terça-feira, novembro 07, 2006

Penélope - três / H. Sark - cinco


"No meu quinto dia de estadia no templo de Campostela eu tentei o proibido: experimentei os meus recém-adquiridos poderes. Depois de verificar se o austero quarto estava trancado e se o corredor lá fora estava silencioso, reclinei-me sobre a cama espartana e olhei as sombras dançando no teto por efeito da vela bruxuleante. Eram horas silenciosas, da madrugada fria, e acho que apenas eu estava acordada naquele momento.
Sabendo-me sozinha, comecei a mover as mãos em uma dança sem sentido. Percebi assustada que as sombras me seguiam, que a matéria escura estava junto aos meus dedos: eu poderia controlá-la e movê-la o quanto quisesse!
Fiquei orgulhosa, e também me odiei por isso. Ainda não havia aceitado ser Escolhida, portanto estava proibida de me divertir movendo sombras. Era um destino que eu relutava, negava, e que, por enquanto, não seria aceito sem explicações. Mas não havia maneira de entender. A estátua não voltou a falar, o deus ficou silencioso; mesmo agora a Sala das Sombras foi fechada sem razão e não posso mais rondar por ali, esperando outra manifestação divina (Que provavelmente não virá nunca).
Porque gosto tanto de ter poderes? Acho que isso me faz sentir única, o que significa que as atenções se voltarão para Penélope. Eu, que tinha inveja dos peregrinos por terem deuses para pedir, tenho que ser a deusa de alguém, oferecendo o que me pedem.
Não que alguém tenha me pedido alguma coisa. Ainda. Não sei. Talvez nunca saibam sobre mim.
Eu terei de dizer para as pessoas que sou a...
*
Por outro lado, acho que tenho um certo orgulho de meus poderes, por causa Dele. Sim, eu gostaria que ele prestasse atenção em mim. Será que o que eu quero é impressioná-lo? Mostrar a ele que sou única e supreendente? Isso seria tão mesquinho e arrogante!
Vi-o poucas vezes depois de nosso primeiro encontro. Uma vez no refeitório, com seus estranhos companheiros de viagem; outra caminhando ao redor do altar central; e a terceira foi no salão vazio cheio de janelas.
Não cheguei a conversar em nenhuma das vezes. Ao contrário, quem me interpelou outro dia foi seu companheiro, um tal de Ganz, que perguntou:
- Senhorita, conhece a Sala das Sombras?
- Conheço, respondi timidamente, esperando um olhar do outro estranho.
- Já ouviu falar de coisas anormais acontecendo lá dentro?
- Não, respondi. (Isto é, sem contar com a garota que entrou lá dentro outro dia e escutou um deus falar pela voz de uma estátua, escolhendo-a para salvar o mundo).
Insatisfeito, o homem foi embora.
E ontem mesmo a Sala das Sombras foi fechada. Pensei que poderia levar o estranho até lá e mostrar a ele as estátuas, tudo uma desculpa para conversarmos e eu conhecê-lo melhor. Mas agora já foi. Agora já acabou.
É por causa dessa Sala que estou aqui, em meu quarto, esperando o silêncio atingir o corredor para poder praticar ainda mais. Já consigo coisas incríveis: desde que tentei pela primeira vez minhas habilidades cresceram e se aprimoraram: Agora consigo escurecer levemente uma sala - declinar a luz e aumentar a sombra de um lugar. É divertido praticar em meu quarto, fazendo a vela dançar de confusão.
Também aprendi sozinha uma habilidade sem nome, a que eu chamo de "pegar" as
sombras. Nada mais é do que poder mover a matéria escura, como se eu tivesse uma mão sobrenatural capaz de tocar o abstrato.
Posso sentir as sombras, saber onde está o escuro e em que lugar é noite.
Consigo mover este elemento e moldá-lo. Já tenho muitas habilidades, mas ainda não sou um Escolhida, não sei lidar com meu poder. É que, afinal, não sei para que usá-lo! Ninguém nunca me pediu nada (mas ninguém nem sabe de nada!), não saí daqui de dentro do templo, não busquei ajuda. Tenho medo do que pode acontecer nestes tempos turbulentos. Notícias terríveis chegam do norte, de Estafansa. Dizem ser o fim de Olstomé.
Consigo mover as sombras, mas será que eu terei que... atacar? Luta? Guerra? Eu não! Me recuso terminantemente a matar outra pessoa, não sou do tipo de brigar. Mas agora nem sei mais de que tipo eu sou, vida roubada que tenho.
Ouviu Penélope? Você é a Escolhida das Sombras.
Acontece que não sei quando e por quê usar os meus poderes.

Eles já me meteram em confusão. Devia ter ficado quieta, mas insisti em ser curiosa e em testar-me. Pois bem. Aconteceu.
Outro dia comecei a reparar nas sombras das pessoas (de um certo modo, estes exercício são muito bons, pois distráem minha mente dos grandes problemas). É engraçado perceber como as nossas sombras têm dentro de si muito de nós. Elas nos tráem; contam para os outros quem somos. Muito silenciosa e dissimulada eu espreitei os peregrinos que chegavam, vendo na sua projeção escura seu segundo eu separado do corpo. Vi alguns sonhos, de relance. Desejos, insinuações, tentativas e coisas que poderiam ter sido. Descobri a minha mais incrível habilidade: conversar com sombras.
Elas não falam com vozes, como nós. Mas usam palavras. Como se isto fosse a sua matéria-prima, sua comosição inicial.
É possível saber o outro através de palavras? Pois eu soube sombras, rastros de pessoas, irmãs-gêmeas tristes e vingativas.
Dizem, em lenda, que quando uma pessoa está para morrer sem cumprir o seu destino, sua sombra a salva. Ela é a eterna companheira, elo de ligação com a morte. Assim, as sombras podem acelerar ou retardar nossa partida.
Se tenho medo? Claro que mexo com coisa perigosa, além do sentido humano normal, mas medo não tenho. Ou melhor, ele é afastado pela sensação de que, uma hora ou outra eu tenho que fazer isso, então vamos em frente, vamos lá, ouvir o que elas tem a dizer. Não sobra tempo para o medo.
Mas a maior das descobertas, a que desencadeou toda essa escrita, foi na madrugada que iniciava o meu oitavo dia no templo.
Era tudo silêncio àquela hora. Cansada de sempre treinar na solidão do meu quarto, fui dançar com as sombras por entre os corredores vazios de Campostela. As estátuas se erguiam mais ameaçadoras do que nunca e eu temia ser descoberta.
Coração palpitando, fui tentar mais uma vez entrar na Sala das Sombras. Nada. Desisti. Era impossível abrir aquela porta fortemente trancada. O que havia de tão proibido ali? De repente, percebi: será que sabiam sobre o deus? Era por isso que trancaram a sala, para que ninguém se encontrasse com o divino? Será que eu corria algum risco? Sabiam sobre mim também? E quem era esses eles que minha paranóia insistia em criar?
Ah não, ah não, ah não!
O que será agora? Perceberam tudo o que eu tentei dissimular?
Corri pelo escuro, o medo dominando meus pensamentos. Na hora não fui esperta, não percebi as pistas que me deixavam. Com medo de estarem me seguindo, fugi na direção do meu quarto.
Quando parei, ainda na sala das janelas, não conseguia mais respirar. O que será que haviam descoberto sobre a Sala? Eu estava em perigo?
Tentei me acalmar olhando para as colinas de capim ondulante sob o céu noturno.
- Eles não sabem de nada.
Saindo das paredes uma voz grave e sibilante cortou a escuridão. Arfando mais do que nunca eu gritei:
- Quem disse? Quem é? O que está acontecendo?
- Eles não sabem do que nos aconteceu. O deus vai ficar bem. Nós ficaremos bem.
Comecei a tremer sem saber de onde vinha a voz misteriosa. Estava apavorada, amaldiçoando a minha curiosidade, quando percebi:
Era minha sombra quem falava. Encostada na parede da sala a minha sombra conversava comigo!
- O que... O que... balbuciei
Tenho a impressão de que ela deu uma risada. Era um som chiado e penetrante que me deixou mais assustada ainda.
- Sou sua irmã, (foi essa a palavra usada pela sombra: irmã) não se assuste. Eu queria dizer que estou orgulhosa do seu progresso, você vai bem como Escolhida. Por isso achei que esta era a hora de me revelar, de conversar contigo.
- Eu não... eu não entendo!
- Ora, você já conversou com outras sombras antes! Já a vi tentando com os peregrinos. Por que comigo é tão diferente assim?
- Eu não sei, respondi. Conversar com a minha prórpia sombra era algo pessoal e esquisito. Ali, na semi-escuridão da luz de velas, estávamos sozinhas. Tive medo do que ela pudesse fazer.
- Vamos, não tema, não tema. Eu vim aqui com um conselho.
Afastei a cabeça com suspeita. Ela fez o mesmo.
- Queria te contar, minha cara Penélope, sobre o seu caminho como Escolhida. Está disposta a ouvir?
- Estou, falei. Mas antes, eu tenho uma curiosidade: como eu posso te chamar?
Ela riu novamente, e quando moveu a cabeça para o lado eu fiz o mesmo. (Começara a imitar a minha sombra?)
- Pode me chamar de Epolenep, só por diversão.
- Não acho que vou conseguir pronunciar isto...
- Escute: vai ouvir o que tenho a dizer? (aquiesci com a cabeça) É isso, tenho que lhe falar sobre uma missão que pensei para ti. Você deve começar a agir como Escolhida, portanto elaborei algo que poderia fazer para ajudar as pessoas. (a encarei com suspeita e um pouco de raiva. Não queria ser a Escolhida. Ainda não. Mas bem, vamos ouvir tudo o que ela tinha a dizer.)
- Você já ouviu falar, minha querida Penélope, do Rei das Sombras? Nunca? Eu sei. Sombras sabem coisas além dos seus gêmeos. Por isso te digo: aqui perto de Campostela, em uma colina mágica e perigosa, existe uma série de túneis subterrâneos, esquecidos há anos pelos humanos. Lá dentro é o palácio do Rei das Sombras, onde as Sombras-livres, aquelas sem os seus humanos-irmãos, moram e dançam o dia todo. Se você for até lá e prender o Rei, você terá salvo as pessoas das vilanias e crueldades das Sombras-livres. Não é isso o que uma Escolhida deve fazer? Ajudar o mundo? E como fica aqui perto, eu imaginei que você gostaria de começar a sua... carreira.
- Parece um bom plano, mas você se esquece de que eu ainda não sei usar os meus poderes. Se terei que prender uma criatura tão perigosa como você diz ser esse tal de Rei das Sombras, prefiro descobrir a extensão de minha força antes, ou poderei morrer sozinha em algum dos túneis devido ao meu despreparo.
- Bobagem, não creio. Você parece estar pronta. Eu te ensinarei tudo sobre as sombras e com esse conhecimento você poderá derrotá-lo.
- Mas eu nunca briguei com ninguém antes. Agora terei que derrotar uma criatura?
- Não, basta uma magia para prendê-lo. Eu te ensino tudo o que você precisa saber. Conheço-te a vida inteira Penélope, conheço-te por dentro e sei que você é capaz. Cansei-me de te ver aqui nesse templo escuro e velho; vamos sair, vamos nos mover. Quero ver os seus primeiros passos como Escolhida!
A vela rodou no vento, fazendo a sombra se indefinir.
Acenei afirmativamente e Epolenep começou a me ensinar tudo o que hoje sei sobre as sombras. Ela falou das lendas sobre a nossa morte e nossa sombra andarem lado a lado, sobre o aspecto vingativo e traidor de nossas irmãs-gêmeas, sobre como elas espiam nossa vida, mas podem escapar à noite sem que saibamos e sobre o perigo que são as Sombras-livres, capazes de fazerem o que quiserem. Ficamos conversando na sala e depois no quarto escuro. Por fim, quando achou que eu estava pronta, a minha irmã escura se calou e ficou sendo apenas uma imagem na parede.
Apaguei rapidamente a luz, para que ela sumisse dissolvida no escuro.
No entanto, a noite toda senti sua presença, querendo, sussurrando, instruíndo...


Quando pensei estar pronta para enfrentar o Rei das Sombras, nós duas, eu e minha irmã-gêmea, saímos para fora do grande templo negro de Campostela. Era o entardecer do meu nono dia ali.
Assim que coloquei os pés na grama macia, minha sombra se dissolveu no capim alto e sumiu muda nos múltiplos feixes de planta. As primeiras estrelas piscaram sonolentas e, por costume, fiz um desejo:
"Que tudo corra bem".
Um grupo de peregrinos extasiados passou por mim, todos rindo contentes. Dei alguns passos ouvindo o shoque shoque de grama raspando em roupa, quando uma voz me chamou:
- Você já vai embora? ele perguntou doce e angustiado (quase cortante, disfarçando). Engoli em seco e virei-me, dando de cara com o estranho que olhara em meus olhos outro dia.
Desta vez nos encaramos com sobriedade. Olhares sérios e comuns. Vi o seu cabelo escuro, suas mãos nervosas e seus ombros largos.
Ele baixou o olhar encabulado - Me perdoe, foi desrespeitoso de minha parte intrometer-me assim em sua vida.
Eu, que havia visto sua alma, que poderia dizer?
- Não foi nada desrespeitoso senhor! (e, para evitar um silêncio:) Eu não estou indo embora. Pensei apenas em caminhar por estas colinas, conhecer um pouco a região.
- São lugares perigosos, principalmente à noite, é melhor não ir sozinha.
- Conte a verdade.
- Como? perguntei de um salto
- Me desculpe! (atrapalhou-se o estranho) Pareceu que eu estava te oferecendo minha companhia, mas, acredite, não queria forçá-la a nada (colocava as mãos atrás da cabeça e depois as torcia e depois coçava o rosto, sem saber como se desculpar) Só estava preocupado, as colinas são mesmo perigosas.
Sorri diante da sua confusão. Mas estava mais interessada era na terceira voz, que logo repetiu:
- Conte a verdade.
- A verdade? sussurrei olhando para Epolenep. A sombra estava quieta.
O viajante me encarou sem entender.
- Conte-lhe a verdade.
- Quem é? falei assustada. Dera para ouvir vozes misteriosas agora? Olhei para a longa parede do templo e a compreensão bateu-me.
Encarei devagar o estranho e expliquei a ele minha triste situação.
- Gostaria que não pensasse em mim como louca. Porém (por que dizia isso ao homem por quem eu me apaixonara?) o caso é que a sua sombra está falando comigo.
Desta vez seus olhos se fecharam. Baixara as cortinas do assombro, incredulidade e surpresa.
- Conte-nos tudo, pediu a sua sombra.
- Meu nome é Penélope Noite (eu comecei. Por essa loucura perderia meu amor?) e consigo falar com as sombras e entender o escuro. Eu estava saindo na verdade para encontrar o palácio do Rei das Sombras-livres, porque sou...
- Mas não tudo! gritou-me Epolenep - Vamos ter alguns segredinhos, pois não.
A sombra do homem concordou com um aceno de sim.
E o homem? E meu caro estranho que eu queria tanto impressionar?
Pois ficou ainda um tempo parado, olhando para mim come se fosse mesmo uma maluca pregadora de algo inconcebível. Que minutos mais desesperados! Não achávamos, nenhum dos dois, algo a dizer para o outro. Como já havia dito demais, resolvi ficar em silêncio. Por fim, ele disse:
- Meu nome é Sark. (e pausou, olhando agora em meus olhos) Não sei se acredito no que você diz, mas uma garota tão determinada como você parece decidida a ir atrás deste Rei das Sombras. Como eu havia dito, as colinas são perigosas, então me ofereço para te acompanhar. Desta vez ofereço mesmo minha proteção de guerreiro. Minha cara Penélope, você aceita?
Seus olhos brilharam de ironia e alegria, talvez entusiasmado por ir atrás de algo desconhecido. Só posso imaginar, mas me sinto segura ao dizer que os meus olhos brilharam de volta com esperança. Finalmente saía de dentro do detestável templo escuro e mergulhava nas colinar-mar. Melhor do que isso? Era acompanhada pelo belo viajante, que se oferecera para proteger-me. Tudo o que precisara era afirmar-me como Escolhida... Algo pelo qual relutara, mas...
(hesito)
Não sei agora o que quero. Não sei mesmo meu caminho. Gostaria de poder escolher quem sou, ao invés de estar à disposição de um poder divino silencioso.
Por enquanto me basta narrar o nosso breve passeio:
- Muito obrigado viajante (agradeci enquanto dávamos nossos primeiros passos pelo capim macio) Me sinto muito contente agora (shoque shoque). Mas, se me permite uma pergunta: você disse que o seu nome é Sark, mas (olhe minha intromissão!) poderia jurar que ouvi seus companheiros te chamarem diferentemente, outro dia, lá no templo.
Seu rosto se fez uma careta.
- É uma brincadeira, um jogo de mau gôsto. Eles às vezes me chamam pelo primeiro nome(ele pausou). Mas eu prefiro Sark. É um nome mais forte, intimidador.
- E você quer ser intimidador? Eu gostaria de saber o seu primeiro nome.
Ele riu, baixou o rosto e voltou a olhar para as estrelas.
- Eu me chamo Henry Sark, se você insiste.
- Eu insisto. E prefiro muito mais te chamar de Henry. É mais doce.
- Eu não sou doce, ele afirmou categórico.
- Não vejo razão para não ser. Você me parece triste e sozinho, mas não é alguém cruel ou malvado. (olhei para o seu rosto. Ele ficou quieto. Sark entendia a extensão de seu ser. Talvez eu estivesse enganada. Ele era cruel? Gostaria de sabê-lo, entender até onde ele ia.)
- Você pode me cahamar de Kras, disse a sua sombra, dando continuidade à brincadeira dos nomes invertidos.
Caminhamos em silêncio pela grama alta, buscando uma referência qualquer. O que seria uma colina mágica e pergisosa? O que seria, naquela escuridão estrelada, uma colina?
- O que vamos fazer com o Rei das Sombras quando o encontrarmos? - Henry Sark me perguntou.
- Eu vou derrotá-lo.
Olhou para mim incrédulo. Era porque sou uma menina? Por entender minha inexperiência? Por ainda me achar um tanto maluca?
Ergi o pote-estrela e expliquei: Aqui dentro deste vidrinho está um feitiço, capaz de prender sombras-livres em seu interior. Minha própria sombra me ajudou a fazê-lo. Se jogarmos isso em cima do Rei quando ele estiver enfraquecido, o feitço irá prendê-lo.
- Mas e se o vidro quebrar?
- O vidro tem que quebrar. Por isso devemos jogá-lo em cima do Rei, para abrir e liberar, e com isso prender.
Caminhamos silenciosos.
- Eu já vi coisas muito estranhas, ele confidenciou. Creia em mim, o mundo é um lugar esquisito. Então, quando você diz coisas sobre o escuro, eu decido acreditar.
Nos olhamos de novo. Ele tinha decidido acreditar em mim? Não via mais hesitação em seus olhos.
Porém... Em sua sombra, ainda havia um rastro...
- A sua sombra te contou tudo isso?, Henry perguntou, com suspeita - Eu não acho seguro confiar em algo tão maligno e traidor.
- Porque você diz isso delas?
- Por que ela traiu suas iguais. Se ela te contou tanto sobre o Rei delas e como capturá-lo, as sombras não passam de traidoras vingativas. E ninguém é capaz de contrariar a sua própria natureza. Você devia ter cuidado com o que ela te ensinou, pode ser tudo enganação.
Mais um pilar de segurança caiu.
- Não gostei de nosso companheiro - resmungou Epolenep - Muito maledicente se você quer saber.
- Mas ele está certo - continuou Kras - Ninguém pode ir contra a sua natureza.
E a minha natureza, qual era? Escolhida, filha, apaixonada? Eu iria descobrir isso algum dia? Talvez agora, caminhando por entre o ondulante capim noturno, em direção a algo sinistro e desconhecido, eu descobrisse, afinal, quem é a Penélope Noite. Ou então eu estaria, nesta aventura assustada, construíndo quem eu sou.
...
Quem eu sou? Talvez as sombras saibam a resposta.
(shoque shoque fazia o capim, à medida que avançávamos)
De repente, não estava mais com tanta vontade de avançar.



Quem é esta garota? Por que em sua presença eu me desdobro em ridículas gentilezas? Resolvi segui-la em sua peregrinação até o Rei das Sombras-livres. Acreditava nela? Não sei. Conversar com o escuro... suspeito de enganação.
Mesmo assim a dama Penélope precisava de um guerreiro que a protegesse de sua prórpia curiosidade. Deixei Ganz e Pátroclo dormindo lá em cima e caminhamos pelo capim alto.
Coloquei a mão sobre a bainha de Kagemonji. Seguro. Prendi a capa de viagem para afastar o frio e olhei para ver se Penélope não se sentia incomodada no anoitecer. Ela caminhava devagar, atenta para o seu passo incerto.
Tento entender agora, após todos os acontecimentos, o que senti naquele momento. Era um sentimento apreensivo, tímido, ainda suspenso em desconhecido nas névoas da minha consciência. Não havia nome, mas em mim havia uma falta de ar, um constante deslumbramento.
E era tudo por causa dela. Agora eu sei, tenho um nome. Posso definir e cercar este sentimento. Não vou dizer por enquanto, mas era coisa tola, juvenil. Eu sei, eu sei, que vergonha! Mas tenho as idades trocadas.
Nunca tive juventude. Passei da curta infância à maturidade séria rapidamente, graças à minha estadia em uma tumba e ao treinamento severo de mestre Haramis. Agora, que me empenhava em ser um adulto respeitável, esta garota aparece e me transforma em um jovem suspirador.
Me confundo. Que idade tenho? Como devo agir? O amável, prestativo e cheio de ideais Henry ou o cruel, decidido e poderoso Sark?
H. Sark (eu) terá de viver como uma eterna contradição.
Mas de volta à história:
O vento aumentou e agora o capim ondulante nos fustigava os braços e rosto.
- Minha sombra nos diz que devemos nos apressar - falou Penélope - Pois logo vai chegar o dia.
- Achei que sombras se enfraquecessem na luz - respondi, pronto a desacreditar aquela maluquice.
(Após uma pausa, em que ficou a olhar o chão à sua esquerda, ela me respondeu: )
- Não. Durante o dia a escuridão se concentra na gruta e o Rei fica mais forte. Então vamos logo, ela ordenou.
A grama farfalhava alegre enquanto buscávamos alguma trilha por onde passar. Olhei novamente para Penélope, que transitava com os olhos entre o capim e as estrelas, talvez atrás de uma pista qualquer.
Por fim, ao chgarmos às colinas, e ela sorriu-me, e o luar branco de seus dentes encantou-me de tal modo que ainda fiquei por um momento parado, deslumbrado pelo seu eco. Meu coração deu uma fisgada - que papel de tolo eu faço - e abandonei o reflexo para correr atrás da dona da ilusão, que deslizava em seu vestido escuro por entre o mato.
- Kras diz que é logo ali naquela colina, ela sorriu. E como era lindo o seu sorriso!
- Quem é Kras? Uma das sombras?
- A sua sombra, ela respondeu impaciente, fazendo-me olhar com extrema suspeita para a figura escura que caminhava ao meu lado.
- Não vejo nada por aqui, só as colinas - Estávamos agora no alto, com uma bela vista do Campo das Estrelas sob o céu noturno, uma das mais lindas visões no mundo todo. Lá longe se via o vácuo no céu que identificava o templo de Campostela. Por todos os lados os astros celestes nos confidenciavam segredos e mistérios, junto ao balouçar sereno do capim no chão.
- Olhe só Sark! - Penélope chamou, mostrando-me algo no chão: um enorme buraco, mais escuro que a treva da noite, no topo da colina maior.
Era definitivamente a entrada do Palácio do Rei das Sombras. Quem entraria primeiro?
- Eu vou, - falei, decidido a agradá-la e já colocando as pernas para dentro da boca negra.
- Cuidado, ela pediu - Epolenep me diz que as sombras-livres são extremamente perigosas. Sem seus humanos-gêmeos elas podem liberar toda a sua maldade e vingatividade. O mesmo vale para homens que perderam a sua sombra-gêmea: estes não tem arrependimento.
Acenei devagar com a cabeça.
- Dê-me o seu pote, eu vou enfraquecer o Rei para você. Deixe que eu o prendo enquanto o distraímos: não quero te ver chegando tão perto de uma criatura perigosa.
Penélope demorou para responder. Por fim, resolveu dar-me o pote-estrela com o tal feitiço dentro.
Olhamos um para o outro mais uma vez. Que brilho era esse que eu enxergava em sua íris? Seria todo um arco colorido de sentimentos desconhecidos? O que os meus olhos lhe revelavam? Seria aquele desconhecido e brumoso sentimento-sem-nome?
Perturbado afastei a cabeça. Começara a minha missão; era tempo de ser um guerreiro.
Entrando pela terra seu sorriso me iluminou a queda escura. Com um baque, cego e tonto, aterrisei sobre uma matéria desconheida.
Com outro baque, Penélope aterrisava sobre mim. Doloridos e assustados pela súbita cegueira que a treva nos provocava, começamos a tatear as paredes de terra.
- Epolenep! Epolenep! ela chamava - Ah Sark!, onde estão as nossas sombras? Que lugar é esse? Não vejo nada neste escuro.
- Está tudo bem, acho que há um caminho por aqui. Segure minha mão.
De fato. Conseguimos seguir por um corredor estreito, temendo pela tolice irrevogável de nossos atos. Quando viramos a esquina - uma luz!
- Há algo ali, sussurrei devagar. Vamos tentar ser o mais discretos possível.
Caminhamos agachados pela escuridão, eu com meu sentimento desconhecido e simples, ela com seus segredos. A luz aumentava, vindo de uma série de archotes colocados nas paredes. Estranhamente, também a música aumentava: vindo de algum lugar do fundo da caverna um som macabro e crepitante tocava, nos arrepiando até os ossos. E nos seguindo, mais definidos do que nunca, iam os sinistros Kras e Epolenep.
A caverna estreita se abriu em um grande salão, iluminado por milhares de chamas no teto. No centro, infinitas figuras escuras de sombras-livres rodopiavam sozinhas no ar, independentes dos restritos anteparos. Apontei para Penélope uma sombra maior, sentada em um não-sei-o-que-em-ruínas - uma porta, um portal? - com uma brilhante e reluzente coroa na cabeça - isto é, supondo partes humanas para sombras.
Estávamos no Palácio do Rei das Sombras-livres!
Involuntáriamente nossas mãos se buscaram. Por pouco tempo ficaram unidas em seu abraço cálido antes que uma presença fria e ameaçadora pousasse sobre elas: Epolenep debruçou-se ao nosso lado, olhando fixamente para o centro do salão. Como que então as sombras ainda ligadas deram para moverem-se sozinhas? Reparei na face pálida de Penélope e encarei furioso a minha própria sombra, ordenando interiormente que ela ficasse quieta.
- Ela diz... - suspirou a garota, falando obviamente de sua sinistra irmã-gêmea - que devemos nos apresentar. Que é mais educado assim. Ou senão - e seu rosto empalideceu ainda mais - Epolenep o fará por nós.
- Maldita! sibilei. Coisa velha e escura, monstro terrível! Deixe a pobre Penélope em paz!
- Não Henry, está tudo bem.
- Não, não está! - revoltei-me briguento - Se essa bruxa vai nos trair de qualquer modo, deixe que eu vá. Você fica aqui escondida e tente não se preocupar. O pote está comigo, eu ficarei bem.
- Cuidado então. Por favor, não faça nada perigoso - ela pediu. A doce e encantadora Penélope! Enquanto ela me encarava com temor, sua sombra se interpunha dissimulada entre nós, sem revelar emoção alguma, fingindo não ser com ela.
- Fique aí - eu ordenei, enquanto descia a escada circular para o luminoso salão. Assim que meus pés tocaram o círculo interno, a música e os guinchos pararam de um rasgão. Uma risada tenebrosa ecoou e o Rei das Sombras, erguendo-se mais alto do que dois homens, falou a mim:
- Humano! Que diversão! Olhem sombras-sombras, quem veio nos visitar.
Precisava ganhar tempo, me aproximar. Comecei a conversa:
- Meu nome é H. Sark. Eu vim do norte, do decadente reino de Olstomé.
- Um reino decadente? E o que as Sombras-livres têm a ver com sua tola política? Tudo patetagem para nós! - ouvindo isto todas as figuras escuras do salão se aproximaram de mim - Vamos ouvir, o que você tem a dizer que interesse a nós, habitantes das profundezas.
(e agora, o que dizer?) - Vim aqui fazer um trato.
- Um trato? - todas as sombras se inclinaram.
Acenei ao Rei para que este se aproximasse, como se tivesse um segredo a contar-lhe. Mudando sua forma para deslizar pelo ar, ele colocou o seu ouvido escuro próximo à minha boca - fora pego!
Comecei a sibilar palavras sem sentido para o ouvido ávido - Lá em cima... no Campo... das Estrelas - minha mão pegou secretamente Kagemonji e entrei em posição - onde... tem... uma... grande... Agora! - com um grito saquei a espada e cortei um rasgo no rosto parado e atônito do Rei.
Percebi lívido a minha estupidez. Nenhum arranhão - era óbvio - na grande sombra negra!
Erguendo-se alto e furioso, a coroa piscando brilhante, o Rei das Sombras urrou:
- Olstomé? Campostela? Acho que você não veio aqui falar de nenhum dos dois, não senhor! Eu enxergo a sua intenção. Você pode tê-la ocultado em seu rosto, mas seu gêmeo - sua aberração gêmea! - me diz que você busca me matar!
Então, pela primeira vez - e foi neste momento em que qualquer dúvida a respeito de Penélope se dissipou - eu ouvi Kras falar, talvez efeito daquela caverna que fazia as sombras agir tão estranhamente:
- Me desculpe irmãozinho, nada pude fazer. Você é um bom companheiro, não desejava te fazer mal. Mas não posso contrariar a minha natureza traiçoeira, me desculpe Farei o que pudermos para não nos matarem, prometo.
Eu sorri para o meu irmão-gêmeo. Certo, não podemos evitar, o que eu fiz era estupidez de qualquer modo. Não seria certo culpar apenas minha sombra, por agir como sabia agir.
- Que aberração! Que aberração! - o Rei gritava enquanto seus súditos me prendiam em seus abraços opacos e arrepiantes - Olhem que humilhação, que tonteira! Uma grande sombra se rebaixando perante um homem qualquer! Vamos meus amigos, vamos libertar este companheiro de sua prisão de carne. Tragam a faca!
- A faca! A faca! A faca! - cantavam as sombras-não-mais-gêmeas, dispostas a me matarem para que Kras se unisse às suas legiões. E não vou dizer que este foi contra, afinal, como ele disse, sua natureza traiçoeira não era contornável.
O Rei das Sombras, segurando em suas mãos uma reluzente faca de prata, cresceu e mutou em um monstro pluriforme, de vários braços e olhos sombrios, pronto para dilacerar o intruso que era segurado contra uma parede de terra. Ele que viesse! Já segurava em minha mão o pote-estrela com sua magia, e me preparava para joga-lo sobre o monstro. Talvez não funcionasse - o Rei estava forte e poderoso naquele momento - mas era minha única chace de sobreviver!
Já levantava as mãos segurando o recipiente de vidro quando um grito interrompeu e silenciou o ritual macabro:
- Parem!
As sombras arfaram de surpresa, olhando para onde Penélope estava de pé, sozinha no salão. Tanto Kras quanto o Rei permaneceram impassíveis, este último ainda me segurando firme contra a caverna com um de seus múltimplos braços.
- Não Penélope! eu gritei.
A garota andou até o Rei e ordenou a ele "Solte-os!". Era preciso coragem - devo admitir - para ordenar ao monstro o que quer que fosse.
Foi com uma gargalhada cruel saída de suas muitas bocas dentadas que ele respondeu:
- Eu sou o Rei das Sombras-livres! Vivo em meu Palácio subterrâneo com minha côrte, praticando a cada dia atos de vingança livre-arbitráriamente! Ninguém pode me matar: sou sombra - como seu amigo acabou de perceber. Meu trono é uma das portas dos antigos, a Porta da Morte. Vê agora o meu poder? Meu reino é esta caverna de terra, o medo, o sussurro intencionado, o temor do fim, o desespero dos condenados e o oculto por trás dos assassinatos! É isso o que eu sou. E você?, você pode me vencer? Quem é a garota que desafia as sombras-livres?
No silêncio que se seguiu todos rondaram a pobre Penélope.
E ela? Ela olhou para o Rei. Olhou bem dentro dos seus olhos - poços de trevas. A garota versus Sombra-Rei. Encarando-o firmemente ela lhe disse:
- Eu não quero ser quem eu sou. Minha missão ainda não aceitei. Por isso, por explicação, eu digo apenas: Eu sou Penélope Noite.
Como um vento, como um chiado, Rei das Sombras ergueu a faca e condenou sua adversária à morte.
E, como um eco débil de sua irmã, Epolenep gritou:
- Parem!
Desta vez todas olharam surpresas.
- Há uma solução... - começou dizendo a sombra-irmã. Ah! Aquela bruxa, aquela monstra! Certamente planejava algo... - Proponho, me escutem bem, uma troca. Talvez o Rei concorde. - e, se aproximando teatralmente do centro do salão, expôs seu plano - Talvez possamos deixar os dois humanos escaparem com vida. Para isto basta deixarem algo para trás. O que proponho, meu caro Rei, minha querida Penélope, é o seguinte: se nós duas nos separarmos e deixarmos de ser irmãs, vocês podem escapar. Assim todos teremos o que queremos: eu serei livre, o Rei aumentará sua legião e os intrusos ficarão à salvo. O que acham? É um excelente trato, não é?
- Maldita sombra interesseira! - gritei com fúria, fazendo apertar o abraço aprisionante das sombras - Era isso o que queria desde o princípio! Foi por isso que nos trouxe até aqui, não é mesmo, criatura do abismo? Sombra maldita! Monstra! Não acredite em uma palavra do que ela diz, Penélope.
- Devemos admitir irmãozinho - disse Kras seriamente - que estamos sem opções. Epolenep parece oferecer a única saída. Mas será seguro confiar nela?
Olhamos todos para Penélope, afinal, era sua a decisão:
- Você me ensinou bem, minha cara sombra-irmã. Mas nem você ou Kras serão libertados. Acho que agora eu entendi, já sei do que as sombras sã feitas. Se por um lado você me trái para unir-se ao Rei, também escuto seus sussurros propondo-me outra alternativa. Eu declino a sua oferta. Vou derrotar o Rei do meu modo.
A esperta Penélope! Será que já esboçava o seu plano àquela altura ou antes mesmo já sabia o que devia ser feito?
Ela estava certa. Sombras são parte de nós. Uma parte escura e sussurrante, muito além de um apêndice removível, que pode atrair ou afastar a morte. Como Penélope mostrou, o faziam ao mesmo tempo.
- Eu quero que vocês dois, Henry e Yrneh - ela disse à mim, usando meu primeiro nome para brincar de inverter - se preparem para o momento certo e usem "aquilo". Sigam minhas indicações.
Segurei firme o pote-estrela e olhamos apavorados, Yrneh/Kras e eu, enquanto a linda e doce garota que acabávamos de conhecer avançava de punho em riste na direção do grande Rei das Sombras.
- Humana! - urrava este, espumando de fúria - Ousa então jogar fora a sua salvação para me enfrentar? É tão fraca como os outros, não vai sobreviver! Você será esmagada pela treva infinita!
- À morte! À morte! - gritava esta, sempre avançando, em língua inventada de medo e heroísmo - Sark, Rosnado, Epolenep!
Um espasmo de fúria percorreu meu corpo e tentei brandir minha espada - Afastem-se de mim, seus seres anômalos e assombrados! Eu tenho que salvá-la! - gritei, erguendo o pote-estrela para o alto.
As duas forças convergiam com rapidez e raiva na caverna. Penélope e sua sombra, bradando gritos desconhecidos, correndo para a boca da fera! A fera escura, feita de sombras-livres mutáveis, crueis e insatisfeitas, prontas para engolirem a garota e soterrá-la eternamente em suas múltiplas escuridões! No momento exato, no clímax do encontro e do choque, Penélope Noite olhou para mim com suas íris poderosas e me ordenou que jogasse o pote de vidro.
As sombras ganem, gritam, guincham e se jogam por sobre a garota, agarrando-a, erguendo, cobrindo-a. Mas esta planejara tudo! Ela move suas mãos de encontro e as separa. As minhas acabam de largar o projétil de vidro quando as mãos de Penélope ordenam que se faça a treva! - em um instante toda a galeria se escurece e mergulha na mais indistinta indefinição!
Na noite eterna não existem sombras. Percebo a genialidade da moça, a extensão de seu poder - e foi neste instante confuso de queda e barulho que o vago sentimento ganhou seu nome de Amor em meu coração. Amor e orgulho. O Rei das Sombras e seu exército minguaram enfraquecidos, mergulhados no escuro primordial, sem luz para definirem-se, sem separação dentro do todo, presas fáceis do feitiço que escapava do pote de vidro. Não existem sombras na noite eterna.
Sinto vultos roçando meu rosto, ouço fantasmas chorando. Um desespero me domina - também eu sumira engolido pela treva? Perdi meus sentidos, onde está Kras? Tateando desorientado chamei por Penélope. Ouço sua voz:
- Você foi preso Rei das Sombras, junto ao seu exército de desejos corrompidos e insinuações perigosas. Por cem anos deverá habitar esta sua pequena prisão de vidro: este é o seu castigo!
Ouço os protestos do rei deposto e busco desesperado pela vencedora deste duelo sobrenatural em meio à sombra que me rouba a capacidade de sentir distâncias ou espaços.
Por fim, esbarramo-nos no meio do nada universal. Ela está no chão, ajoelhada, e chora. Minha querida Penélope! Seguro seus finos antebraços, cobertos de terra e lágrimas. Nossos corpos se abraçam aliviados, não vemos nada, eu tento consolá-la. No meio da sombra silenciosa, cegante e assustadora, sem vontade ou controle, beijamo-nos. Com um ímpeto úmido e desesperado, na treva escura do centro do mundo.

6 comentários:

Charles Bosworth disse...

Ufa! Pronto, o trio inicial de histórias está pronto. Me sinto esquisito ao ler tudo, pois se trata de uma parte de uma parte do Krystalian, sobre o passado do Sark e do Norte. Mas me diverti muito escrevendo sobre a Penélope, personagem que ainda não era muito definida antes disso.

Queria dizer, que achei engraçado a quantidade de blogs com o tema "sombras" ultimamente, ou ao menos com esta palavra em seus posts recentes. Novembro é o mais cruel dos meses?

muriel disse...

Não, Charles. Todo mundo sabe que o mês mais cruel é abril.

E sim, as sombras estão por aí...

Charles Bosworth disse...

Eu sei, estava brincando. Quem diz Abril mora no hemisfério norte, eu estava só sul-hemisferando esta concepção.

Ozzer Seimsisk disse...

A sua visão das sombras, de criaturas traiçoeiras, me assusta. É algo que nunca passaria pela minha mente. Bom... existem muitas coisas que eu nunca pensaria...

Charles Bosworth disse...

Elas não são só traiçoeiras... elas são também... boas. E não. Sei lá, são sombras.

Utak disse...

Não sei, mas gostei muito desse texto :P

Sombras são belas. Você tem uma concepção estranha sobre elas...

Mas, não são apenas sombras...
São singularemente sombras