, cada vez mais no futuro, para um futuro que não seja humano.

sábado, outubro 11, 2014

Pedido de Amor

Laura Marling inventou o que, para mim, pode ser chamado de pedido de amor, em oposição a uma declaração do amor que sentimos:

"Take me somewhere I can grow
Give me something, let me go
Tell me something I don't know"

quarta-feira, outubro 08, 2014

Fala

Fala mais, que preciso te escutar. Quando morei em ti, o mundo tinha todo o Seu nome, e era lindo. As árvores cresciam na beirada do universo, os oceanos eram cheios até a borda, um fogo secreto alimentava toda a criação, uma sensação de coragem vivia sempre no coração de todos, até o medo era coragem! Então me diz.
Qualquer coisa, qualquer nome. Fala, fala, fala.

terça-feira, agosto 19, 2014

De cadernos


Acho que estou deprimido.
Tão estranha esta conclusão. É o que me diz meu namorado, o que me dizem meus pais. E acho que estão certos, tanta apatia devia mesmo ser estranhada, tanta dificuldade em conseguir saber o que quero e lutar pelo que quero não deve ser normal.
Cada vez mais só tenho ânimo para ir para casa, ficar lá, ser esquecido...
A minha vida toda esperei que viessem por mim, e na maioria das vezes essa atitude foi um problema. Está sendo um problema.

Então resolvi buscar ajuda, de alguém que pudesse me levar adiante - qualquer adiante - e me fizesse entender tudo de novo, ganhar perspectiva. Todos têm me ajudado bastante, mas pouco tenho me movido.
Até que lembrei de pedir ajuda para a única pessoa no mundo em quem eu confio absolutamente, a única pessoa que entende quem sou e o que estou passando no momento (porque entender é sempre o mais complicado):
Eu mesmo.
Tenho lido cadernos e diários antigos, e ainda estou chorando, um pouco de alegria. Estou relembrando de coisas que tinha esquecido e que servem exatamente para o momento atual; citações e frases de ordem que eu deveria estar ouvindo gritadas ao meu ouvido para acordar.
Aliás, acordar talvez seja exatamente a palavra. A última anotação em um dos diários, logo antes deu parar de escrever diários, diz: Eu sinto que estive dormindo este tempo todo.
E antes disso, haviam lutas maravilhosas, como as que eu quero lutar agora. Pensamentos, medos, e relatos assustados de pequenas coragens que são exatamente o que preciso no momento (coragens). Estava tudo nos cadernos.
Eu sempre soube quem eu era, o que eu deveria fazer, onde ir, o que escolher. Acho isso estranho agora, como era bem resolvido desde a infância, e planejara tudo. Eu sempre soube porque estava vivo. Todos têm me ajudado bastante, mas foi preciso ouvir os conselhos escritos (e esquecidos) pelos meus próprios punhos para me lembrar disso.
Não sinto, ainda, um ânimo para realizar o que me proponho, mas sei, racionalmente, qual é a escolha a ser feita. Então é isso que decidi fazer, seguir o plano da pessoa que eu fui um dia, sem esperar pelo fim natural do desespero. Acho que é esse o caminho: saber e caminhar. Ser o que quero ser antes de esperar pelo momento adequado, que muita empolgação não tem me servido para nada.



sexta-feira, junho 13, 2014

O Selvagem (The Wild)

 Subi para o meu quarto onde o computador ainda ligado ronronava baixinho. Ao invés de voltar a ele, escovei os dentes e não sei bem por quê deitei na cama. Fiquei assistindo a luz azul da tela iluminar o teto. De vez em quando o farol de algum carro que passava.
 Era noite já, e o bairro estava vazio. Fiquei pensando na rua escura, era engraçado. Tão cheia de crianças brincando de manhã, gente lavando seus carros, vizinhos se cumprimentando enquanto saíam apressados para o trabalho e então a hora morta... Até que no almoço as pessoas voltavam. As mães cozinhavam as refeições dos filhos que foram buscar na escola, e depois todos iam atarefados para cidade ou voltavam de lá, era realmente engraçado; se formos pensar todos somos muito iguais, e temos todos os mesmos hábitos, acho que é isso que faz de nós uma comunidade. Todos juntos nos levantamos e víamos o dia passar. Então de noite vinha o silêncio. A outra hora morta. Minha cabeça parecia dar piruetas em minha cama enquanto tentava pensar em todas as casas do bairro e em cada casa uma família jantando, como a minha fizera agora à pouco, e todos sentados na mesa, e em silêncio ou falando, não fazia diferença, falávamos todos juntos e as mesmas coisas. Na hora não me pareceu ruim sermos todos iguais, só me assustou o número. Então minha cabeça teve a vertigem de ver o espaço aumentar. Quanto mais quieto na rua mais eu imaginava cada casa dos dois lados da alameda, e depois no cruzamento, e no bairro, nos jardins todos, nas piscinas, todas iguais, e em cada casa uma luz fraca iluminava a mesma sala de jantar, onde todos éramos iguais e diferente, era realmente uma quantidade impressionante, quem foi que disse uma vez que não conseguiria viver em um prédio porque ficava a imaginar que em cima de si e embaixo também houvessem pessoas, fazendo as mesmas coisas que nós, era como se nos recolhêssemos toda noite para nossas cavernas, era realmente um mundo inteiro nossa comunidade.
 Voltei a prestar atenção ao silêncio da rua, para tentar me acalmar. Eu conhecia bem essa hora quieta. Nessa época, eu já havia terminado a escola mas não trabalhava e não saíra ainda da casa de meus pais. Admito que achava estranho ficar tanto tempo ali em meu quarto, vendo o bairro alternar entre momentos rápidos e outros mais lentos. A noite ninguém aproveitava, ficava vazia, e era tão fresca e boa. Sempre achei estranho que nenhum de nós provasse a noite, era curioso. Ninguém vivia nela. Já não pensava mais nos deveres, nas leituras, nos amigos. Agora sempre minha cabeça ia para essa multidão de casas, cada uma com sua família, e na noite vazia.
 Quando olhei pela janela ele estava lá. Empoleirado na janela, o torso nu e suado brilhava na luz fraca da rua. Vestia um chapéu de penas como aqueles dos nativos americanos. Tinha a respiração ofegante, parecia estar quase morrendo.
 Levantei a tempo de ampará-lo quando ele ia cair no chão. Coloquei ele na cama, o selvagem. Dava pra ver sua pele bem de perto, além de suada estava sujo, quase como se fosse verde, e também machucada. Estava ferido, o selvagem. Ele queria muito abrir a boca e falar, mas eu dei a ele um copo de água, tinha que descansar antes de qualquer coisa. Olhei pela janela de novo e só uma coruja me espiava da árvore, com olhos sinistros. Um carro passou devagar entre as casas e um arrepio percorreu meu corpo.
 Ele descansava agora. Apoiei-o em meus travesseiros e ele disse estar melhor. Seu sotaque era fortíssimo, parecia inventar algumas palavras. Foi assim que ele contou pra mim sua história:
 Nasceu em uma aldeia, muito longe. Lá onde todos eram selvagens aprendeu a viver na mata. Sabia caçar, sabia lutar, sabia esconder o medo e a fraqueza.
 Tinham que dividir a terra onde viviam com outros homens. Eles não se gostavam. Diziam que esses homens tiravam e tiravam, e arrancavam coisas da mata para nunca mais voltar. Para onde iam todas essas madeiras que desciam o rio? Por que cavavam os morros, afugentavam as caças? Eram homens que viviam muito diferente, mas era preciso tolerá-los.
 Eu já havia lido sobre isso. Fiquei com pena de meu novo amigo e ofereci-lhe minha compaixão. Acendi um abajur e admirei o selvagem. Suas armas eram rudimentares, quase quebradas. Contra esses homens lutara? Como chegara até aqui? Neste ponto sua história se fragmentava.
 Decidira descer o rio, para ver como viviam os outros. Em casebres miseráveis na beira do rio teve que aprender uma nova vida. Trabalhou para os homens para ganhar comida. Todo dia levava toras e mais toras rio abaixo. Seguiu para encontrar uma fortaleza gigantesca, onde ninguém podia entrar. E depois os navios gigantes, que seguiam mundo afora. Embarcou também neles, decidido a lutar, a encontrar a raiz do mal que assolava sua terra. Aqueles homens tristes que conhecera não se alimentavam da madeira, da terra, das penas. Para quem as vendiam? No mar, encontrou outros homens perdidos, marinheiros do mundo todo, e conheceu também o mundo deles.
No porto esperava encontrar sua resposta, ser um herói que salvasse seu povo. Todos em casa morriam de fome e de doenças novas. Na cidade o rechaçaram, o atacaram, ele prosseguiu. Um homem de olhos em chamas, no alto de uma torre, os cães que latiam toda vez que se aproximava, suas visões se seguiam sem nexo. Teve de fugir da cidade, onde o império construíra um labirinto de fumaça densa e ervas venenosas. Armou sua flecha, que simplesmente se quebrava contra o metal dos carros. Era muita sujeira, em todo lugar. Ele era estranho, em todo lugar. Foi engolido por um monstro, mas conseguiu fugir. Escapou para um morro deserto, atrás do depósito de lixo da cidade. Lá reconheceu alguns animais, como uma gaivota e uma raposa doentia.
 Correu rápido quando os cães o farejaram, entrou em um bosque ali perto. Cruzou um córrego sujo. Via poucos líquens nas árvores, a floresta era muda. Contornou um arbusto e deu de cara com minha visão:
milhares de casas, todas elas juntas, silenciosas como tumbas. Se olhasse de perto veria luzes acesas, não mais que abajures, onde famílias jantavam, milhares delas. Seguiu por milhas, e em todas as casas via a mesma coisa. Encontrara o que procurava, o coração da fera. Se conseguisse destruir isso, tudo teria fim, pensou. Mas onde atacar, se todo lugar era igual? Sonhou uma última vez com sua aldeia, com a curva do rio que, agora sabia, não iria mais ver. Percebeu que sangrava, teria forças para um último golpe. Via minha janela aberta e escalou. Eu era seu inimigo. Eu, que tivera a mesma visão que ele. Ele olhou para mim e soube que eu era inocente, que eu nada sabia do seu mundo, dos outros mundo, e uns outros tantos que alguém por mim destruía. Mas mesmo inocente ele teria de me matar. Nós dois nos entendemos completamente naquele instante, em que, fraco na minha cama, contou sua história e eu, mais fraco ainda, larguei-me e abri-me para ele, deixando que me matasse.
 Com a resto de sua respiração não pôde erguer sua arma. O selvagem morreu em minha cama. Não fizeram muitas perguntas.

domingo, janeiro 19, 2014

Penélope maruja

Da primeira vez que a vi achei que ela caminhava de um jeito estranho, como se mancasse. Seus passos tortos eram culpa das botas pesadas e sujas, muitos tamanhos maiores que seus pés, que, ouvi dizer, tirara de um morto alguns dias antes.
Da segunda vez que nos encontramos, estava elegante. Deitada sobre uma espreguiçadeira no deck de seu navio, seu próprio palácio, parecia inundada de luz clara. Sorria alegremente e me falava animada que finalmente conseguira contratar uma tripulação. Examinara os pretendentes e finalmente escolhera marujos para navegar. Respirei aliviado. Alguns dias antes tinha aconselhado-a a fazer justamente isso. Tinha ficado chocado ao saber - como podia agora comprová-lo, a bordo de seu navio - que navegava com outras três pessoas apenas, e nem eram homens de mar. Uma governanta, um guardador de porcos desdentado e seu próprio filho. Sem contar o cão, Argos.
 Mas agora tinha uma tripulação. Olhei em volta e meu alívio desapareceu. Eram mulheres e homens sujos, de roupas estranhas, olhar vagante, jeitos engraçados. Como se tivesse recrutado gentes das ruas! Ela apenas sorriu, dizendo-me que tinham o mar no coração, e que por isso fariam uma boa tripulação. Nada para me preocupar, me garantira. Tentei argumentar, mas tínhamos acabado de nos conhecer. Que podia eu falar para alguém que encontrara pela primeira vez apenas alguns dias atrás?
 Ela entrara no entreposto, ignorando a fila e passando à minha frente, agitando o papelzinho de licenças no ar. Achei-a rude. Tinha aquele andar pesado, desengonçado. Teria esquecido o incidente e virado as costas para a estranha se uma amiga em comum não tivesse me contado as histórias. Dizia que viera navegando em um barco velho, com apenas três marujos e um cachorro. Que buscava algo impossível no mar, um tesouro mais valioso que todos os outros. Que era um pouco louca, mas tinha quem a admirasse. Perguntou se eu não queria conhecê-la, e consenti. Ela nos introduziu, e mentiria se não dissesse que me senti instantaneamente conectado a ela de algum modo. Dias depois, quando me convidou para conhecer o barco fiquei feliz, naquela alegria fácil dos que pensam que os outros nos estimam tanto quanto os estimamos.
 Ela estava sentada em uma cadeira no deck. Parecia, como disse, cheia de uma luz líquida que a deixava claramente visível de qualquer lugar. Seria exagero compará-la a um farol? Ela sorriu diante da minha preocupação com os tripulantes, que mexiam desajeitadamente nos cabos. Falei novamente dos perigos do mar, de como tivera que enfrentar homens armados - de cujos corpos retirara as botas que usava - e que mais perigos estavam à frente.
Ela deu de ombros e continuou a costurar a vela. O longo pano branco estava em seu colo. Queixou-se que os ventos fortes que batiam de noite rasgavam as velas deixadas nos mastros. Todo porto era sempre o mesmo, me disse. Tinha que ficar alguns dias parada costurando as velas que as tempestades rasgavam, em um trabalho sem fim. Quanto mais queriam avançar mais tinham de refazer seu trabalho.
 Tirei meu chapéu e pedi mais uma vez que reconsiderasse sua viagem. Ela me foi firme, mas gentil. Partiu no dia seguinte. Fui vê-la no porto mas chegara atrasado. Seu barco já estava distante.

 Somente anos depois fomos nos reencontrar. Entrava em um armazém do porto tal e tal, quando a encontrei, entretida olhando as sacas. Mal pude acreditar, foi como uma visão mítica que me saltava aos olhos. Ela, entre todas as pessoas, tinha existência para mim. Toquei em seu ombro. Ela sorriu. Acho que demorou a me reconhecer, mas assim que viu que era eu me pegou pela mão e levou para fora. Sentamos em uma mureta e ela me contou sua história. O sol batia forte, mas por nada no mundo eu sairia dali. Contou histórias terríveis, como todas as que conhecemos, sobre os rochedos que rachavam os cascos, os vendavais que rasgavam tudo, os ciclopes insaciáveis que devoraram sua tripulação, a doença que levara sua governanta, o deus furioso que castigara o guardador de porcos atravessando uma lança em seu ventre, e o filho que partira em sua própria aventura em terras distantes. Só lhe sobrara o cão, fiel como sempre. Dizia as coisas mais tristes debaixo daquele sol sem piscar. Estava hipnotizada pela própria história, me segurava pelos olhos muito bonitos. Era como se temesse que aquilo tudo que vivera fosse desaparecer em um segundo, sentindo que sua viagem fosse a última, então estava tendo certeza que viveria mais um pouco por sua história. Queria que alguém no mundo houvesse que saberia o que pensou. Quando terminou engoliu em seco. Levantou-se, pediu desculpas e foi embora, com um convite para que eu visitasse seu barco.

 E então... acabei não indo vê-la, algum trabalho me retivera no armazém o dia todo, e quando saí pro cais ouvi que já tinha zarpado sozinha, exceto pelo seu cão, para os mares mais perigosos do mundo.
 O tempo passou, e admito que já ia esquecendo-a. Mas então, ontem mesmo, alguém passou em casa, contou alguma coisa que viram no porto, você soube... Na hora entendi que falavam dela. A maruja fantasma causa mesmo uma impressão nos marinheiros. Todos sabem na hora que ela é a valente navegadora das histórias. Mas me contaram que seu cão morrera, estava velho demais. Insisti, ela não podia estar sozinha. Tudo o que me fizeram foi balançar as cabeças. Ontem mesmo, ternamente confirmavam, saiu deste porto, e estava sozinha. Sem tripulação, filho ou cão. Mas o barco era o mesmo. Com o velho casco ainda singrava os mares, ainda buscava, atrás do quê...? Não queriam me machucar os sentimentos, sabiam que eu ficaria arrasado se soubesse que a perdi. Acho mesmo que não nos veremos nessa vida. Estava triste, mas ontem a coisa mais incrível me aconteceu.....
....
Ontem à noite tive um sonho. Ela velejava valentemente, cortavas as ondas. Subia as encostas gigantescas e cruzava os penedos íngremes para depois descer do outro lado. Ia sozinha, mas carregava na testa uma estrela. Ao longo, uma ilha surge de dentro da espuma. Faz de tudo para chegar lá. Ela ancora na areia macia e caminha até a terra. Neste instante olha para mim, e sei que este sonho é verdadeiro. Algo me diz que isto é a verdade puramente mostrada para mim.Ela me olha com os mesmos olhos de sempre, que sabem colocar as maiores tristezas sob a luz e vê-las sem temer, é assim que me encara e me sinto relaxar. E mesmo sendo um sonho sei que estou vendo algo que está para acontecer.
 Não estamos sozinhos na ilha. Um homem velho, de cicatrizes e rugas imensas, se aproxima curvado sob o peso de seus bastões. Parece o ser mais triste do mundo, mas ela vai até ele. Tem o cabelo solto e lágrimas estão voando. Tento me aproximar, mas é tudo muito longe. Estão conversando, e seguram as mãos, mas não posso ouvi-los. O ruído do mar é muito alto. Tento correr para a grama, vejo carneiros na ilha, e colinas muito mais macias que as do mar. Ela cai de joelhos, e corro até ela. Você quer prova, ela diz. Quer que eu te mostre que sou mesmo quem digo ser? Ele chora também, confuso. Tudo se aproxima, estamos os três muito próximos.
Ela fala dos bosques de árvores frondosas perto de casa. Quando era menina via as frutas inalcançáveis crescendo. Até que ela mesma aprendeu a subir, e escalando descobriu o saber de se tomar algo com as mãos e saborear seu gosto. Bastava pegar. Quando cresceu mais viu as madeiras descendo da floresta para o mar, virando canoas, virando navios, crescendo sob as velas brancas e partindo para as guerras e tratados comerciais. É bonita a floresta, agora eu a vejo também. As árvores são altas e oferecem uma sombra feliz. Agora vejo os dois caminhando entre as árvores de mãos dadas; mas não são os que vi há pouco, estão jovens e felizes, acabaram de se casar. Juntos escolhem uma árvore. A mais bonita, a maior. Cortam-na aos golpes do machado. Choram juntos a cada golpe que o ferro dá no tronco. Ao fim a árvore cai, sua madeira desce também ao porto. Sobra apenas o cepo, a raíz da árvore que ficou para fora. Nele, enorme, começam a entalhar. Trabalham sempre juntos. Vejo os dois entalhando com muito cuidado. Eventualmente transformam o cepo em uma cama. É onde os dois vão se deitar, e viver juntos. Ao redor já começam a surgir as paredes, ergue-se um palácio. De frente para o mar, de costas para o bosque, cresce a sua casa. Os dois moram ali, e muitos homens e mulheres entram e saem. Vejo o guardador de porcos trazendo os rebanhos. A governanta lava os pés do homem. O filho nascendo, o velho cão sorridente comendo as sobras. Neste palácio todos podem entrar, mas há algo que nenhum deles sabe, um único quarto que sempre permaneceu fechado a todos. Só os dois podem entrar. Quem mais saberia, de todas as pessoas no mundo, sobre a cama na qual dormiram juntos? Quando ainda não havia telhado, eram as estrelas que cobriam o cepo entalhado onde dormiam; apenas as mãos dos dois conheciam aqueles sulcos. Ela lhe conta a história, ele não para de chorar, se reencontraram. Nesse sonho feliz tenho a certeza de que o mar, sempre, em algum momento, quando for, devolve o que engoliu.



segunda-feira, dezembro 09, 2013

Penélope se torna Sark

E se ele se foi? E se não existir mais?
Em algum lugar do mundo um vazio mana do próprio ar, vazando minha tristeza de dentro. É um poço, onde não ouso entrar. Ele não existe mais.
Vagante, sua sombra procura por asilo. Os campos batidos pelo vento são sua nova casa, é dela que sai o gemido do vento; sombras têm bocas? Elas falam por palavras, mas quando perdidas, quando desgrudadas de seus homens, vão gemer para sempre, e uivar por entre os caniços, fazendo calar até aos gafanhotos.
A noite é fria mas a sombra não o sente. Peregrina por entre a relva, que se curva respeitosa para sua passagem, e chora devagarinho.
Me levanto devagar. Sei que não vou poder dormir essa noite. Abro a janela e deixo o vento bater em mim. O que faz esse vento? É verão, onde está o seu calor? De que cidades portuárias, de que mares doces e de que vielas escuras chega esse vento, quantos minaretes circulou, com quantas pessoas cruzou? Poucas, pois é noite em todo lugar. Nessa cidade distante, com cheiro de amêndoas, gengibre e pólvora; é noite na planície onde a sombra vaga; é noite aqui, em minha casa.
Também eu não tenho casa. Só moro por instantes, esperando algo que está por vir.
E se ele não vier mais? Se não existir?
Olhando pela janela me veio a claridão, e descubro o que é preciso fazer. Quero a sombra dele, tenho que trazê-la até mim. Se morreu, eu serei sua guardiã. Se não existe mais, eu serei tudo o que nele amava. Essa pessoa não pode deixar de existir, penso. Eu não viverei sem ele, e tenho que ser quem eu amava, para que ele prossiga, para que realize-se, para que viva.
Amor, te amei tanto que me tornei você. É dentro de você que tenho que viver, agora mais do que nunca. Eu sou apenas aquilo de que um dia, temente, tive o conhecimento febril, que toquei, que foi através de mim. Penso na sombra distante, perdida no matagal, que chama, clama, exige; é para ela que grito. Com alguma parte obscura de mim chamo sua sombra. Ela agora será minha, serei eu aquilo que fui. Só fui os outros, que se tornaram algo através de mim. E eu? Muito tímida, nunca atravessei alguém. Nunca falei aquilo que realmente quis. Quem nesse mundo sabe o que quero?
Da distância impossível sua substância preta chega até mim e se gruda em meus braços como piche. Ela se agarra, está desesperada. Uma sombra que foi a vida inteira de alguém não pode se ligar a outra pessoa. Luto contra essa barreira, luto para trazê-la para mais perto de mim. Como me encontrou, como chegou até aqui, atravessando cidades, mares, planícies? Vejo-a grudando-se em mim. Eu chamei por ela, quis me tornar aquele que amo. Vou viver a vida dele.
Como se debate essa sombra! Me puxa para fora da janela, meus cabelos deslizam na ventania. Ela me quer como a uma casa. Ao mesmo tempo não nascemos juntos, o encaixe é imperfeito.
Seus sonhos sobem leves pelos braços da sombra e entram em mim. Não são meus, e meu primeiro ímpeto é rechaçá-los, afastar de mim a substância negra.
Minha cabeça fica leve, devo estar lívida. Com medo, enrodilho-me dentro de mim mesma. Agora faço de novo, me embranhando cada vez mais dentro da minha escuridão própria. Sua sombra percebe que me afasto e está ganindo; ela ama a liberdade, mas também a teme. Somos duas que perdemos o rumo, sem saber equilibrar liberdades.
Mas então me lembro do que me trouxe até aqui: se ele não existe, preciso ser tudo o que nele era possível. Não posso deixar que a pessoa que amei desapareça. Se ela se tornou outra, é preciso que eu também me torne outra, que me torne o que ela era. Que o mundo não desperdice essa alma! penso, ainda há muito o que fazer com essa alma.
Abandono então quem eu era.
Desde criança fui tão calada. Esperava algo chegar, esperava sempre; costumava deixar minha roupa nos pés da cama, prontas caso me buscassem no meio da noite, meu sapato favorito entre elas. Quem viria? Os homens do bosque, os elfos da noite. Sempre haveria alguém.
Nunca falei o que penso. Agora é tarde. Agora serei outro e nunca mais falarei por mim.
Sua sombra me abraça por completo, sou tomada de amor; as duas se buscam. O que separa uma pessoa da outra? É essa a barreira que acabo de quebrar. Não é um muro escuro, são buracos fundos. A qualquer momento posso cair, e deixar de ser.
Sou ele agora, carrego sua sombra, é tão forte o medo que nasceu em mim: novos sonhos, novos tentos, novos desesperos sombrios. Um medo tão grande me faz cair ao chão que penso estar à minutos sem respirar.
Aos meus pés a minha sombra respira devagarzinho. Era sua antiga sombra, agora minha. Era um sonho pequeno, agora correndo em minhas veias e me escurecendo. Murmurei uma comemoração macabra.
Se em algum lugar do mundo ele desapareceu, ao menos sua sombra faz parte de mim. Serei o que mais amei. Ele não pode desaparecer, amei-o demais.

domingo, setembro 01, 2013

New World

At the sea...
We ran from cannonballs, we ran from the waves, we ran against the reefs, smashing towards them time and time again. I wished to die, I looked for death, and there it was, facing me and I fearless. I loved it, cause I couldn't fear, and i loved it, then it was found, my wishing towards the sea. Look at what my secret counciousness said to me: Sydra came to me one night and whispered like this: why do people exist... like this? Can't they see how wrong it is, how their bodies ache and scream, and wish to end it? Oh, and then, she said like this: Let us end this. I can end this, this is what meant having seen a god, it means that I was so unsatisfied with the ways of the world that I accidentaly entered one of its veins, that I found one of the governing principles of it, that I was granted the boon of seeing what is inside everthing, what makes things be! It was glourious, full of life, full of what is promised, and everything could be made by that thing of light. This is what a god meant: a wish, and anything wished would be real, done, made, created, a full force of creation, plentiful, it was there, it was beautiful-blue, sad-blue, deep as the ocean, deep as the word deep that can go to the bottoms of the oceans. It was a woman holding a bird, sitting atop a tree in the ends of the earth: that is the force that creates everything. My encounter with a god was not a mission given to me, like I felt, it was receptive. It demanded nothing, it only asked: what is it, that you want? Rather, I must correct myself, it demanded everything. The only thing which we all avoid giving: ourselves. It demanded me. It was I that which I wished to throw upon the sea. It was I that I cast away in that storm, to the big mouth, to the god inside the sea, to the bird-woman of the deep. It was I that it demanded, everything, nothing, all that could ever be given. All that we are are ourselves. All that we can control is this self, this great self which we are but cannot hard to face. Oh, love, look at my life, it was given away to the sea. In exchange, I have ended this age of power.

quinta-feira, maio 16, 2013

Lá no fundo as mulheres empreendiam uma viagem subaquática



 - Estão ali, no barco das mulheres.
  Chegou um navio brilhante, com luzinhas penduradas entre os dois mastros, tal qual uma fila de bandeirinhas juninas. Ele chegou perto da traineirinha. O navio iluminado sorria plácido para o mar calmo. A traineirinha era resistência. Foxy desceu do barco para a água e se aproximou de Haccu. Eram duas cabeças mal saindo da linha d'água conversando no escuro. O mar era um espelho naquele dia.
  - Você veio com um barco bonito.
  - É de Falkwer, você lembra dele?
  - Sim, ele era de minha cidade. Foi ser herói. Saiu pelo mundo. Olha que barco bonito. Faz jus ao herói do mundo.
  - Sim, ele é bem assim. Não fala muito, então não chega a ser tão arrogante, mas fica irritado com qualquer coisa. E as outras, onde estão?
   Todas estavam lá no fundo. Haccu movia os braços devagar, se mantendo boiando ao lado de sua traineira. Ela olhava os dois conversando com sua gravidade feita de madeira e ferro. As mulheres não estavam aqui, Misudinie as levara para um passeio no fundo do mar. A água era escura aqui em cima, mas lá embaixo seria verde, luminosa como uma alga fosforescente. Andariam as mulheres com passos lentos pelo fundo da água. Imaginavam os dois essas jornadas incríveis, noite adentro, mar adentro, enquanto boiavam aqui em cima no oceano quieto. 
   A traineira bufou e suas entranhas de ferro soltaram um suspiro consternado.
   Falkwer apareceu na amurada de seu barco luminoso. Era mesmo um barco que lembrava seu dono: o exterior era festivo, e as luzes pareciam indicar que haveria alguma festa ali dentro, com foliões mascarados, divertimentos, comidas e cores. Mas nada disso era verdadeiro. A jornada de Falkwer era diferente: ele queria ser herói, queria se mostrar herói. Isso tudo parecia muito chamativo no exterior, como fogos-de-artifício, mas a jornada que ele acabava por realizar era amarga, interior, quebrada em si mesmo. O mundo era afastado dele. Falkwer, em seu rosto podia se ver isso, navegava para chegar mais longe do mundo, para afastar tudo e encontrar a si mesmo herói. Não sabia que ele era parte do mundo, que ele estava dentro desse mundo que abandonava.
   Este homem olhava agora, sonhador, a seu modo taciturno, por cima da amurada. O navio vazio era grande e pequeno ao mesmo tempo. Tinha um tamanho enorme, tudo cabia nele, mas olhado assim, de fora, do mar escuro, era como um brinquedo de barco, um modelo, um gigante manejável, como as coisas que vemos em sonhos.
   As luzinhas piscavam sobre os mastros. Era um navio a vapor, seus dois mastros eram de enfeite, - eram a saudades - dois paus retos e finos, espichando contra o céu. Falkwer bocejou, a noite estava tão tranqüila. 
  - Vamos voltar - ele disse para Foxy. O garoto suspirou da água. Estava tão bom nadar. Foxy começou a voltar ao navio:
 - Me avise quando elas voltarem.
 Lá no fundo as mulheres empreendiam uma viagem subaquática. Os homens esperavam um pouco. Falkwer acendeu um cigarro, sabia que Foxy iria demorar a subir. E, de fato, o menino deu umas braçadas ao redor dos barcos. A traineira, o barco das mulheres, ancorado contente - em contentamento sisudo - e o navio colorido, que vem e que vai, luminoso no oceano, mas triste. O navio de Falkwer, que trouxe Foxy. O garoto deu a volta nessas duas embarcações, achou-as amigáveis. Do fundo não tinha medo, era escuro mas por debaixo desse negror havia uma luz verde e seres-peixes escondidos com sabedorias, e mulheres guiadas por Misudinie que viam o mar por dentro. Lá embaixo haviam coisas, mas eram coisas debaixo. Subiu a escada para dentro do navio. Molhava o casco, pingava de água escura. Falkwer assentiu e recolheu a escada, partiam. Coisas da superfície, isso sim o preocupava: coisas da superfície parada e espelhada onde a noite era escura. Haccu permaneceu ainda um tempo na água aquecida antes de subir de volta na traineira e deitar na rede, para dormir.

quarta-feira, março 02, 2011

The Carribbíad

ou: um fim.
(como último post desse blog,
um poema incompleto)


The Beginning & The Hanging

Sing me, O muse, of the wretched far and wide!
Of the buccaneers, the scurvy-dogs and the devil's men & pride
Those men of Sea, with bone in flag,
That go where other men won't dare
To set a sail, or cast a net
Horrid tales yet untold. The brimming sea do behold!
O, lavish muse!

Up in the gallows the wind now blows
The King Of Them All, ready to go.
A thousand people, maybe more
Watched the show with a horrid roar.

The mariners trembled, excited at last
The King Of Them All, captured and cast!
Everyone wept, everyone rejoiced.
Up in the gallows they heard the voice:

"My eyes you've plucked in darkest prisons
So I couldn´t tell of the feral treasons
That I saw in years of sailing 'round
Through seas of stories and lands unfound...
You've plucked my eyes, that saw so much,
So I wouldn't talk of politics and such
But the mystery of Aurora, the green-misted jungle
The seven isles of pleasure, the emerald bundle
This is unecessary to be seen
Only with the eyes of dream
You could not pluck or tear or end
Like the ones that, with this body, you bend:
These are not the ones to be condemned for!
Not the ones for fowl to feed upon;
May these be cartographic globes
To lead you away from the monstruous fume.
I saw the dark, the giant mouth:
It knows my name. By these I die.
Not the needful strap of conspiracy
or revolution, but the transparency
of water drops. The last sight I wish it to be!
The blue horizon, the sea, the sea, the sea"

The rope went straight, the ground him left.
The King of Plunder, the King of Theft
Now danced aloft the Jig of Death.
The crows alone, with mirth, dared laugh.

After that, they heard no sound
In just a moment all was bound.
The King Of Them All, hung in the gallows!
And his treasure of awe, hid in the shallows...



John Briggs

While sweeping the deck,
Comes the friendly sailor Jack.
Just to talk to our John
Just to ask him where he's from.

But John had no tale to tell.
For him the ship was bound to Hell
A Hellish crew, a Devilish Captain.
He had nothing to state for them.

But the good soul insisted some more
"Come on boy, tell us of yore.
Of your mother, of your sister
Tell us something, kind mister".

"My story, so?" He said. "My story?
I want no power, no dream of glory!
I am not on this boat for destiny
Of seeking treasure, but for a mutiny!"

The sailor looked 'round, no one heard
thank-you-Heavens the accursed word!
"How can you shout it, here out loud?"
But John couldn't care to whose ears 'twas bound.

-------//------

The darkness bore many a- fears.
He dreamt of knives and sharping spears.
Of bloody flows, of fights, of rows.
He woke up to his own sweat stench.

'Tis morning? he called; the answer
"Shut up!". O sailor, could not
by Heavens think of something nicer
to say? Be kind to the boy?

Who told him to run? Escape
to a boat in high sea? Dream
of childhood days, I state.
Couldn't survive aboard. So grim
would become his soul, a waste.
In the shores he left them, happy days.
As her, the bonny ship, he says,
- more of a coffin to be in the truth -
Carried him away from the land of youth.

-----//-----

When demuring plump-work's done
John chances to see the setting sun
Awake he is, conscious then
Before him, a blissful land.

Damp Souls

So, under the cable forest
- Twisted ropes that in'twine -
Lay souls who had no rest
Their bodies broken by these lines

Their canopy of bonds
Helps the pain to be remembered
The sullen marks are strong
Cut their hands right in the center

Silent days by silent rain
Tomorrow, the same will be
And yesterday is here again.

There's no way to be dry
All day long there's the rain
No other ship passes by
And hope is simply vain

Old sailors, you can see them
Broken bodies, drowsy minds
It was no storm that did them
But a sequence of long nights

Leaping years by the foam.
By day, the thrushing wood
By night, the night unknown.


The Storm

Do you think you know the storm?
The rage, the hate, the fathom
It is the Abyss opening
No more words, no more words...

It swayed and swayed for hours
they saw inside the ocean's bowels.
Never stoping, always moving.
The restless surge only growling.

And when it went, it was all still
In darkest morning, became as hills
What once were mountains in the sea.
The storm is gone, now what will be?

The raft then came towards a shore
A beach, some trees, nothing more
It was desolate, but it would suffice
For just one night he would have some peace.

------//------

Broken bones, lurking foams
A ship was stranded in the shore.
The water sprayed around the wood
And Captain Wrath strode down the path...


The Seven Deadly Kings

Wrath

He is back! He is back.
(He is back...)
He is clutching me by the hair.
He is sprawling me on the sand.
He is saying to me:
"Now, Johnny Briggs, I am glad
you survived a storm and stayed at hand.
For I shall need you in an important task".
He told me this and then he asked:
"Would you help me? Can you do it?"
I said "What do you mean?"
"Why! Take revenge on that clumsy fiend!
The men who marooned us and crashed the boat
That still dares through these oceans float.
But we are coming, yes we are!
And you shall swear it by your scar!
That you will help me get revenge."

----//----

None could stop a pirate so fierce!
his demon-laughter, his sword that pierced
Across the blood, that he spilled like grog,
he massacrated the foolish rogue.

Gluttony

The King of Gluttony, like a pig,
His great round belly was so big.
Searching for food he sailed his boat,
Something to fill his nasty throat.

Fruits and meat and sauce are good
Beer and grog and fish so crude.
Deers and ducks and fillings fine
Dogs and beans and nice red wine!

------//-----

Cold politeness,
Courtly madness.
His face was just a façade.
All could see
that it was for me
The last day to walk this Earth
(or ship).
Took a sip
Ate the food with no hope
Of getting away
Or seeing the day
That would dawn after Mog had me killed.

The moon settled over the sea.
And nested over a barren landscape.
Barren because it had no tree
But excelled in hills that were waves.

The deathly banquet was finishing
Inside the brown skeleton's belly.
In the cave a lone candle was shining.
The only light in the darkness of Hell.

"Are you done, little dumpling, are you finished?"
His smile was half hidden by gloom.
"What about dessert? What do you covet?"
And me, all I said was Black Pudding.

With food in my mouth, even with death
I could only think "This is good!"
So I asked for dessert. Though my heart had no mirth
My belly was as happy as it could!

Gluttony held a knife.
I sightly raiséd my fork.
The other pirates took their backs from the wall.
They were scared, them all!
And I was just a boy!
Gluttony looked at his toy.
Cutting a pie
Cutting a fruit
Cutting my flesh, for God's sake!
What was this madman thinking?!


Greed

Pieces of gold, pieces of eight!
fairest diamonds, rubies and jade!
The King of Greed could not be still
If his deep pockets he could not fill.

A dangerous man, from the far-off north
Were the land was covered in eternal frost
His fair hair and smile could any men glit.
But his furry coat was not only to heat...

Stolen treasures his hands had met
Found their way to his pocket's depth.
Gleaming eyes that watched their prey
And a nasty hand that all carried away.

Sloth

"And curse the names
of Heaven and Kingdom!
For which we enslave our days
Let us live in Freedom!"

So shouted White-Beard,
who was our father.
So shouted the man
that went no further.

We watched him fall
With fear and awe.
Giant mountain,
So died our Captain.

Pride

We entered the chambers of the King
All of sudden we were underwater.
Such was the presence of that thing
That thing I can only call presence.

And on his throne
of gold and bone
(sculpted with anger
strikes and fury
on the bones of the men
who hunted them
and had imprisioned them
in the land of Darien)
was a King of muscles
rigid and firm
Spitting his presence
To all who stepped in
The chambers of such King,
The King of Darien!





Então esse foi o último post do meu blog. Isso é uma idéia que eu tive de escrever um poema épico sobre piratas, que seria chamado de A Caribíada (porque Caribe). Mais tarde resolvi mudar o nome para "The Seven Deadly Kings", por causa dos sete personagens principais, que seriam os sete reis piratas, encarnando cada um um dos pecados capitais. Além deles haveria John Briggs, um marujo que se vê metido no meio da história, sem sequer querer estar lá e que é o verdadeiro protagonista. Escrevi isso já faz mais de um ano, mas só resolvi postar agora as partes que eu achei que ficaram melhores, ou as que me divertiram mais quando eu as escrevi. (Sim, dá para ver o quão mal eu escrevo se essas são as melhores partes!)
Como o blog encerra por aqui, deixo a Caribíada de despedida.
Por que encerrar? Porque eu cansei um pouco, e porque não preciso mais escrever aqui. Andei vendo tudo o que já guardei Aqui Em Hinée e as lembranças são boas - valeu a pena, tudo, mas sinto que não quero mais continuar.


À musa deste lugar, que me fez escrever tanto aqui: muito obrigado
Sing me, O lavish muse, of the foolish lingerer
That could not dare his fate to bear
Solemn animal of subdued state
With ready-clothes, O, he used to wait!

domingo, fevereiro 06, 2011

The Witches of Uppsala

Deep in a winter's day
A day for meetings made
By gods forgotten,
By witches begotten
Bred out of dark dismay.

In the shortest day of the year
The valley is shrouded in fear
There by the lake
They congregate.
Hail!, for mischief is near!

From all o'er the country they come
They pass the big gate one by one
With crooked black hats
And sinister cats
The witches! And harm will be done.

domingo, janeiro 23, 2011

Like Oceans Beyond Mountains

She approached him with tact, a question droping out of her tongue.
- Is there any mountain from which you can see the sea?
- Yes. From the western slopes, covered in forests, the sea is visible and big. But I almost never go there, the sight makes me feel something quite overwhelming; I can barely hold inside a mighty feeling I don't understand. I'm sorry, I'm not making any sense, am I?
- I understood you. What you say is very true. The sight of the sea from the mountains hurts me too, and I don't know why. And still I wish to see it, to feel this pain and try to understand it. Is it the fear that the sea is unattainable? Is it the mighty wave of distance, crashing upon you?
- Or perhaps it is the fear of being confortable in the mountains, and resigning to see the adventurous sea from a distance. The pain of living a life so far away from that sea.
- But mountains hold perils too.
- Then is it the quitting of an adventure in exchange for another?
- Is it the realisation of the darkness there is in the world? Of a giant thing that you have nothing to do with? The distance, the distance, between men and the world, between life and nature, between every two things! Ah, why does it all have to be so distant?
- But it is good that it is like this, isn't it?
She looked at him, as saying is it so?
- If it is all distant, you can run far away - he said.
- That is the sea from the mountains: the notion of another possible life you could live. How frightening: a life that you could have, so unconected with this one! The possibility of reincarnation without death!
- The wanting of it produces such fear, and overwhelming feeling...
- Like oceans beyond mountains.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Herman Melville

"The sun hides not the ocean, which is the dark side of this earth, and which is two thirds of this earth. So, therefore, that mortal man who hath more of joy than sorrow in him, that mortal man cannot be true - nor true, or undeveloped."

em: Moby Dick

quinta-feira, janeiro 20, 2011

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Motherland

"motherland, cradle me
Close my eyes, lullaby me to sleep
Keep me safe, lie with me
Stay beside me, don't go"


Onde fica a minha casa? Onde eu vou morar?

sexta-feira, dezembro 31, 2010

Da Amizade

Vou dizer algo que todos falarão que já sabiam. E dirão que não há motivo para eu ter ficado tão surpreso. Paciência, cada um descobre coisas em momentos diferentes.

Minha avó foi quem disse, e embora eu não concorde totalmente com ela - sabe quando você não sabe se concorda ou não? Quando não se se importa em escolher um lado, mas só em colecionar histórias diferentes? - eu achei a frase estranha e curiosa. E ela me fez pensar as coisas de um modo diferente: ela disse que o amor é inferior à amizade.
Podem dizer que já pensaram nisso, mas é curioso para mim, porque é o oposto do que prega o nosso mundo. Sempre se diz que o amor entre um casal é tudo, que é o tipo supremo desse sentimento. E quem defende a amizade sempre diz que esta é "uma forma de amor" (ou seja, para lhe dar valor, comparam-na ao amor entre um casal). Enfim, estamos acostumados a aceitar que a amizade é inferior ao amor.
(Essa é a sociedade que atribui a amizade do Frodo com o Sam, por exemplo, a um caso romântico secreto.)
E por que, né?

Esse semestre tive que ler um escritor árabe que compôs um poema a um amigo, e dizia que o nome de seu amigo estava gravado em suas entranhas (John Donne, alguém?). Que coisa mais bonita! Então percebi que... eu sempre me senti um pouco assim! Me parece inevitável que meus amigos, tão grandes, tão magníficos, tivesse, de algum modo, moldado algo dentro de mim, deixado uma marca lá dentro, forjado um eu no meu próprio corpo! E como eu pude achar isso menor do que o amor romântico?
De um modo geral, eu acho, a literatura medieval sempre se entendeu melhor com a amizade do que com o amor. Ora, a távola redonda, por exemplo! As mulheres nem importavam tanto, eram só a desculpa para a aventura acontecer. Mas que grande grupo de amigos eles eram!
Ah sim, e mangás japoneses, já repararam como a amizade é retratada mais do que o amor? (ok, depende do tipo de mangá). Também não havia notado isso...

* * *

Por fim, o que minha avó disse foi: "a amizade é maior do que o amor. Tive uma amiga que foi minha alma gêmea. [antes, ela havia negado que houvessem almas gêmeas no amor]. É porque, enquanto no amor somos dois dividindo uma vida, na amizade somos um só, uma coisa inteira. E amigos nunca se separam, ao menos nunca por briga e desentendimento. É a vida que separa os amigos, mas quando eles se encontram... a amizade é igual a antes, como se não houvesse passado nenhum segundo desde a separação."

segunda-feira, dezembro 13, 2010

To Injure a Beloved One

The fangs are still there, the fangs are still there.
When he looks at you he will see them
Ugly power will be bestowed.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Tying Knots

Pay attention to the knot.
This is the story that you must tell.
First the rope comes, and the story comes, then it makes a curve. Here it comes together with this other one - but attention! The other one must come from above. So the characters of the first story shall not see it coming, but rather, be surprised by the arrival of these new things, which becomes part of their lines as the knot unifyies them both. Now this one story with the beginning knot has met another rope. Here, the two interwoven knots are still loose. Which is the part of the story that will get them firm and tied in deffinetly? This shall be the end, represented by this third rope, coming from undeneath them. It passes over the second story and then under the first one. It comes as a surprise to the adverse conditions our characters found, but it is intrinsic to the personality of them: as it was said, it comes over the second rope and under the first one. It is what will unite both knots. A third knot will hold them together. See, now they are firm.
So, when you tell this story, please remember. Lead your fingers through the ropes as your mouth utters the prayers. Words fall down on this as beads upon a necklace, your voice speaks as your fingers go down the thread. And then, when you hit up a knot, pay attention. Remember the changes that come through the story, remember where is it that the rope will connect to: always follow the path that the knots give you, and remember with your hands the way they are tied together.
Like this, you will never forget.
The words will come from your mouth without you thinking.
The story will be brought through the knots, and brought through you. The sound is out there.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Feira do Livro - resultados de uma caçada

Blog é egotrip, todos sabemos disso. Se quero libertar a minha parte mais individual e forçá-la a um público, este é o lugar ideal. E o melhor: os leitores não precisam nem mesmo ler. É do ato de publcação mesmo que se tira satisfação.
Dito isso, me perdoem pelo tema deste post: gostaria de falar sobre os livros que comprei na Feira do Livro deste ano.
Estou afim de me vangloriar. Se é correta a tese de que as pinturas rupestres são um registro da caça bem sucedida, não estou sozinho.


Antropologia Estrutural - Claude Lévi-Strauss
Cultura com Aspas - Manuela Carneiro da Cunha
A Sociedade Contra o Estado - Pierre Clastres
A Inconstância da Alma Selvagem - Eduardo Viveiros de Castro

pelo visto, antropologia foi um dos grandes temas desse ano para mim. Decidi aprender mais sobre o assunto.

O Outono da Idade Média - Johann Huizinga

sem comentários, esse "monstrinho" foi a compra principal de muita gente esse ano.

Manual de Versificação Romântica Medieval - Segismundo Spina
3 peças de Gil Vicente
Orlando Furioso - Ariosto
A Arte do Zajal - Michel Sleiman
A Divina Comédia - Dante A.

hum, que coisa. Surgiu nesta feira um interesse por literatura medieval em mim... Acabei comprando por curiosidade mesmo (e porque um deles é meu professor), exceto Orlando e a Comédio, nos quais já estava de olho a muito tempo...

Jesuítas e Selvagens - Adone A.
O Apetite da Antropologia - Adone A.
História das religiões - (pesquisadores italianos)

estes já seguem uma linha do tipo "se o Adone escreveu e o Adone organizou, eu leio".

História da Província de Santa Cruz - Gandavo

estou aumentando a minha coleção de documentos do início da história do Brasil. Ela é divertida! Andei lendo sobre quatis que comem crianças...

La Colonización de lo Imaginario - Serge Gruzinski

parece errado não ler este... estava barato era interessante, eu comprei.


Resultado: 15 livros, mãos doloridas, costas idem.
Encontros fortuitos: Ana P., Aline e Camila T.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Fragmentos de uma Teologia Absurda I - O Deus das Coisas Despropositais

"Eu sou o deus dos instintos. Se tudo, para acontecer, necessita de uma intenção, sou eu quem deseja as coisas que nos outros não são intencionais.
O homem que decide se levantar e se levanta é o agente e executor de sua própria ação; do mesmo modo a flecha lançada pelo arqueiro obedece à intenção deste. Como tudo no universo é proposital, há que existir um deus para intentar todas as vezes que se espirra, se leva a mão à barba para cofiá-la enquanto se pensa em outra coisa e se age irracionalmente. Mestre dos animais eu sou, por estes fazerem coisas sem Razão e alguém há de ser o agente de seus atos, mas em muito controlo os homens.
Existo porque Razão deve haver."

terça-feira, outubro 12, 2010

quinta-feira, outubro 07, 2010

Bobagem

Uma das coisas mais engraçadas que eu já vi na vida.

segunda-feira, setembro 27, 2010

The Dragon Takes A Prisioner

O lovely maid, in topmost tower
How do you spend your days?
Do you dream of men with bow and sword
and shield and armour bright?
Do you wait for them to rescue you
Like he who walks this road?
He comes to you in broad daylight with
strength and fury, fire
Like that that drpos from eyes of warriors.
"O where is the dragon?
O where shall I slay
his dreadful corpse?"
"Come here, come near, he is
In topmost tower as stories preach"

quarta-feira, setembro 22, 2010

Pity

Pity the one, the unvisited one
Who wrapped herself of praises
While in fact deserved none.
And now her counscience grazes
Such abhorrent dreadful fact.
Unrequested, alone
Shame befalls her, whom praises lack.
And though she did to deserve it
Pity her, for human she was.

quinta-feira, setembro 09, 2010

Majnoun speaks of Leila

"Had the old prophets been in this palace when a lucky wind by chance the concealment of the veil from her disposed... Had they but seen her, religions would be different."

domingo, agosto 29, 2010

O Que É Mais Importante?

Não sei se ninguém encara com o mesmo desespero as tarefas minhas dos dias. As pessoas se preocupam com prova e trabalho. Eu também. Não vou dizer que não, embora consiga imaginar perfeitamente que viver tendo falhado nisso é perfeitamente possível. E vou chamar o que sinto de desespero também. Embora não possa ser comparado com o outro tipo, que é mais fundo, que eu não sei de onde vem, que surge das tarefas que eu mesmo me dou.
Por exemplo, a força com que eu desejo terminar uma história. A longa atribuição de sentido que eu colei à ela, durante toda minha vida. Por que isso é tão importante? Se eu for lá fora, e sorrir, minha vida vai mudar? Talvez eu me sinta pior naqueles momentos de desespero, de inutilidade, se souber que fiz algo importante. Mas esse algo importante é só para mim. É como aprender... sei lá, aprender a falar anglo-saxão, que eu tentei um dia e foi com um desespero que eu imaginei a tarefa, como se todo o meu futuro dependesse disso e, oh deus! De onde veio isso? Por que falar uma língua, por que escrever uma história, por que cantar certa música, por que terminar uma idéia, por que isso parece tão mais importante do que o resto?
Será que é porque o desespero é maior, como se tudo o que eu fosse estivesse atrelado a isso? Eu tenho que parar de depender de coisas assim! Mas se não fizer...
Não sei.
Não sei desde quando certas coisas são mais importantes que um pássaro cantando.
Mas as vezes fico feliz que sejam.

domingo, agosto 08, 2010

Inveja

Vocês já se apaixonaram por um quadro?

Já sentiram inveja de uma foto de jornal? Ele tem algo que eu não tenho. Ele tem algo que eu quero, algo que estive buscando sem saber, por tanto tempo.
Como o ódio é parecido com o amor!

Me lembrei hoje de algo que eu sempre quis: sempre quis, mas a gente aprende a viver com esse desejo, como se fosse mesmo impossível fazer algo a respeito e como se uma ação - imediata e tensa do modo que é - não tivesse nada a ver com esse desejo. Um desejo que arrastamos pela vida, aprendendo mais a conviver com ele do que a realizá-lo. Enfim, lembrei-me dele. E por fios invisíveis que unem assuntos, ele se conectou com outra coisa na qual andava pensando... Pensava em São Paulo para você. Em o que São Paulo significou e é para a sua vida, a liberdade, o mundo, a chance que essa cidade representa.
Eu sei onde quero ir para ser eu.

Vocês também vivem em mundos?

Vocês também vivem em mundos?
Hoje descobri algo surpreendente. Não sei o que era, não tenho nome para aquele momento em que o tempo parou, a gente congregou, e a nossa mente parecia funcionar diferente. Era como se, pelas palavras, pela família, eu tinha passado a ser outro. Eu não era quem eu sempre era, eu esqueci esse, e vivi como dentro de um sonho, sem nem pensar que podia acordar, meus pensamentos funcionando diferentemente, aparecendo de outro modo.
Jantar em casa de família. Até minha avó era diferente. Por um dia esqueci de tudo, e era eu sem saber.

Aí voltei para casa, e me invadiram os desenhos de Kells. Mas sem as cores, ou melhor, com as cores frias da paisagem. Folhas, árvores, verde e neblina. E a neblina hoje? Vocês viram? Tudo parecia movediço. Nem mesmo meu eu que sente as coisas da natureza acordou hoje, como se se meu sonho fosse bom.
Mas aí acabou, de súbito, quando voltei para casa. E vieram os desenhos de Kells, os povos esquecidos, Columba e sua Ilha. E então me lembrei da faculdade e voltei a ser aquele que estuda e anda pela USP.
Entendem o que quero dizer? Hoje, saindo com meu pai, com minha (nova) família (sim, temos novos integrantes, interessantíssimos) eu vivi diferente.

Questionei meus planos, de novo e de novo. Bendita seja a memória! Esqueci os sentimentos, esqueci o que sentia, esqueci o lado bom mas não esqueci a parte de mim que diz: sim, você deve fazer isto. Se eu crio planos e o tempo apaga a animação inicial, devo ainda seguí-los? E se forem planos muito bons, que na época lhe eram claramente importantíssimos? Eu sinto que devo honrar minha decisão, e que por mais que não entenda agora a importância desta, eu soube um dia. Eu sou eus. Eu confio no eu que eu fui, como alguém que posso ver e que é à parte de mim. Ele diz vá, eu salto para o abismo!
Esqueci o que era tão importante naquilo que buscava. Esqueci a razão da busca. Esquecemos muito, mas sinto com toda a força que devemos ser fiéis a nós mesmos.
Não esqueci as palavras.
"A pior sensação"
"Aquilo que devo fazer".
Passada a memória, da dor e do medo, restam as palavras. Acredito nelas. Acredito no outro que eu fui.

sexta-feira, agosto 06, 2010

Mellock, on dreams

"There is no reason in those who think less of dreams. As there is no reason in those that put higher praise on waking life. There isn't much difference between both of them. They are two worlds, that we are blessed enough to see, and visit. Both have knowledge and meanings. If wandering through reality is to learn, then to dream is to know too."

sábado, julho 31, 2010

So useless to learn the names of plants

So useless to learn the names of plants! From tongue to tongue they change, gaining new faces, uses and affections with each transformation. To be a plant where one is loved! A dame waited upon, lone on the hill but with a broad company: the view, to be part of the view. To be given a use from men, and a name. To be given affection by each tongue that calls you. And the more secret the name is, more vivid and bright the gifts you share.

sexta-feira, julho 23, 2010

Coisas III

"If you want to destroy something, surround it by a circle."
Elif Shafak

Sweet Becky At The Loom

Eu tinha um teatrinho quando criança e obrigava todos os meus parentes a assistirem pequenas peças. Eu comecei aí.

terça-feira, junho 29, 2010

Tabaqui

He comes transversal, the son of lie
A dip in the puddle, some blood in his thigh
So is the jackal preparing to die.

In the desert's morning, he comes hither.
No river to quench: the thirst is hidden
Bravely and foolishly. He turns inward:

Remember that night, fresh and starry?
The steps come near the injuréd quarry
In memory the jackal the gunner is staring.

#microcontos

The puddle's dream: to repeat those impossible stars.


Inspiração: @Borges

sexta-feira, junho 25, 2010

Junções II

A história da Cadeira de Prata é a história do Rei Pescador, não é?

quarta-feira, junho 09, 2010

O Rei Paciente

Arathorn aprendeu um dia que seria rei. Entre as ervas queimando e a fumaça que produziam ele ouviu da boca do velho a profecia:
"Das trevas a luz há de vir...
... E o sem coroa há de reinar."
Agora que tudo terminou, é fácil contar uma história e dizer o que houve. Mas para Arathorn, naqueles dias, longos e cinzentos, o futuro era incerto e nunca se demonstrava com a precisão que ele queria.
Ele acordava muito cedo, muitas vezes nem dormia. Prestava uma atenção febria ao que seu pai lhe ensinava. Queria aprender o nome de todas as plantas, queria saber assoviar como todos os pássaros. Preciso aprender isso, pensava, para caso um dia venha a precisar. Aprendeu a calcular o calendário, e com isso aprendeu o tamanho de sua espera. Em dias que se intercalavam e formavam semanas. E semanas que, incompletas, formavam meses. E os meses, sempre doze, faziam anos. Arathorn andava atrás do pai e ouvia com máxima atenção os nomes. Às vezes, quando andava sozinho pelas florestas do norte, a cada passo que dava se punha o desafio de dizer um nome; e seu caminhar se tornou enciclopédico, enumerador, apontador do que via ao redor. Em pouco tempo conhecia tudo debaixo do céu.
Seu pai lhe deu uma espada um dia, em um gesto que somento muito mais tarde entenderia. Os filhos só compreendem os pais quando é tarde demais. A espada, quebrada, e ele suspeitou que algo no pai também. Este deu à Arathorn o resto da profecia, que às vezes recitava para si mesmo, quando a noite era escura, ou quando não parecia pensar em nada.
"Das trevas a luz há de vir...
...E o sem coroa há de reinar".
Essas duas linhas provocavam toda sorte de sentimentos em Arathorn. Às vezes era alegria, de uma espécia eufórica e confiante, sentida principalmente na época em que seu pai parou de levá-lo aos lugares, ele passou a explorar as terras ermas sozinho. Às vezes elas lhe davam melancolia, e ele pensava que havia ouvido baladas élifcas demais; comparava as grandes histórias de amor com sua vida, e sentia desespero.
Nada pareceu no lugar, por muito tempo.
Entre as ervas e os animais, dos quais conhecia todos os nomes, Arathorn esperou pela revelação, pelo dia em que pegaria a espada quebrada (e o lugar onde a escondera estava sempre voltando à sua memória; mais vezes a tinha visitado em sonho do que acordado), pelo dia em que teria que assumir um outro nome, um nome antigo, um nome ansiado, um nome que ele desejava dar às pessoas. Os vagabundos e viajantes daquela terra lhe inspiravam grande compaixão. Sentia sempre compaixão pelos homens, como se este fosse seu instinto natural. Não demorou muito para se apaixonar, e escolheu a mais bela mulher que encontrou, a que parecia mais digna de um grande destino. Ela, por sua vez, se encantou com algo indefinível em seu modo de andar. Ela nunca compreendeu o que era, ou porque aquilo beirava tanto o orgulho.
Seu filho nasceu. Deu a ele o nome de Aragorn. E pela primeira vez pensou, com uma certa estranheza, como se seu pensamente fosse incompleto, o que aconteceria com o bebê depois das grandes mudanças. Nunca pensou que não veria as grandes mudanças.
Agora é muito fácil dizer que ele esperou em vão. Mas em sua vida, Arathorn foi bravo e valente. Serviu aos homens e aos animais. Triste foi o dia em que percebeu que teria que passar a espada a seu filho. Pela primeira vez pensou que poderia não ser ele, como não havia sido seu pai, e que tudo o que poderia fazer era rezar que seu filho o fosse.
Se afastou dele enquanto ele crescia. Tinha lhe ensinado tudo o que sabia, todos os nomes, que perfuravam dentro de si como agulhas: todos nomes que não usaria nunca. Queria usá-los, queria levar as coisas aos seus lugares. Um certo conforto encontrou ao pensar em seu filho; ele seria o destino dos nomes, ele seria o fruto de uma vida de trabalho.
Arathorn passou seus últimos anos pensativo. Tentava entender o que lhe acontecera. Mais dias cinzentos se passaram, até que ele morreu em silêncio, sem palavras finais, sem despedidas, sem saber se cumprira ou não uma promessa. Sua esposa nunca ousou duvidar da existência de uma promessa. Mandou inscreverem em sua lápide:
"Das trevas a luz há de vir...
E em outra vida, os sem coroas hão de reinar..."

quinta-feira, junho 03, 2010

Encontro

Minha avó me deu alguns livros antigos que eram do meu avô. Dentro de um deles encontrei um papel, com um poema. Estava servindo de marcador para a página que falava de Samuel Taylor Coleridge (escritor de Kubla Khan). Pelo aspecto de interminado, e pela letra, parece um poema feito pelo meu avô.
(Ainda bem que uma semana antes eu tive aula de paleografia; ainda tenho dúvidas quanto a algumas palavras, e me pergunto se em algum lugar ele terminou os versos).
A escolha dos temas é surpreendente.
Vamos ver como ele se saiu:

"Under the wide and starry sky
Strike a name, with ashes lie
Glad did I live and sadly die
here he is where he longed to be
Home is the dreamer, home from the sea
[And the hunter home from the kill"

quarta-feira, junho 02, 2010

Junções

Li um livro de Laura J. Hosossian, pesquisadora chilena da área de Letras. Nele, ela analisa os diários escritos pelos soldados que participaram da Guerra do Pacífico, (entre Chile, Bolívia e Peru) e tenta entender como a experiência da guerra e a noção de nação (que ainda nascia naquele momento) vão se desenvolvendo e tomando forma, a partir das experiências que os soldados viviam.
O que me chamou a atenção foi esse parágrafo, da introdução:

"No capítulo (...) a análise recai sobre um pequeno conto, cuja leitura leva a uma constatação importante: a batalha, o acontecimento em que a violência aparece formulada em todo seu apogeu, é enfrentada diretamente só pela ficção ou pelos livros de História, enquanto que os relatos de testemunho em primeira pessoa evitam-na e a contornam por caminhos oblíquos. A dor diante da ferida e da morte parece não ter cabido no discurso 'em carne viva', somente o distanciamento temporal permite sua elaboração que, na grande maioria das vezes, a incorpora no discurso eufórico do nacionalismo."

que me lembrou muito de uma passagem do último livro das Desventuras em Série. Como disse Lemony Snicket, descrevendo uma tempestade:

" É inútil para mim descrever como Violet, Klaus e Sunny se sentiram horrivelmente mal nas horas que se seguiram. A maioria das pessoas que sobreviveu a uma tempestade no mar fica tão abalada pela experiência que nunca mais quer falar sobre isso; portanto, se um escritor quiser descrever uma tempestade no mar, o único método de pesquisa possível é estar em um grande barco de madeira. Mas eu já estive em um grande barco de madeira com um caderno e uma caneta, pronto para fazer anotações caso uma tempestade me atingisse subitamente, e quando a tempestade passou eu estava tão abalado pela experiência que nunca mais quis falar sobre isso. Por essa razão é inútil para mim descrever a força dos ventos que rasgavam as velas como se fossem de papel e faziam o barco rodopiar como se fosse um patinador no gelo se exibindo..."


E do mesmo modo me lembrei da escritora escocesa que me disse:

"Contar uma história é sobreviver à ela."


Então, só podemos transformar em história aquilo que terminou. Talvez, poderíamos dizer, os que viveram a guerra e a tempestade não sobreviveram a esses acontecimentos, tão trágicos, tão intensos, e não puderam dar um sentido a isso. Ou seja, não puderam prender a experiência com palavras e colocar uma linha de sentido
O que me leva a pensar que a História não se trata de reviver o passado e suas histórias, mas pelo contrário, de enterrá-lo, terminá-lo, e prendê-lo a uma narrativa.
Poderia, claro, juntar outras coisas à essas idéias. Alguma sugestão?

Frases

Shakespeare: "Não é preciso ser honesto, basta parecer."

Maquiavel: "Não basta ser honesto, é preciso parecer."


A primeira vista, a frase de Maquiavel parece ser a mais óbvia. Relutei um pouco em deixá-la por último. Mas, pensando bem, girando ela um pouco na cabeça, ela acaba aparecendo como a menos óbvia, a menos compreensível, a mais trágica.

Trocadilho 1

Acabei de ver uma charge muito bem bolada sobre a Guerra do Paraguay. Conta sobre como um soldado chamado Chico Diabo (supostamente) matou o ditador Francisco Solano López em Cerro Corá (sim! pelo visto essa é a origem do nome da rua).
A figura era um soldado, com uma lança, perfurando o "ditador malvado". O genial era a legenda que o pintor bolou:

"O Cabo Chico Diabo do Diabo Chico Dando Cabo."



Ha!

sexta-feira, maio 28, 2010

Desperado Night I & II

I

He will not live, as once before
among men, which is to please:
He won't suffer any more.
Death doth holds and embrace.

He went to the moon, where
He recalled when we first met
Exchanged by dreams, and mad
My name a different name.

II

When my grandmother was loosing her house, she turned to me and said:
- Then this is it. None of my children will help me.
Behind her eyes, I could see: so this is to grow old? To be horrible to everybody? And how can I die? If it would help them, I would do this, but how can I?
And then she turned to me, and said, in a low voice, that sounded more like a scream:
- You are grown already. Go away! Leave this place, forever. Run!
I was scared, because she had read my heart and warned me about my family.

segunda-feira, maio 24, 2010

Teatro de Sombras na Escola da Cidade

Na virada cultural a minha irmã me levou para um evento que a faculdade dela ia realizar. Os estudantes tiveram uma idéia genial, de colocar papéis nas janelas e fazer um teatro com as sombras que eram formadas. Quem quisesse participava, mas a maioria preferiu assistir da rua. Aqui tem um vídeo:

quarta-feira, maio 19, 2010

Curiosidades

Alguém já tinha ouvido falar nas cartas pornográficas que James Joyce escreveu para sua esposa?
Cuidado.

Ah é, e um quadrinho sobre a nova moda de reescrever livros da Jane Austen.

Termina essa semana

domingo, maio 16, 2010

That which was hidden, or lost.

Charles wants to remember.

sábado, maio 08, 2010

Chanson

Achei um caminho.

Occupied and Numb

Where is my shadow, to
guide my hand? My
cartographic globe to be
my dream? Where are the
eyes, to find the key away?
Learn to see what I want
most. Where can I find
what is evidently mine?
From human bones
the sleep doth comes
in continual seasons of ice.

terça-feira, maio 04, 2010

Descobertas

Quando leio que "a rima chegou à Irlanda por volta do ano 500" e que "Tales foi um dos primeiros a escrever em prosa" e também que "Ésquilo introduziu o segundo ator no palco, criando assim o diálogo" não deixo de me perguntar: O que ainda não sabemos?

sexta-feira, abril 30, 2010

Sumo Teológico

"Aos detratores da doutrina Abanita - hereges que fogem da lei divina, como também das leis da terra - ouvirão de mim as razões mais profundas de minha convicção. Convicção esta que foi aceita pelo augustíssimo e illustríssimo Imperador, senhor de muitas terras e detentor de vida longa, cujos olhos agora estão, mais do que nunca, abertos à verdade.
Não desejo repetir os argumentos do santíssimo Bispo da Cappadócia, defensor implacável de nossa santa doutrina e conversor de muitas almas de olhos agora abertos. Desejo apenas expôr, um pouco mais demoradamente, alguns pontos da doutrina Abanista sobre o qual desejo que um pouco mais de luz seja despejada, garantindo assim a extinção definitiva de seus detratores. Homens assim, que não só negam a lei divina mas também desonram nosso agustíssimo illustríssimo Imperador, e não têm sabedoria ou paciência e erudição para se demorarem sobre o louvado Bispo da Cappadócia. Por isso, perdoem meu estilo vulgar, mas são estas almas que desejo converter. Em poucos pontos, espero demonstrar as razões para que seja um Abano:
I - Um Abano não é apenas um objeto de frescor e alívio - por si só qualidades divinas de serem possuídas - mas também controlador das posições hierárquicas: homens baixos abanam homens altos. Por respeitar as leis divinas impostas ao homem, o Abano é um objeto de excelência.
II - Portanto, um Abano não é, como querem os Arvoritas e Corditas, uma comparação simplória e de baixa estatura.
III - Em matérias de comparações simplórias devemos ressaltar a natureza maligna da serpente. É evidente que os Serpentitas adquiram tão poucos fiéis: algo que é como um Abano não pode ser como uma serpente, e isto está estabelecido.
IV - Os Corditas desejam se aproximar de nós, Abanitas, argumentando que uma corda poderia muito bem se parecer com um Abano, ainda mais se for larga o suficiente. Temos assim, o maior disparate teológico de todos. Assumo que os Corditas desejam essa aproximação por causa da recente conversão de nosso augustíssimo illustríssimo Imperador. E se trata de um caso curioso, pois: depois que foram quase extintos, nenhum Serpentita recebeu ajuda dos Corditas, sendo que uma serpente e uma corda poderiam muito bem ser comparadas. Trata-se então de um esforço teológico simplório dos fiéis Corditas para escaparem das perseguições. Todos os Abanitas, porém, seguem a linha do Bispo da Cappadócia e declaram que o tempo de arrependimentos é passado: todos os Corditas devem se converter, ou serão julgados como hereges. Entre nossas doutrinas não há aproximação possível, assim como não há entre a treva e a luz."
(...)
Bispo John Huss


"Agora que o Imperador - o terceiro de sua degenerada geração - em conluio com os heréticos Abanitas, deu seu ouvido ao pior e mais espúrio bispo desta doutrina, não há mais expectativas de nossa parte de que Sua Majestade recupere a virtude.
Não desejo, mais uma vez, expôros erros Abanitas, senão ressaltar alguns pontos que os heréticos do abano se recusam a enxergar. Tudo para melhor esclarecimento de meu povo, que tanto sofreu nas mãos do Império.
I - É inegável o dom dos sentidos. O homem que duvida daquilo que toca, como não apenas os Abanitas mas os Corditas e - mais surpreendentemente - os Serpentitas, é o mais tolo dos tolos, sem dúvida.
II - Ora, daí se conclui que, sendo corretos os sentidos, nos quais os hereges falsamente se dizem apoiar, um Muro é certamente o mais aprovado. A consistência, a dureza e a solidez são fatores inegáveis. Os próprios hereges Abanitas confirmaram a solidez no Concílio de Bitínia - como bem lembraram os Santos Padres. E se a solidez foi confirmada, não há motivo para que as duas outras qualidades - a consistência e a dureza - não sejam também aceitas por aqueles que desejam negar a verdade e a evidência táctil. São esses os mesmos que ganharam os ouvidos e a confiança de um Imperador cego!
III - Algo que é sólido como um Muro, duro como um Muro e consistente como um Muro é evidentemente um Muro! Donde vemos que não é apenas a Fé a apoiar nós Muritas, mas também a Lógica. Os verdadeiros hereges não são aqueles perseguidos pelo infame Imperador, mas aqueles que sob seu teto se abrigam!
Ora, agora desejo me deter um pouco mais longamente sobre as causas da devassidão sob o governo Abanita..."
(...)
Abade Tycho Brahe

"Antes de examinar a questão de por que os hereges pensam como pensam - e de novo realcemos o espírito imparcial que nos guia nesta investigação teológica - retomemos as principais teorias sobre a forma. Levaremos em conta o que cada uma tem de bom e de ruim. Em primeiro lugar, relacionando-as quanto à vivência:
I - Os únicos a considerarem a vida são, como se bem disse, os infames Serpentitas - que parecem conhecer pouco sobre Serpentes - e nós. Todas as outras doutrinas escolheram objetos, donde se chamarão em alguns círculos mais esclarecidos, de objetistas. Negados eles ficariam a princípio - pois, como pode algo vivo não se parecer com algo vivo? - se não tivéssemos o interesse da imparcialidade a nos guiar. Portante, retomadas as questões, temos:
II - A divisão formalista, que designa os Abanitas e Muritas como um grupo à parte, pois tratam de objetos cuja forma não têm qualquer semelhança entre si e entre os outros. Todas as outras doutrinas - e é de nosso interesse provar que a nossa também - convém ao menos quanto à forma geral: integram-se neste último grupo os Corditas, os Serpentitas e os Lançaritas. Ora, nada mais evidente que a semelhança entre uma corda, uma serpente e uma lança. Porém, nossas investigações determinam outra divisão:
III - A divisão entre as doutrinas clericais e não clericais. Fica evidente que a doutrina Serpentita - cova de iniqüidades - seja a única desprovida de um clérigo regulador. Portanto, a mais insensível à Teologia. Não há de ser nenhuma surpresa para nosso leitor que os Serpentistas estejam próximos da extinção. Pois mesmo que tenham louvado as qualidades da vida, não louvaram a vida correta e escolheram a Serpente, cujo símbolo é o mal.
Por fim, exporemos como, de acordo com nossa doutrina Arvorita, todas as outras teorias podem ser compreendidas. Mas em primeiro lugar, devemos mais uma vez ressaltar as qualidades da Árvore enquanto forma.
Como símbolo de cresimento e de nutrição, ela é claramente efetiva, como muitos dos que nos detratam a muito contra-gosto costumam confirmar. É evidente que a forma da Árvore há de ser a mais perfeita. A vida se parece com a vida, e o desenvolvimento deve ser a nova face da Teologia. Todos os Concílios concordam com os Arvoritas, e somos os únicos a não promover as perseguições aos hereges, algo que, se praticado, teria garantido a supremacia da visão! Porém, a doutrina da árvore é também a doutrina da compaixão.
No espírito da imparcialidade, é difícil não se ver como deve ser a doutrina Arvorita a mais perfeita, que realça todos os pontos que deve realçar e destoa dos pontos que deve destoar - nomeadamente a corrupção observada entre os Serpentitas. Portanto, não há doutrina melhor sobre a forma que se deve ter um elefante."
(...)
Bispo M. Huizinga

sábado, abril 24, 2010

The Darkness, the Sweetness, the Sadness, the Weakness

"Have I gone beyond the point of shame? Have I reached that point in life when youth will no longer be an excuse for my creation? How frightening to expose such chimearas, to hide them a death! What will the others think of my life's work? Will they compare it with the great or low magicians? Will they say that my lack of confidence has hindered me in a trade where blind confidence is all? Or will they condemn it as a boastful proud thing of youth? And worst of all, to be one of the boastful proud; will they think that of me? My promises, will they be fulfilled?
Foxy is the only one that I would dare show my magic to now. He will see the sentiments I have put in it. If he lacks interest, I end. His distance, food for such dreams. I can't reach him now, but so much I wanted to show him my magic and say: there, here it is. Devour me if that is my fate, but take for yourself what I've created. It is for the people of Arresom. But it is you that must look upon it and understand it. There is no measure in me that isn't you. Me, is what you know. Oh Foxy, end this distance! Lo myself, hark my spells! Don't live without me."

segunda-feira, abril 19, 2010

Juliet

"Now I give names. That is what I do, as the days go by in this forest. I live among herbs and flowers and plants; they are my family, my myths. I give them names as they give me perfume: each disdaining the other's gifts but loving them more so."

Haunting

Antes de lerem, eu recomendo verem junto a versão musical que Natalie Merchant fez desse poema. Absolutamente...


Nursery Rhyme of Innocence and Experience
Charles Causley (1917 – 2003)

I had a silver penny
And an apricot tree
And I said to the sailor
On the white quay

‘Sailor O sailor
Will you bring me
If I give you my penny
And my apricot tree

‘A fez from Algeria
An Arab drum to beat
A little gilt sword
And a parakeet?’

And he smiled and he kissed me
As strong as death
And I saw his red tongue
And I felt his sweet breath

‘You may keep your penny
And your apricot tree
And I’ll bring your presents
Back from sea.’

O the ship dipped down
On the rim of the sky
And I waited while three
Long summers went by

Then one steel morning
On the white quay
I saw a grey ship
Come in from sea

Slowly she came
Across the bay
For her flashing rigging
Was shot away

All round her wake
The seabirds cried
And flew in and out
Of the hole in her side

Slowly she came
In the path of the sun
And I heard the sound
Of a distant gun

And a stranger came running
Up to me
From the deck of the ship
And he said, said he

‘O are you the boy
Who would wait on the quay
With the silver penny
And the apricot tree?

‘I’ve a plum-coloured fez
And a drum for thee
And a sword and a parakeet
From over the sea.’

‘O where is the sailor
With bold red hair?
And what is that volley
On the bright air?

‘O where are the other
Girls and boys?
And why have you brought me
Children’s toys?’

sábado, abril 17, 2010

Acho estúpido isso de matar o amor

Who never followed his heart?
I never did
Because my heart
Never loved me.

quarta-feira, abril 14, 2010

Mizudinie's Song of Jonas

Os dois marinheiros grandões chegaram em Haccu e Fren quando não havia ninguém por perto e disseram:
- Vocês parecem pessoas sensatas, escutem o que temos para falar. Vocês conhecem a garota de cabelos pretos, não conhecem? E mesmo assim ela não te disse o que aconteceu no fundo do lago. Ela não conta para ninguém. Coisas estranhas estão acontecendo agora, coisas mais estranhas do que alguém passar dez minutos debaixo d'água e voltar com vida. Vocês são inteligentes, sabem que ela não é normal, que alguma coisa foi perturbada. Ela não fala com ninguém, muito menos com vocês. Escutem esse vento... Vocês sabem onde queremos chegar... Algo precisa ser feito.
Which side are you on, boys? Which side are you on?
E Haccu diz: Mas como vocês podem acusar ela? Algo estranho aconteceu enquanto navegávamos, e mesmo que isso me perturbe, que isso me assuste, vocês sabem que não podemos culpá-la assim. Que corações escuros são esses, rapazes! O navio negro que nos persegue não pode ser culpa dela. E vocês se viram contra a garota, sem ao menos entender o que está acontecendo. O que planejam? O que sabem sobre os nossos perseguidores? O que defendem, que inocente não é?
Which side are you on, boys? Which side are you on?
- As velas rasgaram, os pássaros pararam de nos seguir. Todos os marinheiros sabem: esse navio está azarado. Essa tempestade, esse navio que vai nos perseguindo e que nos alcança a cada milha navegada! Tudo o que um marinheiro quer é completar a sua viagem, e nós suspeitamos que essa terminará mal se não solucionarmos o problema. E quem trouxe isso à bordo? Quem é o diferente? Vocês suspeitam também da estranheza dela, do silêncio dela... Então,
Which side are you on, boys? Which side are you on?
- Como vocês podem acreditar nisso? Não é possível que o que ela - por mais silente que seja - tenha causado isso. E o navio que nos persegue, como ele sabe? Eu não acredito que todos nesse navio sejam mais inocentes do que ela. Ou estamos sendo perseguidos à toa? Seus espiões, como descobriram?
Which side are you on, boys? Which side are you on?
- Foi ela quem trouxe isso para a nossa viagem. Nós só queremos o céu aberto de novo, uma brisa até um porto, qualquer porto. Não faremos nada. Um barquinho, uma lanterna. É tudo o que ela precisa.
Which side are you on, boys? Which side are you on?
- Ela morrerá se a soltarem sozinha na água! Suas consciências não podem estar tranquilas com isso. Vão largá-la a uma sorte terrível ou vão se arrepender?
Which side are you on, boys? Which side are you on?
- Achávamos que eram pessoas sensatas. Já vi que não agirão. Mas esta noite, eu aviso, iremos agir. Vocês podem terminar a viagem em águas calmas se quiserem ficar em silêncio. Mas se falarem, estarão com ela no barquinho.
Which side are you on, boys? Which side are you on?

segunda-feira, abril 12, 2010

Song of a Winter's Fee

The peasants gathered in the Duke's house.
Armed men passed out the food,
they brought. And with the food,
some wine: all their rations.
One stood up and told the Duke:
"This is our food for winter! How can we
Survive the hail with such a fee?"
They asked him to lower the tribute, then he said
"I will help you this winter and, in goodness,
Help you on your winters to come.
Free of hunger! I'll release you. No more trouble
And no more winters." Sharp were the blades.
And the long swords sang - the men came as dogs.
The kingdom of Heaven opened its doors.
She goes to visit her aunt.
A western wind blows in the old archeologist's house. Oh, she is there. Courtains are hanged outside. Was she washing courtains?
Orange-feet shine on the horizon. She too has the power of the gods.
- I demand a race, she said.
And Hoshy Heogger, a little rusty since the last time she ran, could only accept the challenge.
Sand-runner she is called. And mighty power she does yield.

quarta-feira, abril 07, 2010

... 2

He thinks that he can see
A tree, the stars, his classes
The world was made just now
For the man who got new glasses.

:)

domingo, março 28, 2010

Primavera

Labwa - E quem lhe ensinou a sombra lhe ensinou a luz?
Karen - Eu me ensinei os dois. Sozinha aprendi todos os erros.

Mizudinie - Em que pensou, quando esteve sozinha? Como

(Imagine isso não como o que está, mas como tudo o que eu queria dizer, de feliz, de primaveril, de triste, de teatro, e que não existem ainda palavras para dizer. Imagine isso como uma mensagem antes de sair, como um já volto, como uma lição de como cantar - cantar aqui, como nos antigos musicais: cantar aqui é o jeito de falar tudo.)

sexta-feira, março 26, 2010

...

Everything is far
And made of blurry ashes.
The world is black as tar
For a man who lost his glasses.

:(

Fragmentos

Quando ontem à noite eu soquei uma parede, eu soube... Estava de volta.

Apesar dos dias ruins, quando eu estava cego, molhado e perdido, alguns amigos me receberam, me deram roupas secas e me contaram histórias. Valeu. Obrigado, mesmo.

segunda-feira, março 15, 2010

Orellana

À tarde um exército passou pela nossa aldeia. Os homens estavam em cima dos animais a que chamavam de caballos, brilhando em suas roupas de ferro sob o sol.
Sua presença prometia morte e uns tantos nos chutaram vasos e teares, quebrando-os por prazer. Era o exército pálido, do qual tínhamos ouvido falar tanto. Logo sumiram. Entraram na floresta atrás das montanhas, deixando-nos sob a sombra de um mêdo.
Cinco dias depois vieram homens e mulheres da floresta. Fugiam do exército. Nos contaram que queimaram muitas aldeias, que debandaram toda resistência, que eram tantos quanto as formigas vermelhas, e mais terríveis.
O último homem a chegar demorou para recuperar o fôlego. Estava mais assustado do que os outros e depois de descansar falou: eles capturaram homens e mulheres, levaram-nos como escravos para a vida toda. Arrastaram-os para as regiões hostis da floresta, para onde ninguém vai. O líder do exército, roupa preta, cavalo preto, torturou os homens que não conseguiu levar. Exigiu que o dissessem onde estava "eloro". Ninguém sabia o que buscavam, por isso foram mutilados: os que não souberam responder tiveram as línguas cortadas, os que imploraram as mãos. Algumas mulheres foram jogadas as cães. Então um deles, um homem magro, de olhos faiscantes e claros e bigode esguio, ordenou que parassem. Ele sabia que não haveriam respostas e mandou que seguissem em frente.
Todos nós nos assustamos com o relato do homem. Entendemos que a nossa aldeia tivera sorte, que fora poupada. Nos próximos três dias mais e mais refugiados vieram da floresta, contando as mesmas terríveis histórias. Depois de algum tempo o homem magro sempre interrompia as torturas, convencido que os homens do lugar não sabia nada. Nossa aldeia via sua generosidade com resrva, e nos preparávamos para a volta dos homens.
Então, um dia, nenhum homem veio até a aldeia. Os refugiados pararam. Ficamos sem notícia por uma semana, até qe uma mulher velha e enrugada, de longos seios chatos, apareceu e ouvimos a seguinte história:
Eles morrem aos montes. A floresta os derrotou. Logo voltarão para a sua capital na beira do mar, longe dos mosquitos que lhes picam as pálpebras e dos vermes sob a pele de seus braços. Estão sem comida. Mataram seus animais. São muitos e eles não podem alimentar a todos; falam em voltar. Logo encontrarão o caminho, mas antes disso a floresta os cobrará um pesado preço.
E o homem magro, de olhos ferozes? alguém perguntou.
Ele sumiu. A velha deu de ombros. À três dias brigou com o líder do exército, disse que não ia voltar. Desapareceu com outros tantos na selva. Foi na direção do rio, a direção para a qual não vamos. Ele queria eloro. Estava louco.
Anos e anos depois muitos de nós já o tínhamos esquecido. Vieram então as notícias. Da selva, que levaram anos para chegar. E da capital, onde acabaram de ouví-las de um navio. O homem sobrevivera.
Desceu o rio em longos meses. A selva cresceu dentro dele, o quebrou. Procurava algo que mal podia ver, que nem podia explicar. Em todo o lugar que parava, assolava os homens com perguntas. Seus olhos, já faiscantes, agora pareciam com os do jaguar, azuis. Sua magreza fora acentuada pela fome. A febre ceifava os homens ao seu redor, mas ele permanecia vivo.
Um dia o rio ficou maior e se abriu diante de uma ilha. Maior e maior ele cresceu em um mar. Ele cruzara o nosso continente, de mar a mar. Uns de água. Outros de selva.
Dizem que voltou a seu mundo. E que pensava em voltar à selva. Nunca encontrou o que procurava.

domingo, março 07, 2010

Os Exilados

Like a star on windy night
Lone shines a Garden bright
Expelled from Eden's light
Goes Adam and his wife.

Vagabonds in fluid quays
Boats of straw cross water ways
In their belly a couple lays
who knows only of storm and haze.

When the Garden's beauty fade
Among the beasts and torments laid
their home - New World is made
to love the prison is the exiled's fate.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

The Exileds

Andrew's version

Like stars on windy night
That shine at night so bright
Expelled from Eden's light
Roams Adam and his wife.

mine

Like a star on windy night
Lone shines a Garden bright
Expelled from Eden's light
Goes Adam and his wife.

Vagabonds in fluid quays
Boats of straw cross water ways
In their belly a couple lays
who knows only of storm and haze.

When the Garden's beauty fade
Among the beasts and torments laid
their home - New World is made
to love the prison is the exiled's fate.