quarta-feira, março 28, 2007

Começando a sonhar

.
Despertando e O Apresentar dos Signos

Mellock acordou. Foi súbito e intenso como um espasmo muscular. Depois, caiu de costas e tentou descobrir onde estava.
Primeiro sentiu o travesseiro macio adequando-se ao formato pesado de sua cabeça. Ao pensar em sua cabeça percebeu que sentia uma dor tímida porém constante na superfície interna de seu crânio, se isso fosse possível.
Inalou uma vez, tentando não se lembrar de nada. Inalou novamente, afiando sua mente, dirigindo-a para um único ponto: a névoa que a cercava.
Branca. Branca e macia. Gentil. Olhada de uma maneira especial parecia estar se movendo devagar, seguindo um fluxo invisível.
"Infinito" pensou Clara Mellock e deixou-se, aos poucos, se lembrar de mais cosias; sabia que seria muito perigoso deixar voltar tudo de uma vez. Era preciso calma enquanto seu cérebro refazia as conexões conhecidas durante uma vida inteira.
O que era certo?
Seu nome era Clara Mellock. Sua mão esquerda parecia machucada, como se tivesse batido em algo duro. Sua cabeça girava como um colorido carrossel, trazendo imagens desconexas à sua visão.
A névoa servia de anteparo para a sua imaginação: no sépia da neblina surgiu o rosto de um homem mais velho de bigodes cinzentos, uma torre e uma cadeira tão coberta de verniz brilhante que parecia ser feita de prata.
Levantou-se e olhou em volta. Desceu da pequena cama de madeira e resolveu andar um pouco para esticar os músculos doloridos. A dor que sentia podia ser transmitida por um marrom pulsante, que latejava em seu corpo cansado de continuar a seguir. Mellock aventurou-se mais além, querendo saber se a névoa podia lhe dar mais alguma pista sobre as figuras que estava vendo.
Uma mulher de cabelos azuis, um elefante vermelho, um trem que a entristecia e muitas borboletas esvoaçando.
Dentro da quase não-cor da neblina, esses signos misteriosos ofereciam uma rara oportunidade de cor, desconhecida para a paisagem mortiça de luz fraca e pálida. Que lugar seria este? Onde fora despertar?
Andou devagar e sentiu-se boba pelos movimentos que fazia com os braços, como se tentasse afastar uma cortina de neblina para passar.


Brouillard dans les rêves de Clara Mellock


Havia um manto espesso entre ela e a realidade.
Chegou até um lugar que só poderia ser descrito como clareira; era um espaço de grama verde-escura por entre a névoa; o verde era chamativo e contrastava com o seu redor sépia com uma qualidade onírica única. Ela viu, no centro desta clareira, uma mesa pequena de vidro, com um lindo conjunto de porcelana para tomar chá em cima e duas cadeiras tão cobertas de verniz brilhantes que pareciam ser feitas de prata, ao lado.
Ao ver um dos signos de seus sonhos, sentiu-se no lugar certo, apesar da nostálgica sensação de que ainda sonhava, por não conseguir pensar direito.
Sentindo-se tonta, sentou-se em uma das cadeiras belamente enfeitadas e teve a misteriosa compreensão de ter marcado algum encontro, com alguém que logo viria de além da névoa.
O desconhecido iminente assustava-a, vestido de um perigoso escarlate.

O Encontro Começa (ou Continua)

- É preciso aguentar firme e não se arrepender de conhecer o Outro - ela disse em voz alta para se sentir corajosa, como aprendera em suas aventuras. Sua voz ecoou de um modo estranho e abafado no ar diáfano. Para se distrair, tocou a porcelana pintada e serviu-se um pouco de chá. Havia duas xícaras.
Observou a fumaça do calor vindo do chá voar. Ela subia irregularmente, aos sopros, e se misturava à neblina. Tão branca que Mellock achou que poderia usá-la como pano de fundo e invocar qualquer coisa àquela clareira só com o poder da imaginação.
Enfim, uma sombra veio chegando, bem segura de seus passos. Em contraste com o branco, um senhor alto, de nariz pronunciado e bigode cinzento se aproximou da pequena mesa. Ele se tornaria um personagem importante para Clara Mellock nos dias que se seguiriam à este encontro, apesar de terrivelmente ausente.
Muito surpresa pelo súbito aparecimento, Mellock tirou as mãos do colo e levou-as à boca, sob o olhar curioso do estranho. Ele tinha esse costume: um olhar especial, capaz de atravessar barreiras e de perceber coisas escondidas por trás de camadas e camadas de mentiras. Um olhar curioso, que fazia com que tudo fosse igualmente interessante.
- Clara Mellock, eu presumo - indagou o homem sorrindo ao puxar uma cadeira, como se pedisse permissão para sentar.
Ela acenou com a cabeça, ainda atônita por ter visto um segundo signo apresentado pelos sonhos misteriosos.
Ele pegou a chaleira de cima da mesinha de vidro e virou-a devagar, para encher sua xícara - São desenhos muito bonitos - conversou, ao ver que ela admirava a porcelana pintada - Retratam a côrte do rei Kadesh. Veja como ele gostava de mostrar sua riqueza: mandou pintar seus soldados, ministros, filósofos, generais, concubinas, súditos e até pequenos elefantinhos nos pires. Não sei o que este jogo de porcelana faz aqui. Kadesh morreu no seu mundo há muito tempo, sua côrte e seu Império já nem são lembrados e tudo virou pó. Acho que só o que resta é este jogo de chá.
- No meu mundo? - perguntou Mellock - O que você quer dizer com isto?
O homem olhou-a inquisitoriamente. Tinha um sorriso no rosto, como se já soubesse o que iria acontecer e achava graça.
- Meu nome é Tom B., muito prazer. O que quero dizer com isto é... - ele parou para pensar - Você não está no mundo real agora. Não completamente. Digamos que este lugar é um caminho, uma região de transição. Se você seguir adiante chegará até Mnéias, uma floresta perigosíssima. Se voltar, estará em seu mundo, completamente acordada.
- Quer dizer que estou sonhando?
Tom balançou a cabeça sério.
- Sim e não. Temos que dispensar os termos opostos, ou encontraremos paradoxos demais. Vamos chamar isto daqui de "sonhos especial". Este lugar é regido pelas leis dos sonhos, porém duas consciências podem interagir - como fazemos agora, ao conversar - É um sonho, mas se parece com a realidade.
- Isto é muito confuso - admitiu Mellock - Você também está sonhando comigo? E nossos corpos, onde estão?
- Não se preocupe com o seu corpo, ele está seguro. Quanto a mim, moro aqui desde que existo. Você vai ver, temos uma cidade mais para frente, construída ao redor da Torre da Memória. Mas você terá que aprender sobre isto mais tarde, deixe que eles te ensinem. Vamos, por hora, nos ater ao que realmente importa: - Tom olhou ao redor, com suspeita - eu tive um sonho!
Contou como se tivesse contado um grande segredo, sorria excitado diante da nova descoberta. Como Mellock dava mostras de não ter compreendido, ele continuou:
- É que isso para nós é proibido! Nós, os habitantes da Terra dos Sonhos, esta encruzilhada nebulosa, não podemos sonhar, é impossível conseguirmos. Mas um dia me aconteceu! - ele tentava animá-la, se diverta gesticulando - Eu resolvi entender o que tinha me acontecido, a razão de ter sonhado se não podia. Por isso entrei em Mnéias, outra coisa proibida. Sabe o que acontece com aqueles que entram na floresta de Mnéias? São devorados. Por isso nunca entramos lá. Mas eu tinha que ir, você entende? Tinha que buscar meus sonhos perdidos, aqueles que me fora interdito sonhar.
Como o velho Tom pausou sua narrativa para beber chá e observá-la com olhos de gavião, Mellock achou educado perguntar algo e terminar com esse silêncio cinzento:
- E o senhor encontrou seus sonhos?
- Sim, encontrei. E exatamente como você me disse que iria encontrá-los.
- Como eu lhe disse?
- Vejo que você ainda não se lembra. Sendo assim, está tudo certo. Tenho que te dizer que quando entrei em Mnéias - e, veja bem, não fui devorado; entrei e saí - encontrei também o grande Paopolus. Acho que você poderia chamá-lo de kassim, ou deus, da mente humana.
Tom B. olhou-a sorridente, mas sem conseguir esconder em seu olhar um brilho de séria sagacidade.
- E ele me pediu para vir aqui, nesta mesa de chá, e dizer a você, Clara Mellock, que você é agora a Escolhida.
A névoa exalou-se devagar. A mesma névoa que, se olhada de uma maneira especial, parecia estar se movendo.
- Você entendeu tudo Escolhida?
- Não, eu não...
- Sim, sim! Escute bem Clara Mellock, não feche sua mente agora: o Dicionário Botânico, é ali que está. Nosso tempo está acabando, mas eu gostaria de agradecer a você porque agora tenho a resposta para minha pergunta, e acho que isto será importante para Madalena também. Você deve prestar atenção agora: no Dicionário Botânico e também nos sonhos perdidos...
- Não entendo o que está acontecendo - assustou-se Mellock, suas mãos tremendo - Acabei de chegar aqui, não sei que lugar é este ou quem é você?
- Tudo ao seu tempo - disse Tom segurando suas mãos enquanto a névoa o cobria inexorável, devorando as poucas cores que tinham sobrado no mundo - Preciso te pedir um favor, uma missão: ajude-me Escolhida. Ajude-me a encontrar o que eu sei agora. Por favor, você precisa ser forte. Minha cara, há tanto para dizermos, mas o próprio Paopolus me avisou que não existiria tempo, e que certos elementos você teria que descobrir sozinha. Então, prometa-me que me ajudará a procurar.
- Eu prometo - disse Mellock, sem saber em que bruma entrava, em que tipo de segredo teria que se basear e onde procurar o que nem sabia. Mas antes que pudesse dizer algo mais ao velho Tom B., uma luz brancoamarela-e-pouco-preta brilhou e apagou em sua mente, fazendo tudo sumir.
De repente o preto, onde nada mais havia. Ela navegou no escuro e no vazio, deixando-se cair no receptáculo do vácuo.

* * *

Outro Despertar, muito mais Assustador


Mellock acordou. Foi súbito e intenso como um espasmo muscular. Depois, caiu de costas e tentou descobrir onde estava.
Primeiro sentiu o travesseiro macio adequando-se ao formato denso de sua cabeça. Ao pensar em sua cabeça percebeu que sentia uma dor tímida porém constante na superfície interna de seu crânio, se isso fosse possível.
Inalou uma vez, tentando não se lembrar de nada. Inalou duas vezes, com a certeza de que havia algo a ser lembrado, porém não agora. Inalou pela terceira vez, afiando sua mente, dirigindo-a para um único ponto concreto: a névoa que a cercava.
Branca. Branca e macia. Olhada de uma maneira especial parecia estar se movendo devagar, seguindo um fluxo invisível.
"Repetição" pensou Clara Mellock e deixou-se, aos poucos, se lembrar de mais cosias; sabia que seria muito perigoso deixar voltar tudo de uma vez. Era preciso calma enquanto seu cérebro refazia as conexões conhecidas durante uma existência inteira.
O que ainda estava certo?
Seu nome era Clara Mellock. Sua mão esquerda parecia dolorida, como se tivesse dormido sobre ela a noite inteira. Sua cabeça girava como um barulhento carrossel, trazendo vozes desconhecidas ao seu pensamento.
à distência:
- Mais mel para os elefantes reais.
um pouco mais perto:
- Cinco garças voam, contemplando seu lindo cabelo real.
quase audível:
- Vamos à alta torre onde os sapos cantam?
Agora os sons se tornavam mais coerentes, e uma conversa chegou até o lugar onde Mellock estava deitada, só escutando.
- Ela vai ter que ficar aqui. É só o que temos, nunca construímos uma prisão.
- Nunca precisamos de uma, isto é certo!
- Quando menos esperávamos algo aconteceu. Quem diria?
- E onde deixaremos os outros forasteiros enquanto não acordam?
- Vai ter que ser aqui também. E se um deles for... vocês sabem, se ele... Aí teremos que construir um prédio novo.
- Mas quem diria, nós que nunca precisamos!
- Madalena saberá o que fazer. Ela conhece bem forasteiros.
Cuidado, nada de pular para conclusões quando ainda não se tem as perguntas certas. Mellock acaba de ser feita Escolhida, a história apenas começa - vamos seguir com cuidado as pistas antes de tentar decifrar o enigma. Vamos criar um enigma antes de decifrar. Por hora só temos poucos signos para nos ajudar: um elefante, um homem chamado Tom de bigode cinzento e uma cadeira (ou duas) tão coberta(s) de verniz que parece(m) ser feita(s) de prata. Outros signos se apresentarão em breve. Vamos escutar o que as vozes tem a dizer (dessa vez, as vozes vêm de muito perto, de um ambiente seguro e conhecido dentro do sonho):
- É Mellock! Eles a trouxeram também. Está dormindo como Myshba e Haccu.
- Espero que nos tirem logo daqui; falam que haverá um Tribunal. Queria saber que lugar tenebroso é este.
- Estamos sonhando?
- Acho que estamos. Mas como duas pessoas podem sonhar juntas?
- Tenho consciência de que sou Karyn e estou certa de que existo; você também se sente assim?
- Me sinto. Mas você pode ser um sonho que diz isso para me confundir. Como ter certeza?
Mellock se levantou devagar ao ouvir a frase e algo, no fundo da memória, ecoou.
Era o começo do seu sonho.


Mais bruma para a vida da cansada leitora


Uma pequena borboleta pousou no vidro do quarto onde estava. Karyne e Neyleen, acordadas, conversavam. Myshba e Haccu dormiam. Clara Mellock pousou a mão sobre o vidro, no ponto exato em que - do outro lado da superfície transparente - estava a asa violeta da borboleta. As duas conversaram sem palavras, prevendo-se futuros cheios de distúrbios e sonhos enigmáticos.
Já velha, Mellock nunca imaginara aventurar-se. Sonhou e desejou e pediu a vida inteira. Porque agora, que se preparava para o mistério maior da morte, era atendida? Sentiu um enorme cansaço pela vida, mas uma inércia maior a afastava do sono profundo. Sempre quis estar aqui, contra uma janela incolor, não-tocando uma borboleta cálida.
No entanto, mesmo agora, não estava.
De tanto ler, sua cabeça estava sempre em algum outro lugar. Entendia demais, por isso os caminhos nunca eram percorridos: sabia o que a esperava. Sabia sempre de tudo. Poderia, muito inteligentemente, adivinhar o que lhe aconteceria como Escolhida, que lições deveria aprender; desejava então a ignorância da jornada inocente, a pureza dos que não sabem que existem caminhos. Um pouco mais de aventura-sem-saber, sempre desejava Clara Mellock.
Então, deve ter sido para compensar que Paopulos deu-lhe uma jornada com tanta bruma e borboletas.

3 comentários:

vivi disse...

Charleeeeeeeeeessssss

Você está na minha casa AGORA.

HAHAHA

Lobz disse...

Aaaah! Legal! Entendi tanta coisa agora!! E não, também! Vamosmaisadiante, aonde a bruma se adensa!

Charles B. disse...

Vivi engraçadinha...
É engraçado construir histórias.