sexta-feira, maio 05, 2006

Uma história II

Ranilarima era um nefelibata. Morador do grande reino dos céus de Bavia-Lima, arqueólogo por profissão e interessado nas ruínas de Chilam Balam, escondidas nas selvas da proibidíssima ilha flutuante de Arybalo, terra das aves.
Seu nome significava asa veloz e, claro, era um Alado, ou seja, um homem com asas. Não era um humano comum, daqueles que moravam nas ilhas de terra (os pedaços de terra flutuante, diferentes das ilhas-núvens onde os Alados moravam). Também não era uma das abominações, o nome preconceituoso que El Rei criara para os Passarianos, aqueles que eram homens com penas, bicos e asas de pássaros.
Por muito tempo ele ficou encarando a janela de seu quarto. Como todo funcionário encomiendado (a serviço do Estado de Bavia-Lima) ele morava no branquíssimo palácio do sul, em meio aos picos montanhosos que voavam no céu. Seu quarto era absolutamente branco e simples (ele não preferia de outra maneira) e a brisa entrava a todo momento pela janela. Mas sua mente estava longe da brisa e ele nem notava mais sua presença. Ele assumia uma pose séria, seus olhos estavam virados para a janela mas sem realmente ver nada deste mundo; o caderno de anotações aberto na mesa, o lápis parado no ar, no meio do movimento.
Ranilarima pensava em uma maneira de chegar até Arybalo? Ou será que pensava nas recentes revoltas contra El Rei que ocorriam nas províncias pobres do norte, onde moravam os humanos? Sua mente voava mais além, para o futuro que ele não conhecia. Para Maria, sua esposa, e seu ventre, que guardava o mais precioso dos tesouros.
A velha parteira da cidadezinha de Q'oriancha dissera que seria uma menina. . . Ranilarima deu de ombros e suspirou. Voltou a mover o lápis e escreveu duas frases no caderno. Mas logo os problemas voltaram a envolvê-lo; dessa vez foi Ishtar quem adquiriu foco e nitidez em sua cabeça. A jovem aluna, à quem ele havia ensinado tudo o que sabia da História de Bavia-Lima, das ciências novas e da Religião. Aquela que logo logo seria rainha do reino todo. E uma rainha poderosíssima.
Por muitos anos Ishtar havia sido uma menina curiosa, dedicada. Morava no palácio o tempo todo e Ranilarima era seu único elo com o mundo real. Ele explicara para ela sobre a Guerra da Asas, sobre os mitos e inconsciente coletivo, sobre a Alquimia, a Magia e sobre o Levante das Ilhas dos tempos antigos. Passavam horas e horas no jardim, ela perguntando sobre o mundo e ele tentando saciar sua sede que parecia interminável. Ele podia dizer que ela aprendera absolutamente tudo o que o mestre tinha para ensinar e parecia que não havia campo do conhecimento que a garota não dominasse. Decidida e feroz, era assim que Ishtar era descrita por seus professores. Bela como a noite, e tão mortal quanto o escuro, seus pretendentes diziam suspirando.
Ranilarima acabou suspirando também, percebendo que os tempos da curiosa garotinha no jardim haviam acabado. Ishtar crescera para se tornar ainda mais poderosa. Ele tinha ouvido boatos de que ela era a cabeça do Santo Ofício, o tribunal de religiosos decididos a desvendarem todos os segredos do mundo e a terem em suas mãos as vidas de todos os habitantes do reino. Ele também ouvira outros boatos, mas esses eram mais sussurrados, e davam calafrios só de pensar que podiam ser verdade: Diziam que a futura rainha estava buscando os Livros de Popol Vuh, a Trilogia do Infinito. Os livros que continham a Verdade Absoluta!
Ranilarima tremeu e olhou para a janela, buscando um pouco de conforto. Era fim da tarde e o céu já se coloria. Aqui no alto era sempre bonito ver o fim do dia, apesar do frio que a noite trazia. O cansado professor pôs o lápis na mesa, fechou o livro e de semblante rígido pensou se não deveria ir visitar sua esposa. Maria ia ter o bebê logo, e ele gostaria de estar em Q'oriancha quando isso acontecesse.
Claro, seria necessário uma fuga do palácio, mas tinha certeza de que nada grave adviria disso. Eram tempos incertos, mas ele se dava ao luxo de ter algumas certezas. Sua pesquisa podia ficar para depois. Guardou o livro no báu, junto com seu diário. Nunca mais ele voltaria para esta sala ou abriria o velho baú.
Pôs um casaco e saiu do quarto. No porto arranjou um barco que o levaria para as montanhas-núvens de Wiñaywayna e para o vilarejo de Q'oriancha. Maria provavelmente já o esperava, ele pensou sorrindo. Sentia falta de sua bela esposa.
O dia estava no fim, as núvens iluminadas de dourado. De rosto firme, congelado quase, Ranilarima partiu do palácio, sem saber que nunca mais o veria novamente.
Ishtar subiria ao poder logo em seguida. Seu Santo Ofício varreria o reino de ponta cabeça: a repressão cresceria, as perseguições se tornariam constantes e a dor onipresente nos vilarejos. Os Livros do Popol Vuh seriam descobertos e uma equipe de religiosos e alquimistas passaria anos tentando desvendá-los. Nesse tempo nasceria a filha de Ranilarima e Maria. Logo depois os três seriam exilados de Bavia-Lima e teriam de viver nas Terras de Baixo, no Chão.

Somente muitos anos depois, diante do diário e do velho baú que pertenceram ao pai, Etlyr finalmente perceberia que voltara, sem querer, para casa, para Bavia-Lima.
De agora em diante, além de Escolhida, ela seria também uma nefelibata.

6 comentários:

Muriel A. disse...

Agora eu que pergunto... como você consegue, Charles? Escrever assim, e inventar esses nomes. Você é o melhor inventor de nomes que eu conheço, mesmo mesmo.

piochi criticando disse...

nefelibata eh feio XD

Charles B. disse...

É nada, é a melhor palavra que existe no mundo. Mas só no significado literal.

Olha Muri... (Obrigado!) Não sei se eu consigo assim, desse jeito que você fala... Puxa, nem sei o que dizer. Não é tão assim. Alguns nomes eu tirei de algum lugar ou mudei nomes já existentes. Eu nem penso muito quando invento nomes.

pioux feliz disse...

hauhauahua ótimo profile!

Lobz disse...

pensar muito também não é muito bom, né? É preciso deixar o inconsciente nomear um pouco.

Adorei o texto, Cham. O que é um nefelibata?

Charles B. disse...

Descubra. Olhe em um dicionário. Sei lá!
Olha:
O negócio é que eu não inventei nem a maioria dos nomes do texto. Alguns eu peguei de lugares nada a ver (como a cerâmica inca de Arybalo ou a deusa mesopotâmica Ishtar) ou usei uma fonética engraçada que parecia ter a ver com a história. Não é tão crédito meu assim...