segunda-feira, maio 14, 2007

O Mistério da Máscara Javanesa - Parte 1


Desmond H. entrou na sala escura e aspirou os fortes aromas de tabaco e de sangue espirrado sobre o carpete. O inspetor da polícia estava ali. Um homem gorducho, já se encaminhando para a aposentadoria, com um senhor bigode cobrindo grande parte do rosto em tufos cinzentos de autoridade e cinismo. O inspetor era o tipo de homem que vira demais: conhecia cada detalhe sórdido do mundo e mal podia esperar para se mudar para uma ilha paradisíaca qualquer e se dedicar à sua plantação de batatas. Se ainda não o tinha feito era porque, no fundo, amava seu trabalho.
Desmond H. também. Curtia cada fétido e deplorável instante de seu trabalho como detetive; adorava entrar nas casas dos outros em busca de respostas, em busca dos segredos ordinários que as vidas do subúrbio são tão boas em esconder. Mas naquela noite o caso era diferente. Era coisa cerebral, material de trabalho para aqueles detetives dos romances ingleses: Agatha Christie e tal; ordem e método. Desmond odiava os casos em que tinha que pensar muito; se não conseguia diferenciar o culpado dos outros com apenas uma olhada já achava muito incômodo e desperdício de seu tempo. Acreditem, Desmond era o tipo de cara que podia diferenciar um bastardo de um assassino das outras pessoas (não que os outros não fossem bastardos também, mas Des conhecia os tipos diferentes, sabia quais eram os que iam a fundo e apertavam o gatilho e quais paravam antes da curva final) - ele era bom, muito bom no que fazia.
- Temos os suspeitos na sala ao lado - disse o inspetor. Ele tinha algo de diferente hoje. Parecia.. sorridente. Desmond não pôde deixar de sentir um leve arrepio com isso; esse caso estava ficando mais desagradável ainda - Parece que estavam dando uma festinha na casa e, quando ninguém estava olhando, algum espertinho resolveu estourar a cabeça do anfitrião.
A massa de sangue e carne espalhada no tapete central deixou Desmond levemente nauseado.
- Alguma gracinha? - o detetive perguntou, olhando para a misteriosa máscara javanesa posta sobre o rosto do falecido.
- O assassino deve tê-la tirado da parede - confirmou o inspetor, coçando seu bigode cinza - Lord Hugo tinha uma coleção de máscaras muito bonita. Dizem que andou viajando pelo mundo atrás de novas aquisições... Você sabe, depois que ganhou na loteria.
Então o caso tinha um motivo, pensou Desmond. Um ricaço cheio da grana, que passa seus dias em selvas tropicais atrás de máscaras exóticas para pendurar nas paredes de sua mansão em Dorcester; motivo? Herança era sempre a primeira opção.
- Quer dizer que Lord Hugo era um homem de sorte?
- Não me diga que você não ouviu falar disso - espantou-se o inspetor, erguendo suas também espessas sombrancelhas - Aconteceu há apenas quatro semanas e saiu em todos os jornais! Parece que, pela primeira vez na história de Dorcester um homem acertou todos os númerosa da loteria. Lord Hugo ganhou tudo, ficou milionário do dia para a noite.
- E quem é que gostaria de ver esse sonho terminado?
- Parece que tudo foi tão rápido que ele juntou mais inimigos do que amigos no processo. Você sabe Desmond, o de sempre: pessoas que achavam que mereciam uma parte do dinheiro, pessoas que apareceram de repente querendo ajudá-lo. Ah sim, provavelmente você gostaria de ver os supeitos.
Desmond sorriu. Chegava sua parte favorita da investigação. O inspetor o levou a uma sala ao lado, enquanto explicava:
- Como já disse, o morto estava dando uma festa particular. Convidou quatro amigos para passarem o fim de semana. Pelo que contaram nos depoimentos iniciais, um deles acabou chegando no segundo dia, mesmo sem ser convidado.
- Quem sabe se sentiu por fora e veio visitar o seu grande amigo - sorriu Desmond. Estava interessado nesse intruso impertinente.
- Podemos dizer que ficaram na casa apenas Lord Hugo, os cinco convidados e o mordomo James Ford.
A cabeça de Desmond ocupou-se de vários devaneios, tentando desvendar o dito popular que prega o assassino como sendo sempre o mordomo. Seria um caso interessante, sem dúvida.
O inspetor conduziu-o pelo hall em direção ao salão. Assim que entrou, o detetive observou cuidadosamente todas as seis pessoas presentes. Algumas viraram a cabeça curiosamente em sua direção, outros permaneceram em suas poltronas com cara de enfado. Desmond prestou atenção ao mordomo James, encostado em uma parede, e nas duas damas sentadas no chaise-longue.
- Estes eram todos que estavam na casa durante o fim-de-semana? - perguntou em voz baixa ao inspetor - Ninguém mais poderia ter entrado?
- Negativo - confirmou o inspetor, silencioso - Defenitivamente um deles é o assassino.
Desmond sorriu e olhou-os firmemente. Observou com cinismo um homem jovem, músico sem dúvida, conversar impaciente com um policial.
- Aquele é Charlie Pace, antigo violinista da orquestra de Dorcester, atualmente anda por aí sem emprego - explicou o inspetor - Era um grande amigo de Lord Hugo. - adicionou, como um motivo de inocência.
- Se eram tão amigos, talvez seja aqui que ele arranjava dinheiro para financiar seus vícios. Um músico aposentado com olheiras tão grandes? O cara é um vagabundo maior, pode ter certeza que nunca deu duro na vida.
- Mas é o assassino? - perguntou ansioso o inspetor. Desmond negou com a cabeça e se virou para o outro lado do salão. Observava agora as duas senhoras - São Lady Littleton e Miss Austen. Não há muito o que contar sobre elas, parecem inocentes.
Desmond sorriu apenas, observando os movimentos que Lady Littleton fazia com o leque para se refrescar. Nada era simples, ele parecia dizer.
- Aquele ali é Jack Sheppard, um médico das redondezas. Atendia sempre Lord Hugo toda vez que ele tinha seus ataques de pessimismo e tristeza; infelizmente ele era muito supersticioso e vivia assustado, talvez por causa do dinheiro da loteria. E aquele é John Locke.
Desmond virou sua cabeça para o homem careca na janela. Parecia tranqüilo e quase sorridente... A escória humana, pensou Des; seria ele capaz de assassinar e sorrir depois? Não, ele não podia definir. Eram todos atores muito bons, ou então inocentes. Desmond não queria acreditar na inocência; procurava sempre ver o pior nas pessoas, era quase um vício.
Não conseguira descobrir o assassino ainda. Isto o preocupava, deixava-o tenso por ter que resolver o caso do modo normal. Desmond odiava quando sua intuição o deixava na mão.
Olhou para o inspetor cansado.
- Vamos começar este caso então.

6 comentários:

Utak disse...

iraaaaaaaaado!!!!
escreve mais!!!!!
quero saber o resto!

Giulia T. disse...

plantação de batatas, mordomo James...hahahahah
"em busca dos segredos ordinários que as vidas do subúrbio são tão boas em esconder" - eu não sei de nada disso.
Muito bom!

Pioux's disse...

muuuuito show
realmenteeeee!!!
interrogue os suspeitos! veja as pistas!
vamos lá =D

Muriel A. disse...

gostei do detalhe grotesco da máscara javanesa...

e como você gosta de Lost, hein?

Charles disse...

E como você sabe disso?

Muriel A. disse...

bom, vc já tinha me dito... mas acho que os nomes dos personagens são pistas suficientes!