Terça-feira, Julho 15, 2008

Os juncos

O barco se afastava para encontrar o mar, além da mata de juncos baixos e poços insalubres.
Ele perguntou ao viajante porque ele queria ir além, porque queria continuar a andar e a conhecer.
Mísca olhou de volta para o barqueiro, que andava todos os dias por estes canais baixos e tranqüilos e não soube responder. Mas pensou que a resposta estava nas gaivotas que voavam branquinhas mais além. Sob elas, o mar, que não se escutava ainda mas logo suas ondas se fariam ouvir. Apontou os pássaros e o barqueiro continuou a remar pensativo.
- Um dia estava envolvido com o conhecimento, em meio à turbulenta vida cotidianta. Era uma guerra, um motivo, uma discussão, não me lembro mais. Misca olhou para cima, para o sol pacífico e continuou:
Então, quando estavam falando algo importante, quando um mestre falou e eu estava avidamente e interessadamente escutando, um pássaro piou no jardim, longo e triste.
- E naquele momento - disse o barqueiro - você não soube qual era mais importante, qual dos dois merecia mais sua atenção e sua vida.
- Sim - disse Mísca. O pássaro cantava lindamente.
O barqueiro sorriu.
- É por isso que agora você está aqui, neste lugar perdido, nestes juncos distantes, nesta calmaria sem fim?
- Sim.
- Pois eu também, pois eu também, remou o barqueiro até o sol calmo, a areia branca e o mar com gaivotas.

Terça-feira, Julho 01, 2008

O Santo e os Monstros

Santo Antão, toda noite, abria seu livro de orações e rezava. Mas naquela noite a janela se abriu primeiro e três criaturas feitas de garras retorcidas e terrores o atacaram e submeteram.
Foi levado pela noite sem lua até a côrte do rei dos monstros. Os demônios o carregavam às gargalhadas de causar frio na espinha.
Chegando lá, os répteis de lustrosas armaduras abriram o portão na paliçada e Santo Antão se viu no centro de uma fortaleza onde circulavam seres criados pela mais tortuosa fantasia, que misturara a esmo partes de animais com partes vagamente reconhecíveis de pesadelos.
Levado ao trono soberbo do rei dos monstros, nada pôde dizer.
- Estás agora no reino dos meio-dragões, das criaturas distorcidas e engendradas pelo Doutor. O que pensa de nós?
Ao redor, o santo viu um cavalo coberto de fogo negro, um homem cuja parte superior do rosto parecia ter sido retirada e substituída pela parte superior de outro rosto, pássaros com pernas de antílopes, ursos com rostos humanos, prontos para devorar e uma criatura que causou repulsa extrema em Santo Antão por ele não ter conseguido adivinhar em suas adjacências nada parecido com mãos, patas, pinças ou antenas.
- São horríveis!, gritou o santo. Faltam-lhes partes ou as têm demais!
- É por este problema teológico que o trouxemos aqui - disse o rei - O que faz de um homem um homem?
- Seu corpo inteiro e bem formado, é isso que faz dele algo que não um monstro abominável.
- Então, se tirarmos suas pernas e braços você se tornaria um de nós?
E Santo Antão, assustado com uma sirena que batia suas pinças muito próxima, pôde ponderar os dois lados da questão - Não, mesmo se retirassem meu corpo, ainda assim teria minha alma e minha mente para fazer de mim quem sou.
- E se o enloquecêssemos para que perdesse a razão? - continuou o rei - E se quebrássemos sua alma com mil pesadelos e torturas, aí seria um de nós?
- Não enquanto houver alguma boa alma para cuidar de meu corpo abandonado. Se eu ainda fôsse capaz de inspirar sentimentos humanos em outras pessoas e estas me tratassem com humanidade, assim conservariam minha boa condição.
- Então qual é a resposta? - urrou o rei dos monstros furioso - Não é o corpo e nem o que o corpo guarda. Onde está em você a humanidade que nos foi cruelmente negada? Devemos começar a experimentar: vamos retirar uma por uma suas partes e pensamentos, para quanto tivermos enfim arrancado-o de sua condição, saberemos qual é o membro ou a combinação que faz de ti um não-monstro.
Santo Antão, acuado pelos demônios, abaixou-se e rezou. Garras e tentáculos grotescos o procuraram sob os gritos de Somos homens, somos homens também!.
Dizem os livros sagrados que o santo pulou e vôou pelo céu escuro em uma redoma de luz. Afastou-se ca côrte, afastou-se a paliçada guardada por répteis faminos e afastou-se a fortaleza terrível.
Depois das trevas, estava de novo em casa, a janela aberta e o livro de orações sobre a mesa.

Sábado, Junho 28, 2008

Temos algo

Ainda demoraria muito para o fim do tempo. Ela esperou sobre as horríveis pedras cinzentas do final da praia, que se cobriam aos poucos de espuma do mar a medida que a maré subia.
Um pássaro preto e comprido a observava. Voava em círculo sobre as árvores que logo deixariam de existir, mas que no momento delineavam os limites da praia. Enfim desceu; as garras tocaram a areia áspera e pousaram. O homem que surgiu espanou a sujeira de seu sobretudo e andou na direção da mulher. Entregou-a o livro fechado.
- Você acha que ainda durará muito?
- Difícil dizer - falou o estranho, com os cabelos e olhos escuros, da cor que o céu teria sem as estrelas.
Ela alisava o livro, sem se importar se a espuma o molhava.
- Podemos sair daqui? - ele pediu, tirando uma pena preta da nuca.
- Não. Ainda tenho que esperar alguém.
A mulher tirou a chave do colar em seu pescoço e abriu a fechadura do livro.
- Ele virá.

Alguns comentários

Não sei porque, mas de todas as histórias que já pensei para o Krystalian, é a de Sark e Penélope que gosto mais. Talvez porque ela tenha sido escrita (mesmo que em parte). O que significa que eu deveria começar a escrever alguma coisa, tipo agora!
Calma, ainda não. Não saberia por onde começar.
Gosto do fato de Penélope ler palavras nas sombras, e que ela e Sark têm histórias parelelas no livro. Ok, a história deles é triste, mas eu tenho um certo apreço por essa tristeza e gosto de me angustiar pelo que não acontece.
Afinal, é uma história sobre fins, nunca-começos e limites.

Fiquei surpreso outro dia (que é um modo literário de se dizer "foi hoje") porque percebi a recorrência do símbolo da Torre nas minhas histórias. Rapidamente na Torre da Bruma por onde Mellock passa, simbolicamente na estrutura do Palácio Oceânico, centralmente na Torre do Relógio que fica no meio do mundo, e poderosamente recorrente, já que o grande adversário dos personagens é dito simplesmente como A Torre Negra.
Babel sempre foi uma das minhas histórias favoritas.

Por sinal, é com uma história assim que eu pensei terminar a história em quadrinhos de Marco Polo, mas eu não vou falar mais nada porque quero fazer segredo.
Mas pensar nisso me deixa desanimado. Será que eu nunca vou escrever essa HQ? Não sei como fazer: minha habilidade é inventar histórias e personagens, e não desenhar. Posso desenhar algumas pessoas, de frente, sem muita dificuldade. Mas e cenários, cenas de ação, estruturas (os quadrinhos em si, onomatopéias, balões de fala - sou especialmente ruim nesse item)??? Eu adoraria ajuda, mas não faço idéia de onde encontrar alguém que queira desenhar o que eu fico imaginando.

Por sinal, eu sempre quis participar de um Clube do Livro. Eu sei que não tem nada a ver, mas mais alguém gostaria? O que vocês acham de montarmos um? Só digo isso porque depois de ler alguma coisa eu fico com vontade de conversar com alguém sobre o livro, o que quase nunca acontece.
Eu proponho começarmos por Kafka on the Shore (ou Kafka à Beira-Mar na edição brasileira).
Pois é. Era isso que eu tinha para dizer.

3ª Parte - Início

No final do verão, no auge do calor e do incêndio da guerra civil,
muito perto da porta final e do coração de magma de sua aventura, o escolhido caiu exausto sobre o caminho de azulejos migorãnicos sem energia para sequer se levantar. Estava, nesse momento e depois de tantas atribulações, no centro de um vulcão que começava a espumar os primeiros jorros de lava.
E só corria tantos perigos porque um espírito havia dito a ele que era o Escolhido. E era missão do escolhido ajudar a promover a paz e a felicidade, ou, para não querer tanto, ao menos tornar a vida humana um pouco menos cheia de defeitos. Acabaria com o sofrimento dos outros. Sim, seria altruísta a ponto de se sacrificar pelos outros, que fique bem claro, esse era seu propósito heróico, e também sua razão para se levantar, apoiando-se nos raros azulejos de Migorãn e andar esgotado os poucos passos entre si e a porta onde desembocaria e terminaria sua aventura, isto é, se ainda tivesse alguma força. Desesperado, continuou caído no chão. Levante-se, pensava; você tem que levantar.
Porque parecia a coisa certa a se fazer.
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