quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Noite de firme Luar

Ontem à noite fiqui pensando no quanto as fantasias morrem com o tempo.
E em histórias de famílias, e em escrever usando outras partes do meu corpo.
Chove agora. Tinha me esquecido de como isso era bonito. Acredito que um contato maior com a naureza é do que precisamos, ou ao menos, do que preciso.
(novamente meu coração pula e acompanha a música para um lugar distante)

Sound of the Wind

(Sou feliz ao seu lado)

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Ah, sim

Bom, me senti na obrigação de escrever um post sobre o carnaval. Qualquer coisa pelo menos sobre o sol e o mar delicioso, ou então - isso não podia ficar de fora - alguma referência sobre o Trovão... (alguém mais "escutou" o Artur falando "eu odeio vocês" daquele jeito dele?).
Sem falar que nós velejamos! Um dia, né? Um dia a gente encontra um barco para passear por aí.

Amanhã começam as minhas aulas (finalmente!) e isso me deixa feliz da vida. Ah, que clima agradável de calmaria! Mal posso esperar para voltar à faculdade e viver um pouco mais de cor.

(Li muito mangá hoje, estou meio zonzo.... Ah, sim, eu também assisti a Piratas do Caribe 2 e resolvi algumas coisas sobre a história da Mizudinie, mas isso não é interessante.)

P.S. - Escutem essa música. Se chama Across the Divide.
P.P.S. - O post abaixo é novo, tá? Eu sei que ele se parece muito com o anterior (o mais abaixo ainda), mas é outro. Achei bom avisar...

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Penélope - cinco

O Festival de São Bartolomeu será daqui a três semanas. Senhora Cassandra já me pediu para juntar as bandeirolas que as mulheres costuram e espalhá-las pela cidade. Ela diz que assim as pessoas terão uma chance de me conhcer melhor e, quem sabe, pararão de suspeitar da estrangeira misteriosa. Não quero montar as bandeiras, porque não sei onde colocar tudo isso e tenho vergonha de sair por aí pondo coisas nas casas dos outros. Mesmo que aquela garota filha da vizinha me ajude, não acho que isso irá melhorar o modo como as pessoas me encaram ou fazer minha aflição e medo de estar sendo vigiada ir embora.
Nada disso vai embora. Acho que isso é para sempre então. Devo me acostumar com a pequena cidade, mesmo que ela nunca se acostume comigo.
(Aliás, tenho medo de que o velho que sempre carrega uma vassoura esteja na verdade me espiando. Não duvido que se ele subesse quem sou me entregaria sem hesitar para os homens da Torre Negra. Detesto aquele velho ranzinza, assim como detesto não saber o que vai me acontecer. )
É por isso que vou para a lagoa olhar os patos. Já são meus amigos e conversam comigo. Todo fim de tarde - ou Crepúsculo - saem da água e caminhamos juntos pela grama enquanto ainda se pode ver. Acho lindo ficar vendo as coisas perderem sua nitidez e as sombras se esticarem espreguiçosas. Por isso acompanho os patos caminhando no quase escuro em seu quase-desengonçado passo, vendo o céu se tingindo de explosão para depois cair em escuridão azul e preta. Quando caminho pela relva nessa hora do dia, meu coração hesita em resistir, pensando em cada coisa pequena e bonita que existe no mundo; sonho em sobreviver somente no Crepúsculo, e dormir o resto do dia. Só assim eu pararia de chorar toda noite por não ser não ser não ser.
Mas o festival está tão perto. E a iminência do dia de São Bartolomeu me deixa mais contente por ver em todos os rostos a alegria de uma criança.
Busquei a água no poço novamente e conversei com as crianças que brincavam ali perto. Elas me disseram que brincavam de "Pássaro Negro", um jogo cheio de corrida e esconder. Sem pensar, achei que estava vivendo aquele jogo; por um instante minha vida se tornou o desafio do pequeno pássaro negro, de escapar e não ser visto.
Chorei debaixo de Sem-Nome pensando nisso. Pensando em como poderia ser livre, em qual abandonar me levaria à liberdade? qual impulso de escolha eu teria que seguir para chegar ao lugar onde terminam todas as coisas?, em como queria abrir minhas asas e sair dali, para - quem sabe, por que não? - conhecer o mar que eu só havia imaginado.
Um melro tinha seu ninho na árvore Sem-Nome. Eu podia vê-lo depois que os coelhos iam dormir, pois era essa hora que ele cantava. Eu caminhava com os patos pela relva e voltava para a árvore para ouvi-lo cantar. Corria então até a casa de senhora Cassandra e chegava cansada no momento em que o jantar era servido. Adoro a sensação da roupa chacoalhar e voar equanto corremos. Adoro passar correndo pela grama e levantar insetos assustados, com a música do melro preto ainda na cabeça e lembrando de como os patos suportavam o clima frio. Eles migram para longe, sabia? Voam em bandos para os outros hemisférios e conhecem partes do mundo banhadas em sonho e magia. O cheiro da noite era complexo e múltiplo, e me fazia querer correr mais ainda, para tentar alcançar as estrelas.
Dentro de casa o cheiro era outro: as mulheres tentavam esconder o odor da comida para não provocar mais fome do que já tínhamos. A guerra deixava pouca coisa em nossas mesas e não era raro jantarmos e almoçarmos apenas pão, comendo os nacos que nos cabiam com avidez. Estranhamente talvez, não me sentia triste ou injustiçada, já que acabara de alimentar os coelhos, caminhar com os patos e escutar o melro cantar, e me considerava satisfeita. No dia seguinte faria o mesmo, e assim por diante até que fosse feliz. Minha nova vida em meio à natureza me dava sempre alma nova para sorver e as palavras me enchiam de vontades no crepúsculo; se tudo continuasse assim, eu seria muito grata ao mundo por poder me colocar em um lugar onde podia ter sempre novas sensações de estar inteira.
Mas à noite pensava. E todo o esforço em busca da felicidade que tive durante o dia sumia como pó. Pensava e pensava em tudo o que não era cheio, em tudo o que me faltava e concluia que sentia que precisava de uma vida. Uma vida nova com menos dores de não querer mais estar aqui, menos querer coisas que sempre estão além. Mas quem disse que as mulheres ganham novas vidas?. A dor voltava sempre, e não deixava de pensar que falhei em ser esposa e escolhida, em ser uma cidadã ativa e uma pensadora; no final das contas nunca existia uma Penélope, era sempre um não-alguma-coisa que sobrava. Será que o tempo cura mesmo nossas dores? Sentia tanta falta de Sark quanto no primeiro dia. Os nossos cortes internos podem ser remendados e curados? Quando será que poderei ser sem-dor de novo? Algo dentro de mim me diz que nunca superarei as feridas enquanto ainda esperar. Se Henry fosse morto, seria mais fácil, mas como em algum momento espero que ele volte, eu crio expectativas que são sempre destruídas, e isso irá continuar acontecendo até o final de minha vida, se eu não perder a esperança, essa coisa estúpida, que me faz continuar querer, quando na verdade tenho que viver nessa cidade e matar meus sentimentos para não sentir mais dor.
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"Quando você vai parar de subir à colina e chegar atrasada para o jantar?" me perguntou senhor Marco um dia, enquanto cuidava do balcão. Ele achava que estava perdendo grandes oportunidades de me envolver com as pessoas da região e fazer amigos.
Cidade idiota. Não quero nenhum amigo. Quanto menos souberem de mim, melhor. Pois aí nunca saberão quem sou. Isto é... se eu for mesmo a Escolh- . Quero dizer, o que foi que eu fiz nesse sentido? Além de trabalhar no armazém do senhor Marco e subir na colina verde para olhar o lago não fazia mais nada em minha vida. Quem era eu? Ótima pergunta, pena que não havia nenhuma ótima resposta para os céus me darem.
"Gasto meu tempo lendo todos os livros que o senhor me emprestou", eu menti. Lia os livros durante as noites febris de insônia, que não eram poucas. Mas sabia que se o senhor Marco achasse que estava lendo livros ele me permitiria ficar sozinha.
Já a senhora Cassandra entendeu que eu precisava de um tempo calmo para mim mesma. Só que a solução que inventou foi a pior possível: pensando que o tempo que eu passava sozinha era tempo desperdiçado em reflexões tristes que só me deprimiam, me colocou para costurar junto com as outras moças. Pelo contrário! Se ela me ocupasse as noites lhe seria eternamente grata, mas tirar de mim os passeios até a colina e o lago dos patos era terrível. Teria que passar quatro tardes da semana costurando roupinhas de bebês e lençóis para os recém-casados. Àquela altura, já não aguentava mais ver a vida na cidadezinha se repetir: era sempre alguém que se casava ou tinha filhos ou o filho de alguém se casava ou algum casal era filho de alguém que se casou. As fofocas que contavam as velhas moças eram sempre as mesmas. A odiosa dona Hortênsia sabia que eu não tinha habilidade para costura e logo me deu um trabalho difícil para me ver falhar e poder repreender-me com sua voz nasal. Meu Deus! Há algo maior do que isso?! Tem de haver uma vida mais interessante e cheia de cor no universo em que vivemos! Por que ninguém vem me resgatar? Onde você está Sark?! Por favor, por favor, por favor, me salve.
À noite senhora Cassandra pôs minhas mãos na água quente para ver se melhoravam dos machucados. Senhor Marco foi gentil e me deu uma pasta que tirara do prórpio armazém. Os dois tentaram me econrajar e disseram que eu acabaria sendo melhor. "Você ainda tem muito tempo livre, pode praticar sua costura quando quiser" me disse Cassandra com bondade. Expliquei para eles que o queria era justamente poder experimentar a natureza que morava na colina e passar o tempo sozinha, comigo mesma. Não era um tempo de tristeza, contei ao senhor Marco, pelo contrário, era minha parte favorita do dia: vê-lo sumir aos poquinhos e respirar seu cheiro quando virava noite.
Cassandra me permitiu subir à colina quando quissesse. Mas teria que costurar algo, mesmo se fosse lá em cima, já que o festival de São Bartolomeu se aproximava (eu me perguntava se este seria o grande evento social dali) e as velhas damas estavam sobrecarregadas e precisando de ajuda. Coube a mim costurar a fantasia de minotauro, feita de couro simples e um pouco tosco. Era claro que nunca seria a fantasia mais bonita: era esse o modo de dona Hortência fazer com que eu continuasse desapercebida, costurando uma fantasia insossa e inútil. A inveja dela me deixou mais tranqüila: o que não queria mesmo era ter a atenção da cidade, embora, por outro lado, eu secretamente desejei costurar a fantasia de Arlequim, dourada e brilhante.
Cassandra me ensinou bastante, e eu realmente pude aprender praticando sob a árvore, enquanto alimentava os coelhos com cenouras roubadas da despensa.
O melro, o belo pássaro negro que cantava para anunciar a noite, apareceu com dois ovos no ninho. E assim tudo continuava sem mudar. Minha vida parecia ser feita de intensas interrupções e longos períodos de calmaria: grandes baques como conhecer Sark, ser feita Esc- pelos deuses e fugir da casa de Estafansa eram sempre seguidos por períodos de vazio e de uma calma inquieta.
Por quanto tempo continuaria isso? Queria poder ler o futuro e saber se durariam anos ou semanas. Me atormentava pensando que Sark poderia estar, agora mesmo, ali na cidade, procurando por mim.
Me doía imaginar certas coisas: que ele nunca iria voltar; que ele veio e nos desencontramos; que cartas suas foram barradas ou extraviadas; que os peixes de minha antiga casa estavam agora todos mortos, já que ninguém os alimentava havia meses; que as escadarias do Panteão em Estafansa- lugar onde gostava de tomar sol quando menina - estavam sendo tomadas pelos exércitos da Torre Negra; que aquele homem terrível que comandava toda essa guerra assustadora e que aparecera um dia no portão lá de casa sabia onde eu estava..

sábado, fevereiro 10, 2007

O Exílio de Penélope

Penélope todo dia ia ter na colina verde, um pouco longe da cidade. Assim que terminava os afazeres com senhora Cassandra ia passear sozinha por entre os arbustos ou sentar-se sob a árvore que chamara de Sem-Nome. Era a única árvore na colina, e sua copa frondosa oferecia um abrigo deliciosamente calmo, já que ali podia ouvir os pássaros cantando ou ver as formigas atarefadas. Penélope dizia que a melhor coisa para se fazer quando não se queria fazer nada era observar formigas e vê-las tão concentradas em carregarem o precioso grão de açucar de um lado a outro e formarem filas metódicas e organizadas que as permitia ir de um lado a outro do campo. Constantemente a moça se surpreendia com a engenhosidade desses animais, mas se cansava muito rápido também, vendo os problemas das formigas como algo que a entristeciam, pois pensava que os próprios problemas deveriam ser problemas de formiga, no entanto sofria tanto por eles que se sentia tonta e presa e por isso decidia parar de olhar as formigas ou pensar em Sark e resolvia sair dali para olhar o lago.
Com muito mais prazer ela observava os patos deslizando. Gostava da cor de seus pescoços, um verde brilhante, e achava linda a sua plumagem marrom-e-branca. Os patos sempre a acalmavam, já que faziam sua mente deslizar pela superfície da lagoa plácida. No caminho da volta sempre parava para colher amoras. Arregaçava o vestido e subia em uma árvore para descer quinze minutos depois toda lambuzada e feliz. Levava sempre um punhado para a senhora Cassandra como agradecimento e se encantava com o simples prazer de ver o dia morrer. Não havia coisa mais misteriosa para Penélope do que aquele momento em que o dia já se foi, mas a noite ainda não chegara. Era o momento em que tinha que parar de ler pois não enxergava mais as letras impressas no livro, mas podia muito bem admirar o rosado-alaranjado do céu. Quando, pensava Penélope, o dia acaba e a noite começa? Onde fica a linha divisória que determina a mudança? Ela pensava neste momento do dia como uma fase independente, nem dia nem noite, chamada Crepúsculo. Mas ainda assim o problema persistia: onde começava e acabava o Crepúsculo? Qual momento dividia exatamente os momentos?
Um dia doeu-lhe tanto o peso de sua vida que resolveu atrair os patos para ver o quanto confiavam nela. Levou alguns biscoitos para a lagoa e secretamente - pois escapara furtivamente em um momento em que ninguém mais precisava dela - jogou os biscoitos na água para ver se atraía os patos listrados. Pensou que viriam correndo para comer em sua mão, mas acabaram ignorando totalmente o alimento jogado. Penélope se sentou triste na pequena ponte que cruzava a ponta da lagoa e colocou os pés descalços na água. Pensou em como era covarde e triste. Em como deveria estar em algum lugar fazendo alguma coisa ou em uma aventura terrívelmente emocionante talvez para salvar o reino que caía, mas nada. Estava ali, escondida e triste, pensando que nunca mais seria feliz - e poruqe havia de ser? Por acaso merecia felicidade?
Penélope Noite nunca responder ao seu chamado e se sentia culpada por tudo o que acontecia. Talvez por isso fingia estar com sono e ir dormir toda vez que senhor Marco dava notícias de Estafansa e da guerra que se desenrolava. Ou foi por isso que duas vezes fugira para os fundos do armazém para não ouvir um freguês comentar sobre a Torre Negra.
Muito triste se dirigiu à árvore Sem-Nome da colina verde. Quando estava quase chegando viu um movimento de animal próximo à ela, chacoalhando a grama e fugindo para a direita, onde não poderia mais ser visto. E esta foi a primeira vez que Penélope conheceu a família de coelhos selvagens que moravam ali.
Uma vez surrupiou um pote de mel do armazém, com a desculpa de que depois pagaria, e levou até a árvore para comer. Deixou um pouco no chão para as formigas, desejando estar fazendo uma boa ação. Queria que os deuses fizessem o mesmo com ela: que jogassem um pouco de seu mel para a pequena humana lá embaixo. O problema é que os deuses nunca fazem nada por bondade apenas, e Penélope continuou abandonada no mundo. No entanto, o mel que a humana deixou cair atraiu os coelhos. Estes sim se aproximaram dela sem medo e comeram próximos à sua mão. Penélope ficou tão feliz com a confiança que os pequenos roedores lhe davam que prometeu trazer sempre algo para eles comerem. Senhor Marco nunca percebeu que as cenouras começaram a sumir; afinal, nem ele nem Cassandra gostavam muito de cenouras, então, para que a preocupação?
A vida ali continuava devagar. Se pudesse sobreviver às noites, Penélope pensava consigo, poderia sobreviver à tudo em seu exílio. Se pudesse sobreviver às noites solitárias e imaginativas, onde sonhos não realizados tomavam o lugar de sua vida real e a faziam preferir a morte, sobreviveria à falta que sentia de Sark. Isto é, se ele algum dia voltasse.
Os patos listrados de lindos pescoços verdes eram os únicos ali que concoradavam com ela, e deslizavam calmos na lagoa como se dissessem "sim Penélope, ele vai voltar".

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Volume 29 - Oratório


Tenho muito mais medo do Enel agora. Quer dizer, alguém já reparou nas orelhas dele? Espero que a Conis possa avisar todo mundo do plano terrível, mas vendo pela idolatria que o povo do céu tem por Deus, acho que ninguém vai acreditar nela. E a Robin vai encontrar o raio do sino de ouro? Oh, que curiosidade... E o Ruffy vai sair de dentro do monstro frito?
Afinal, aquela cobra cresceu ou não? É bem possível, já que é comum o desenho de personagens mudar ao longo da publicação, principalmente de um mangá tão longo quanto One Piece. Quer dizer, vocês já reapararam no Usopp?



"Cerremos nossas bocas e guardemos a verdade em nossos corações, pois somos aqueles que tecem a história".
Boa sorte para todos aqueles que sobrevireram até agora.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Os sonhos de Clara Mellock - O Palácio Oceânico

Rebena Te Ra

Estava conversando quando o vi pela primeira vez. Parei de escutar as vozes na sala para assitir à luz que piscava no céu.
Meu corpo ficou leve e flutuou para cima, na sua direção. A enorme estrutura ia crescendo e crescendo de tamanho, revelando construções metálicas e lisas: era perfeito: a maior e a mais terrível criação da Humanidade, moldada a partir do vazio e das intenções.
Seu interior era repleto de salas, colunas, pátios e máquinas orgânicas complicadas e moventes. Monstros habitavam seu interior: eram parte de toda a super-estrutura que compunha o Palácio Oceânico. Os desejos e sonhos dos homens eram usados ali: sua força era revertida e fazia a máquina andar pelo céu. Os pesadelos e medos também: todos tinham uma sala no Palácio, todos eram energia captada pelas forças que operavam em seus mecanismos. Eram forças antigas, da época da criação do mundo, sendo controladas pela novidade que os homens impunham.
Depois que os antigos abriram as portas para os outros mundos, seu poder chegou ao limite. A barreira final, o limiar do Poder Total era precisamente o Palácio Oceânico, a maior das ambições finalmente construída. Na sala mais interior, onde piscavam mais luzes perfeitas e complexas, ficava a maior das invenções: a gigantesca Máquina Coração, feita de uma vibrante pedra vermelha que catalizava sonhos humanos, capaz de alterar a realidade através de intenções. Mnéias me disse que já a vira uma dia: era o centro e a razão de toda aquele Palácio existir nos céus e de todas as construções ao seu redor.
A própria Mnéias tinha uma posição especial dentro do Palácio Oceânico. Ela era a mente humana que fora capturada e subjugada por aqueles homens de uma era esquecida; dentro da estrutura final - como diziam os construtores - todas as facetas do homem eram conhecidas e exploradas, captadas em sua essência e usadas como parte da máquina-mundo-estrutura. Os sonhos desfilavam por caminhos escondidos, a sede de poder habitava um salão imperial revestido de pólvora, os titãs trabalhavam acorrentados nos porões, junto às mulitdões de escravos que eram obrigadas a servir o Palácio.
Mnéias me falou em sonho do horror e da crueldade que os antigos praticavam entre si: aqueles que não eram hábeis em magia ou cheios de conhecimentos era prontamente despachados para os níveis inferiores para trabalharem nas estruturas pesadas e perfeitas. Somente os mais poderosos ocupavam cadeiras no alto do panteão central - eram cinco reis-deuses que conduziam a máquina -, enquanto que milhares de homens e mulheres alimentavam o Palácio de medos, angústias e derrota - sendo, por sua vez, alimento dos monstros e temores que habitavam os corredores maquinares.
Era uma quantidade gigantesca de escravos, me dizia a mariposa Mnéias. Eram mais homens sofrendo nas estruturas do que as pessoas que existem hoje no mundo. Hoje? Que mundo? O Palácio Oceânico comeu o tempo, devorou o espaço e alçou-se ao céu dos anjos. Os homens haviam criado o Poder, criado uma máquina-orgânica feita de vazio e força, criado a Estrutura Final, construído um Anjo! Acabou-se aí a Humanidade, quando todos subiram a bordo, até o céu, até o fim. Superaram a última barreira e ganharam todo o poder do pensamento, do corpo e do espírito. Eram deuses em sua magnífica carruagem tão terrível! A Última criação dos antigos, que despertou a ira dos verdadeiros deuses e desencadeou o Cataclisma pela sua instabilidade no mundo. Logo que o Palácio Oceânico subiu em sua luz impessoal, fogo e água varreram a terra, destruindo o que havia sido criado até então e mudando os continentes.
No centro deste anjo terrível morava a Máquina Coração, feita da miraculosa pedra vermelha, que tantos anos atrás permitira o surgimento do ser humano. Pois então, porque não pegar carona no eterno Palácio e viajar até muito antes? Até o mundo em sua forma primitiva e sem definição, morada de seres e criaturas sem nome algum.
Um dia vemos alguns seres muito pequenos e muito fracos se escondendo em alguma floresta. São tão assustados que fogem ao ver a pedra que cai do espaço. Sonhei com os homens voltando - era a curiosidade agindo - e pegando uma pedra vinda dos céus, uma pedra tão vermelha e tão bonita!, e começando a inventar. Uma coisa diferente se deu aos homens quando tocaram a pedra: eles podiam pensar em coisas que não estavam ali, e durante a noite tinham visões enquanto dormiam. Um homem pensava em coisas que nem sequer existiam e outro inventava coisas que podiam ser. Agora Mnéias e eu vemos surgir a Humanidade a partir da Pedra dos Sonhos que logo seria usada para se conhecer a magia e - tentando fazer com que a magia não se perdesse - para a criação de palavras. Uma espada muito poderosa seria feita desta pedra. Um anel capaz de prender os monstros seria engastado com seu fragmento e seus restos remanescentes iriam construir a Máquina Coração, capaz de transformar sonhos em realidade usando apenas a intenção, formando o que era o cerne do Palácio Oceânico. Vemos agora o fim do homem, o Cataclisma, os escravos morrerem aos punhados, os sonhos escorregarem das estruturas perfeitas e cairem no mundo, os pesadelos voarem livres de suas correntes. O passado foi apagado, o Palácio Oceânico foi arrasado. Nunca mais os homens poderiam construir outro Anjo.
E como os deuses e os outros anjos puderam destruir algo eterno? Talvez o Palácio não tenha resistido a si próprio e fragmentou-se. O que havia com o desejos daqueles cinco homens que sentavam-se nas cadeiras ao lado da Máquina Coração? Como puderam destruir tanto? Foi uma Era que se acabou, um mundo que ruiu. Começaríamos tudo de novo? Um nome... - Schala - , sussurra Mnéias, nos implora através dos séculos para que nunca mais tentemos construir uma estrutura tão perfeita. E quem vai se lembrar do que não existe mais? Os anjos apagaram "Të'r;a., mesmo do passado. O nome do Palácio Oceânico não pode mais ser pronunciado por minha boca.
E porque os sonhos me mostram isso? Não quero mais sentir o horror ou ver as imagens pulsantes das luzes nas estruturas perfeitas, então deixem-me voltar a dormir, que não quero mais conhecer "Të'r;a., , o Palácio Oceânico.

terça-feira, janeiro 16, 2007

domingo, janeiro 07, 2007

O Casamento das Raposas

Quando saímos para velejar fazia um agradável sol. Pouco tempo mais tarde, do outro lado da ilha, ao olharmos para trás, vimos a Serra do Mar no continente sendo tomada por uma cinzenta e enorme núvem de chuva (assim mesmo, com acento). Aos poucos a chuva ia avançando e descendo pela montanha até que não víamos mais a cidade de onde havíamos saído. Sem vento, não restou alternativa senão esperar a chuva de verão nos alcançar. Aos poucos não víamos mais a costa, envolta em uma núvem cinza. Mais aos poucos ainda a chuva caía e nos adocicava.
De um lado, o sol, do outro a chuva. Estávamos no limiar, entre os dois; quase como naquelas cenas de desenho animado: um dos lados era cinza e tempestuoso, o outro ensolarado e azul.
Dizem os japoneses que, em dias assim, as raposas se casam. Parecia um festival das raposas, um grande casamento coletivo. Isso porque a chuva passou por nós e voltou o sol. Navegamos na direção da ilha e voltou a chover com o céu azul. Pouco mais tarde, o sol abriu com toda a sua força, queimando-nos. Mesmo assim, as raposas estavam decididas a se casarem, pois começou a chover mais uma vez, com o céu aberto e azul.
Poucas coisas são tão interessantes quanto a linha tênue que separa a chuva do sol. Não me admira que os animais mágicos escolham este lugar encantado para suas cerimônias.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

pequeno símbolo de uma gota - II

Mizudinie viu tudo ser perdido. Viu a cidade presa e os homens vencidos. Comodoro Francis puxou-a pela corda com que a amarrara. Logo atrás vinha Cleena Tétis, antiga líder e sacerdotisa dos tritões e atual prisioneira demoníaca.
Francis rumava imperioso para seu navio de guerra. A batalha terminara em remorso, com a destruição de Luna pelo terrível monstro marinho e pelos canhões dos navios de guerra.
Sozinha, Mizudinie se viu chorando. Não quis olhar para trás para não ter de suportar o olhar angustiado de Cleena ou ter que ver Sidra caída no chão. Francis puxou a corda com violênica e gritou aos homens do navio
...um milagre!...
Mizudinie rezou por um milagre, mas o céu permaneceu escuro. Agradeceu-se por ter deixado seus amigos em Corália, onde ficariam a salvo. Os tentáculos do monstro arrancavam o telhado de mais uma casa. Mulheres e crianças prisioneiras choravam em fila.
(As lágrimas vertiam-se no rosto da escolhida da Água)
Mas comodoro Francis ria pela sua promoção. Eliminara os demônios, salvaguardara as forças da ordem e do mundo!
Em seu discurso heróico, na direção da prancha de embarque definitiva, honrava-se pela brilhante idéia de seguir a mulher até a cidade escondida dos tritões, agora uma ameaça do passado que-
Mizudinie viu, através dos olhos marejados de lágrimas, um acontecimento lento, como se o mundo tivesse girado devagar. Ela viu Francis se erguer inclinado para trás e cair longe, em meio à fumaça e ao fogo; sentiu em seus ossos, bem lentamente, uma explosão que sacudiu as docas de Luna e atingira a parede de pedra.
Virou a cabeça para trás e viu o comodoro cair em um rodemoinho de fumaça, por cima de barris deixados sozinhos.
Assustada, voltou-se para a frente e viu que o cais de Luna estava sendo bombardeado. Seu primeiro pensamento foi na direção dos navios de guerra que a haviam derrotado. A bordo deles, marujos desesperados pulavam na água, tentando escapar das explosões.
Da neblina mais adiante, algo saía.
Olhou para Cleena Tétis e algo em comum brilhou em seus olhos .
O formato claramente reconhecível de um mastro com velas se mostrou na fumaça branca. A neblina era iluminada por uma série de explosões que vinham de um lugar além da visão de Mizudinie. Comodoro Francis gritava pelo contra-ataque.
Um navio apareceu na noite escura. Outro Francis, outro mundo. A bandeira negra sorriu para as prisioneiras enquanto os navios de guerra eram vítmas dos canhões certeiros dos piratas.
E no convés! - Mizudinie não pôde impedir um sorriso ao ver seus amigos - todos eles - de pé na proa, vestidos como piratas e gritando por ela.
Sentiu sua corda se rompendo pela faca que Cleena Tétis guardara escondida. Gritou de volta pela sua liberdade. As explosões voltaram a ecoar na noite de chuva, o monstro se dirigiu à sua nova presa, o mar gritava pela sua escolhida!
Os piratas haviam chegado!

A escalada

Neyleen apoiou-se no galho maior e alçou-se para cima com a ajuda da pequena Fon.
- Cuidado, por favor; ela pediu. Sua voz era um suspiro no meio da mata.
Colocou as mãos juntas para cima e iniciou a escalada. Os pés seguiram e a elevaram novamente. Aos poucos Neyleen passava de galho em galho até a figura de Fon diminuir lá embaixo e eventualmente ficar escondida pela folhagem.
A árvore rangia e estalava a intervalos curtos. Tudo foi se silenciando e ecoando dentro dela enquanto subia. Como quando cantava, uma paz serena a invadiu e a fez ouvir algo que estava além. Os sons do mundo se abriram para um mistéria diferente que agora Neyleen escutava; era algo puro e intocado da floresta.
Subiu até ficar emaranhada por várias folhas e ramos das árvores menores. Com alguns gestos específicos percebeu que podia mover os galhos para passar. Pedia licença às árvores, no caso de algum espírito estar morando ali. Assim que passava as ramagens se fechavam de novo e bloqueavam o caminho da descida.
Neyleen percebeu que estava exausta. Subir nos galhos a cansara mais do que havia esperado. Sentou-se apoiada no grande tronco e fechou os olhos para prestar atenção aos ruídos que lhe chegavam.
Um tordo cantava ali perto. De outro galho vinha o martelar de um pica-pau. O som do vento nas folhas era diferente ali em cima, mais musical. Sua respiração apressada contrastava com o som sereno da floresta. Neyleen respirou mais devagar, como havia aprendido com Fon, do mesmo modo que fazia para cantar. Escutou os sons que o grosso tronco escondia em sua interior. Ouviu o seu ranger conversando com o vento e o som de algo fluindo em seu interior.
Ela ouviu um esquilo se aproximando antes que ele a visse; o pequeno animal assustou-se com a intrusa e fugiu correndo até outra árvore. De lá, ele espiou-a com interesse brilhando nos olhos.
Neyleen dicidiu continuar a subida. Levantou-se com cuidado e agarrou o galho acima. Percebeu que a claridade aumentava enquanto seguia, e que o vento ali também era forte. Como acabara de chover, toda a floresta se carregava de uma neblina fresca, uma transpiração vegetal que a envolvia carinhosamente. Aquela, ela pensou, era a respiração da mata, era a sua vida se elevando para o céu.
No próximo galho quase caiu. Recriminou-se por estar tão distraída e prometeu que não cairia e que voltaria para Fon lá embaixo. Começou a demorar-se mais, olhando bem por onde pisava.
Com sede e cansada, ela voltou a subir, ouvindo a algazarra de várias maritacas. Quando a viram, voaram todas juntas até a árvore vizinha, rindo alegremente. A neblina estava se desgrudando lenta das árvores molhadas pela chuva. Neyleen achou de uma indescritível beleza ver a transpiração das árvores voando lenta em um rio branco de nuvem. As maritacas cantavam barulhentas ao seu redor.
Os galhos iam se afinando, tornando tudo mais difícil. As copas das outras árvores se espreguiçavam ao sol, contentes. Toda a floresta parecia mais contente, exalando uma sensação de vida exuberante e preguiçosa, como se esticasse devagar os braços para alcançar o horizonte.
Neyleen via muitas aves voando ao seu redor e imaginava a quantidade de criaturas caminhando lá embaixo, sob as folhas. A árvore chegava ao seu fim mas a escolhida continuava a subir compenetrada.
Quando os galhos ficaram finos demais para continuar, ela percebeu o quanto havia subido. Estava agora no topo da árvore e tinha uma visão perfeita de toda a floresta.
Sentou-se no galho e se sentiu perfeitamente confortável.
Podia ver Neru lá de cima, um grande mar verde, vivo e denso. A neblina escapava das copas arborizadas e voava com as aves. Tudo era tão bonito ali. Tudo estava vivo e cantando respirando junto à ela.
Neyleen espiou a serra erguendo-se, os baixios escuros, os grandes olmos, o ondular parado do mundo. Neru, a grande floresta, se estendia para todos os lados. Neru, a grande mata selvagem, parecia infinita, como se constantemente estendendo seus ramos inexoráveis para engolir o mundo e deitar-se sobre ele. Sentada no galho, Neyleen se perguntou se algum dia conseguiria sair dali, do mar verde, verde que se alongava.
Balançou com o vento enquanto via a neblina branca cantar as árvores uma canção viva. Sentiu-se mais feliz do que nunca ao tentar escutar a canção que emanava da floresta.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Uma história verdadeira

Meu pai, quando jovem, foi viajar para os estados unidos, conhecer os parentes e passear. Arranjou emprego em uma fábrica de velas, onde aprendeu a costurar e remendar velas para barcos. Um dia ele foi contratado para levar um barco de Nova Iorque até as Bahamas, para ser entregue ao cliente.
A viagem foi terrível, cheia de tempestades e tormentas, que desestabilizaram os outros tripulantes - um engenheiro elétrico que não conseguiu consertar os aparelhos que quebraram, um capitão meia-boca, alguns marujos e as esposas dos dois primeiros que ficaram doentes por toda a viagem - e assustaram o barco novo. Além do meu pai, só um dos outros marujos sabia como operar uma vela, o que vez da viagem um pesadelo acordado, em que a chuva e o escuro impediam-os de enxergarem perigos ou outros navios que passavam por esta rota. Com o perigo de baterem a qualquer momento, cresceu o nervosismo.
Como se nào bastasse, a tempestade os empurrou para fora da rota, direto para o Triângulo das Bermudas. Desesperado, o capitão tentou abandonar o navio e fazer os outros pularem em um Safety Raft para escapar de ir a pique. Meu pai e outros marinheiros tiveram que amarrá-lo ao mastro para que se acalmasse e não pulasse sozinho.
Depois de sobreviverem a tempestade incessante e ao Triângulo das Bermudas, conseguiram chegar às Bahamas e entregar o barco ao cliente.
Quem diria? Até hoje eu nunca havia ouvido essa história antes. Meu pai me contava sobre as aventuras do Tintin, do Arnold dos exploradores de Júlio Verne, mas nunca falou sobre as suas próprias aventuras, que eu agora descubro uma por uma, com surpresa.
Só descobri esta história porque a minha avó me mostrou um quadro pintado pelo meu avô, com um barquinho branco no centro de um grande rodemoinho colorido. Era meu pai, no Triângulo das Bermudas.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Uma nova Hinée

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Ao girar da chave se encontra o mistério. Penélope abre a porta do Rio e se encontra com o mundo lá fora, cheio de sussurros cantados e segredos guardados.
Enquanto as gaivotas, em sua gargalhada final, voam por sobre o céu, o novo início se dá. O céu é claro ao redor de Mizudinie; tudo o que se vê é o mar doce e afável espreitando ingênuo.
Começo.
Quando o que havia antes - agora só uma lembrança bagunçada no fundo da memória - acaba em um tremendo vagalhão, vem o escuro, o escuro.
Depois do escuro há o hiato, a suspensão. Limiar atravessado, memória sucumbida. E então, então...
O calmo mar do início...
Hoshy segue as gaivotas e chega até a praia. Os pés sentem a maciez da areia como um carinho, fazem pegadas para estar no mundo. E depois - outro limiar - a mata escura, a selva, olha para nós. Irá Neyleen se aventurar na jângal além? Um passo pisado na terra sai da areia, um dedo que toca no galho.
Penélope gira a chave, encontra o mistério.
O mistério que se dá na respiração lenta do mundo.


- Estou começando outra HQ. Uh! Não sei bem se vou ter paciência para continuar e desenhar direitinho as páginas, mas Ah, é sempre bom tentar.
- Como você havia pedido, desenhei novas roupas para os personagens. Ficaram bem legais (algumas). É engraçado desenhar situações descontraídas de verão.
- Tenho muuuitos livros para ler. Ah sim, livros demais. É um pouco desesperador ver a enorme pilha, me encarando sarcasticamente como se dissesse "Você não vai nos ler Charles! Lero-lero-lero!". Comecei pelo Alberto Mussa (que não empaca) e por Robinson Crusoé. E pela Saga Otori. E por Neve (que eu já estava lendo). Ou seja, vou acabar lendo todos ao mesmo tempo, entrecruzados e revezando-se. Daqui a pouco vou falar de como Takeo traiu Lobo Larsen quando ficou perdido em uma ilha no meio da Índia onde neva sempre e teve que pagar pelo seu crime em um romance denso e divertido, mas ao mesmo tempo tristemente doloroso e simples. XoX.


Era uma vez um enorme oceano que cobria toda a terra. Exceto por um pequeno arquipélago de ilhas, todo o planeta era coberto de água e mais água. Xu era o nome de uma jovem heroína, que morava na aldeia de Zaosheng, e vivia feliz com sua avózinha. Um dia, toda a aldeia ficou doente de uma misteriosa pestilência, exceto por Xu. Triste e cansada, a jovem cuidou de todos os ilhéus do pequeno arquipélago, mas de modo algum a doença retrocedia; a cada dia que se passava pioravam os sintomas. Preocupada com sua avó e os outros, Xu partiu para o santuário dos deuses da pesca em busca de conselho. Ficou a noite inteira esperando por um auxílio, até que não aguentou mais e adormeceu; no sono, ela ouviu as vozes dos deuses cantarem para ela uma canção misteriosa, que ordenava que Xu pegasse sua canoa e remasse até o fim das águas, pelo enorme oceano.
Quando acordou, Xu estava assustadíssima, pois sabia que não havia nenhuma terra no mundo de mar além do seu pequeno e pacífico arquipélago. De todo modo, resolveu seguir os conselhos dos deuses para conseguir a Flor Prateada. De acordo com a canção ouvida no santuário, esta era a única forma de salvar os ilhéus da misteriosa doença. Pensando sempre em sua avó, Xu reforçou com madeira abençoada sua pequena canoa e, em um dia ensolarado e bonito, partiu para o oceano, acenando adeus aos seus amigos e parentes.
Remando valentemente pelas águas infindáveis, a jovem tinha apenas as palavras dos deuses para se guiar. "Além da água" ela ouvia, e remava e remava.
Muitos dias depois, Xu chegou, surpreendentemente, em um porto movimentado, cheio de marinheiros carregando caixas e trocando histórias, coisa nunca antes vista pela moça. Os habitantes chamavam aquela cidade de Novo Mundo, e diziam que moravam no centro do planeta, de onde partiam todos os dias muitos barcos e marinheiros, carregando temperos, buscando pessoas, mapeando costas e decifrando mistérios.
Caminhando desconcertada pelo porto barulhento, Xu perguntava para as pessoas pela Flor Prateada, capaz de impedir doenças. Todos a ignoraram e continuaram apressados, envolvidos em mil negócios e comércios, exceto por uma velha muito enrugada que acenou para Xu com um dedo magro e puído.
A garota se aproximou e ouviu a velha dizer que ouvira falar de uma história sobre uma Flor capaz de curar todas as doenças. Mas que se quisesse sobreviver deveria comprar um punhal de ouro da velha. Sem hesitar, Xu entregou todos os seus pertences que trouxera da ilha em troca do punhal dourado e agradeceu efusivamente pela ajuda da velha.
Sem medo, a donzela continuou a viagem em sua canoa - o único bem que sobrara além do punhal - na direção apontada pela velha enrugada. Remou mais dias e dias, passando por ondas gigantescas, gaivotas do tamanho de baleias que flutuavam sobre a superfície e peixes tão coloridos e enfeitados que até ofuscavam as estrelas, até que chegou a outro lugar inesperado: mais um pedaço de terra, uma ilha chamada de Nova Hinée. Diziam seus habitantes que houve uma antiga Hinée que afundara nas águas naquele mesmo local, de onde agora se elevava o altíssimo pico da nova ilha. O sacerdote do templo principal alojou Xu em aposentos confortáveis depois de ouvir sobre sua missãoe permitiu que ela ficasse na cidade para descansar. O sacerdote a avisou que a Flor Prateada se encontrava sim naquela ilha, mas no alto da enorme montanha, cheia de espinhos perfurantes ao seu redor.
A Flor era capaz de proporcionar a juventude eterna e a imortalidade para as pessoas que a pegassem, mas era cercada por tantos espinhos e tantas plantas venenosas que ninguém tinha coragem de chegar até o pico, atravessando uma muralha de morte e desepero, com espinhos que prendiam as roupas e carne das pessoas, impossibilitando-as de continuarem a escalada e embebendo-as em um veneno tão poderoso que destruía aos poucos a vontade dos que resolviam enfrentar a montanha pestilenta. Assim, a beleza da Flor nunca saiu da montanha, pois os habitantes de Nova Hinée nunca se atreveram a buscá-la, com medo de morrerem no caminho.
Tudo isso o sacerdote explicou para Xu, mas a moça estava decidida a enfrentar seu destino e escalar a montanha que se projetava acima das águas do oceano do mundo. Afinal, era preciso salvar as pessoas de seu pequeno arquipélago - sua avó principalmente - mesmo se contasse apenas com uma canoa velha e um punhal dourado.
continua...


Xu, ela também, virou a chave na fechadura e aceitou seu destino, qualquer que ele fosse. Terível e venenoso, sem dúvida. Solitário e doloroso, como o de Penélope talvez. Encantado e pesado, como o de Neyleen, quem sabe?
Na virada do verão, Hinée está diferente.
Novos oceanos para explorar.
Sejam bem vindos.

terça-feira, dezembro 26, 2006

O Último

Àqueles que eu amo.
Queria dizer a vocês muito obrigado. Mesmo. Olha só que ano esquisito: criei um blog; tá aqui.
Não sei se verei vocês agora, e por um bom tempo ficaremos distante. Mas não há problema, vocês são minha casa, e todo viajante sempre volta para casa uma hora ou outra.


Queria falar sobre sonhos, sobre como foi gostoso conseguir escrever histórias aqui, sobre um duro aprendizado que venho tendo sobre fantasias de crianças. Nunca se esqueçam do que vocês foram, só assim podem se transformar em algo completamente diferente e seguir caminhando. Acho que esse seria o meu conselho; não sei, sou suspeito de dizer não esqueça, sendo um historiador, sabem como é.
Por falar nisso, esse ano eu comecei a faculdade. Que legal, como sou velho (até parece). Vocês não tem idéia de como é divertido ser um historiador; e equisito também! Afinal, o Papa abençoou os cristãos de todas as galáxias. Tordesilhas ia além da Via Láctea. E em 1763, em Sorocaba, a maior parte dos casamentos se dava na terça-feira; ao menos é isso que meu professor pesquisa. Porque, vejam bem, as pessoas tinham que se deslocar até próximo da paróquia para se casarem. Se o faziam na terça, eles perdiam alguns dias de trabalho na roça para festejar. Tem toda uma construção social que faz as pessoas se casarem na terça-feira. Interessantíssimo.


Tenho vontade de histórias, de falar sozinho de novo, de passear, viajar. Mas, por outro lado, não pense que não tenho saudades de você. De modo algum sou indiferente ao seu toque e sua atenção.
Gostaria de dizer que nunca irei te abandonar.
Mas aí eu me lembro que era exatamente isso o que dizia o Thomas, o marido da Mellock, e um arrepio esquisito me impede de te dizer isso. Tétrico, não?


Nós vamos nos ver de novo. Agora é tempo de... sei lá, conhecer coisas novas. Tem um pessoal todo preocupado com a faculdade começando, com vestibular. Outros estão desejando muito mais. Preocupados com quem são, quem querem ser.
Afff, e que vontade de ser pirata, de seguir por esta senda, descobrir o que é que posso ser. Acho que vou trancar o segundo semestre de 2007 e sair por aí. Porque tenho muito medo de esquecer os sonhos e desejos da juventude. Há então, uma chance de eu perder este ímpeto? Morreria se algo assim acontecesse (na verdade, é o que aconteceria. Pensando no que disse o Joseph Campbell, um ritual de passagem é a morte do seu eu antigo, o surgimento de novas atitudes e posturas). Por um lado, temo mudar, por outro quero ardentemente. Ser. Vontade de ser. Enfrentar o horizonte. E por ter medo de abandonar os desejos, de não herdar os propósitos da juventude, é que surge em mim um pedido urgente de sair, de conhecer, de escrever e escrever e escrever tudo o que puder. E ser um pirata. Quando ainda se tem pouco para abandonar, fugir para o mar.
O horizonte seduz minha curiosidade.


Devemos seguir o conselho de Joseph Campbell (sim, eu citei ele de novo, mas O Poder do Mito é o máximo) e seguir nossa bem-aventurança. Em frente, onde nos sorri o coração.


Dar risada é o máximo! Vocês moram dentro de mim. Para sempre. Vamos continuar rindo juntos, e sonhando um mundo melhor. Acho que a proximidade do fim-de-ano me deixou piegas. Não me importo. Queria fazer um post do fim, da beira, do abismo que se estende no assustador limiar.
Vamos conhecer as paradoxais criaturas que habitam a perigosa fímbria das cosias.
Vamos pular além, atravessar a porta que nos leva ao mistério de nós mesmos.





Era uma vez uma pequena cidade chamada Hinée, onde moravam dois irmãos, Haccu e Karyn Raquelock, na casa de telhado vermelho ao lado da velha e grande árvore. Um dia seu amigo Myshba recebeu um par de cartas misteriosas e os três resolveram sair de Hinée para conhecerem as cidades e países que ficavam além dos limites da vila. Agora, nós também saímos da pequena cidade para conhecer o mar, a floresta, o deserto e as montanhas que ficam em nossa alma.
Quando voltarmos... Hinée será outra.

sábado, dezembro 23, 2006

Sobre os capítulos da quarta parte do Krystalian - A música da floresta - algo não muito interessante, mas que queria escrever aqui


Capítulo I - Prelúdio (No qual Neyleen entra na grande floresta de Neru e se encontra com a garota chamada Fon)
Capítulo II - Marcha atrás de Neyleen (No qual os outros Viajantes se embrenham na floresta e conhecem Rilian, o príncipe rebelde)
Capítulo III - Sinfonia Paralela (Neyleen se encontra com Rilian e os outros rebeldes, descobre um segredo e decide seu caminho)
Capítulo IV - Sonata de umas batalhas (Começa a batalha pelo antigo castelo e pela retomada de Neru)
Capítulo V - Bolero de famílias separadas (No qual, após a batalha, Neyleen e os viajantes se reencontram e descobrem familiares)
Capítulo VI - Canção de Ninar (Neyleen e Fon buscam o sábio músico e os viajantes saem para explorar a floresta)
Capítulo VII - Valsa (No Jardim de Puyu Sang os músicos recebem as estrangeiras)
Capítulo VIII - Ensaio (Neyleen ensaia para encontrar a música da floresta)
Capítulo IX - Orquestra (Fon canta uma música)
Capítulo X - Réquiem de várias amizades (Os viajantes decidem seu caminho por entre os vários do labirinto de árvores)
Capítulo XI - Um Baile (Kingoro os leva até o lado esquerdo da mata, pelo Caminho Suspenso)
Capítulo XII - Noturno (No qual Neyleen luta contra o homem chamado Sark e busca proteger seus amigos)
Capítulo XIII - Melodia dos Espíritos (No qual Miccolo, Peripoti e Nucalo recebem os viajantes na Vila dos Espíritos)
Capítulo XIV - Concerto das Grandes Àrvores em Apuros (Neyleen descobre o problema das Árvores Mestras e planeja salvar Neru)
Capítulo XV - Dança das Árvores (No qual há uma luta)
Capítulo XVI - A Música da Floresta (Neyleen entra no templo e acha o caminho até o cristal)
Capítulo XVII - Canção (No qual terminam as aventuras na mata de Neru e se escuta, uma última vez, a Canção da Floresta)

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Prelúdio

Um barulhinho sobresaltou-a. Neyleen virou a cabeça assutada, olhando a trilha escura. Qualquer coisa podeia fazer a curva no próximo instante e chegar até a pedra onde ela se apoiava.
Ergueu-se devagar, ouvidos atentos, captando todos os sons da mata: os grilos no capim, o ruído deslizante do riacho, a coruja e outras aves noturnas... À noite toda uma sinfonia particular era ouvida na floresta - diferente da diurna, mais barulhenta e animada.
Neyleen resolveu se levantar e caminhar mais um pouco pela trilha de terra. A noite era abafada sob a canópia vegetal.
Uma cigarra gigante cantou, um sapo pulou na água. Neyleen estremeceu devagar pensando nos monstros que poderiam estar à espreita; lembrava-se nitidamente das histórias que as outras garotas contavam quando era pequena, sobre criaturas terríveis que devoravam crianças ou as raptavam. Os ogros, bruxas e cavalos-fantasmas de sua infância voltavam agora na mata escura, espreitavam-na de trás das árvores e pelas raízes salientes, apenas esperando por uma chance de capturá-la.
Neyleen começou a ouvir mais barulhos e apressou o passo. Agora os sons estalados se transformavam em vozes e as vozes se fundiam em uma conversa.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Alma



Tinha me esquecido do prazer simples que era ler, até tarde da noite, um romance da Agatha Christie.
Tenho vontade de desenhar mais, sonhar mais, pensar mais. Querer fazer várias coisas divertidas, explorar, expandir limites, conhecer-se, sentir a natureza.
Ler neve é ler sobre o silêncio e a delicadeza, que às vezes são interrompidos por tiros de pistola de política e violência.
Tinha um pouco de medo de ficar preso aqui. Começo um pouco a odiar São Paulo e a suspirar mais dolorosamente quando vejo o Atlas aberto em páginas aleatórios.
Ah, que vontade de escrever. Ainda bem que tem o Pirates para se divertir e ser feliz. O que gostaria e de conhecer melhor a minha alma.
Algo que Joseph Campbell falou bastante. Vamos todos seguir a nossa bem-aventurança! Lembro agora da Arlenice falando sobre alimentar a alma. E do Penalves (da faculdade) contando histórias engraçadas.
Que vontade de ser feliz!
Vocês também não sentem isso?
Desculpem por abandonar um pouco o blog. Agora, pela distância entre nós, eu imagino que será bem mais frequentado, já que será um dos únicos meios de comunicação disponíveis nas férias. (por falar nisso, ninguém tá afim de fazer um carnaval da turma de novo?)
Para falar a verdade, faz muito tempo que eu não escrevo na Tooie. O suficiente para hesitar antes de decidir se compro ou não uma agenda para o ano que vem... (Ooie - ou: Úi!). Qual é o problema? Porque parei de escrever sentimentos lá? O curioso é que eu parei de escrever direito desde aquele dia em que você a leu, Marina... Será que tem algo a ver?
Talvez foi a falta de uma rotina e de um momento de silêncio e reflexão pessoal para escrever.
E que vontade de terminar a história da Penélope e finalmente retirar o rascunho do rascunho, para pô-lo no blog! Hunf! Vou escrever e desenhar mais e ler mais e tentar ser mais simpático. Podem chamar de promessas de fim de ano ou sei lá.
Aarrghh!
Que vontade de sonho!
(estou feliz)

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Conversa no Relógio

Se fez um silêncio entre os dois homens. Já acostumados, se esqueceram de prestar atenção ao ribombar profundo que vinha de fora; agora as luzes iam e vinham como uma maré, ora iluminando o topo do chapéu de Lúcio, ora jogando o rosto de Fren nas sombras. A fumaça dos cigarros subia devagar, acompanhando os movimentos despreocupados das bocas. Logo o assunto retornava:
- Lembro dos policiais batendo na porta de casa nos dias de golpes - disse Lúcio - Eles vinham atrás do meu pai, um velho militante nortista. Era quase engraçado vê-lo esperando, de valise na mão, para ser levado pelos policiais. Passava uma noite na cadeia e era solto na manhã seguinte, com apenas algumas marcas roxas no rosto. Isto se tornou uma tradição após um certo tempo. Já se sabia que iam levar o velho quando anunciavam ataques às cidades no velho rádio. Minha mãe se preocupava demais e chorava, mas meu pai apenas estendia a palma da mão e se sentava na cadeira surrada, com a inegável valise preta ao lado.

Agora.



sábado, dezembro 09, 2006

Avous! Avous!

Ai ai, ultimamente estive tão feliz. A festa do ugo foi realmente legal, com aquele jogo de 1,2,3,4,5,6,7,concentração e todo mundo tá escrevendo tanto no Pirates - uma atividade que é realmente divertida! - e, sei lá, o tempo agradável, e passar na casa da Marina, e ler Neve, e cantar mais.
A Camilla pediu os prêmios de volta. Sim, eu havia esquecido. Vou esperar mais um pouco por comentários engraçados, mas prometo que terei isso em mente...
Por hora, premiarei uma frase antiga (ou melho, duas, acabei de me lembrar de mais uma)

A história é assim: Charles estava tomando um copo d'água, terminou e colocou o copo na mesa. A Camilla, com sede, apontou o copo e disse uma frase que é um primor de refinamento e simplicidade, mais ou menos assim:
"Posso ter um igual para fazer o que você fez?"
Algo do tipo "Posso beber água", mas a Camilla é superior à essas frases feitas, ela tem a poesia nas veias, ela quer exprimir seus sentimentos profundo. "Posso beber água" simplesmente não exprime tudo o que ela sentia. Tinha que ser algo elaborado, complexo, quase uma charada, para encantar nossos corações.
"Posso ter um igual para fazer o que você fez?"
Notem como ela não usou a palavra "copo" ou a palavra "água", mas disse tudo o que queria dizer. Sem dúvida uma poetisa em formação.

Mas, claro, nada comparado ao complexo raciocínio da Marina. Conversando sobre o Frank Sinatra ela elaborou a seguinte teoria:
"Bom, ele [Frank] não está vivo... mas também não está morto!"
Genial, sem dúvida. Se você não entendeu é porque não sabe de nada. Se ele não está vivo... ele não está morto. Ele está em estado Frank. Absolutamente genial. Quem mais seria capaz de perceber que as pessoas podem não estar vivas mas não estarem mortas ao mesmo tempo? Palmas para a Marina, um grande prêmio para ela! O mundo agora é um lugar mais claro e compreensível, porque sabemos sobre o estado Frank.

Acho que isto são os prêmios. Parabéns para vocês por nos divertirem tanto. Na verdade, rir é o mais importante, é isso aí!
Vontade de passar mais tempo com vocês, e de fazer uma tatuagem para comprovar uma promessa.

quinta-feira, novembro 30, 2006

pequeno símbolo de uma gota

Piratas, monstro marinho cantando a canção de solitude. Quando os tritões pensaram-se perdidos em meio á tempestade, quando comandante Francis vencera a batalha, quando Mizudinie não pôde defender Luna sozinha, um tiro de canhão ecoou na noite fria. Outro Francis, outro mundo. Navio.

Do alto de Luna, no campanário do templo de Kan Dui, Neyleen imita a canção que ouvira do mar. Tentáculos, batalhas navais, sentimentos.
Mizudinie respira devagar, apoia-se em Cleena Tétis, as duas se olham temerosas. Ouvem o monstro cantar, seguindo a canção de Neyleen.
Prisão, fôrca, destino, grilhão, batalha, remorso.
Mar azul, azul... escutar o grande monstro cantar com toda a dor; rodemoinho, maremoto.

Francis, o pirata e vê na vantagem contra Francis o comandante. Navio emborcado, canhões em posição.
Água, água

Chove pesado sobre Luna, quando Mizudinie luta com tudo pela sua liberdade.
Água,
água,
água.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Uma idéia de história

Assistindo um dia a um programa de Tv na rede Cultura, uma idéia me pegou. Foi assim, de jeito. Quero falar algo sobre o qual venho pensando faz alguns meses.
O programa era "O Poder do Mito", com Joseph Campbell sendo entrevistado por Bill Moyers. Sim, é o programa que originou o livro que estou lendo. Afinal, lendo, cheguei na parte interessante que ouvi na Tv faz um tempo. Transcrevo agora:

Moyers: Um dos meus mitos favoritos é uma história persa, que diz que Satã foi condenada ao Inferno porque amava demasiado a Deus.

Campbell: Sim, essa é uma idéia básica do islamismo, a de que Satã é o maior dos amantes de Deus. Há várias maneiras de pensar em Satã, mas esta se baseia na questão: Por que Satã foi lançado ao inferno? A históra convencial diz que, tendo criado os anjos, Deus disse-lhes que não se curvassem senão diante dele. E então criou o homem, que ele concebeu como uma forma mais elevada que os anjos, pedindo a estes que o servissem. E Satã não se curvaria diante do homem.
Pois bem, isso é interpretado na tradição cristã como sendo o orgulho de Satã. Ele não se curvaria diante do homem. Mas, na história persa, ele não se curvaria diante do homem por causa do seu amor a Deus; ele só se curvaria diante de Deus. Deus mudou os sinais, você percebe? mas Satã estava tão envolvido com o primeiro conjunto de sinais que não poderia transgredi-los, e em seu... não sei se Satã tem ou não um coração... mas em sua mente ele não podia curvar-se diante de ninguém, exceto Deus, a quem ele amava. Então Deus diz: "Saia da minha vista".
Bem, o pior dos padecimentos do Inferno, a julgar pelo que sabemos dele, é a ausência do Bem-amado, que é Deus. Então, como Satã se mantém no Inferno? Pela memória do eco da palavra de Deus, que lhe disse: "Vá para o inferno". Isso é um grande indício de amor.

Moyers: Bem, na vida, não há dúvida de que o pior dos infernos que alguém pode suportar é estar separado de quem ama. Por isso me tocou o mito persa. Satã é amante de Deus...

Campbell: ... e está separado de Deus; essa é a sua verdadeira dor.


O que eu imagino ser esta história é o seguinte: o inferno de Lúcifer é não ser amado. Aquém das noções de tempo e vida após a morte, vamos considerar que Paraíso e Inferno sejam aqui, neste momento.
Ser amado e amar nos leva ao Éden; ter cortados os elos que nos ligam aos outros é a condenação total. Falo em amor, e quero dizer o sentimento de um modo amplo:
Amor por um pai, por irmãos, por amigos, por namoradas, por desconhecidos, por um lugar etc.
Amar algo é abrir-se para algo. É perder os limites e as barreiras e ser um onde antes havia "dois", havia "bem e mal", havia separação.
(Isto seria pensar um pouco como Ipásia talvez?)
Shaitan (forma islâmica de Satã) ama sem limites, mas é um amor barrado, rompido, irrealizável (afinal, como ser amado pelo Criador total, o Uno supremo?). Isso cria o Inferno, onde, ao invés do fogo, nós temos a fria solidão, a desesperança total, a falta de tudo.
Curiosamente, outro dia encontrei um poema do William Blake que falava sobre o que, para mim, era a mesma coisa (desculpe por ele ser em inglês):

The Clod & the Pebble

Love seeketh not Itself to please,
Not for itself hath any care;
But for another gives its ease,
And builds a Heaven in Hells despair.

So sang a little Clod os Clay,
Trodden with the cattles feet;
But a Pebble of the brook,
Warbled out these metres met.

Love seeketh only Self to please,
To bind another to its delight:
Joys in anothers loss of ease,
And builds a Hell in Heavens despite.


William Blake

Tradução livre: O amor busca prazer não para Si / Nem a si mesmo tem cuidado / Para outro dá seu bem-estar / E cria um Paraíso no desespero do Inferno
Assim cantou um pedaço de terra (ou chão, ou lama) / Amassado pelos pés do gado / Mas um seixo do riacho / Cantou os seguintes versos bem certos.
O amor busca apenas a si felicitar / Prender o outro a seu deleite / Goza em ver o outro no mal-estar / Cria um Inferno do desprezo do Céu.

Falando rapidamente, o amor que o Clod of Clay (chão de lama) canta, é o amor realizado, ou o amor abnegado, que busca apenas amar e se felicita ao abrir-se para o mundo. É o amor que cria o Paraíso em nós, que nos enche de esperança e acaba com o desespero do Inferno.
Já o amor cantado pelo Pebble (o seixo) é o amor que busca possuir (não sei se está correto dizer assim, mas é o que pensei), que busca prender e firmar ao invés de libertar. O desprezo do Céu, a recusa de Deus em amar Shaitan de volta, o amor que não consegue existir, se torna então o Inferno.
Satã está preso porque ama demais algo que... não está ali. Algo que não pode ser preso em palavras ou ações. Lúcifer não pode amar Deus porque nada pode amar Deus. E isso o prendeu ao Inferno, onde é sempre desesperador e desolado, sem nada a iluminar a sua dor.
Um pouco paradoxalmente (mas é só impressão) o que pode salvar Lúcifer é justamente o Amor. O Amor que abre e liberta, que cria o Paraíso no meio do desespero.

Talvez, mais do que tudo, é disso que a gente precisa.

Moyers: Gosto do que você diz sobre o velho mito de Teseu e Ariadne. Teseu diz a Ariadne: "Eu a amarei para sempre, se você me mostrar como sair do labirinto". Ela lhe dá então um fio enrolado, que ele vai desenrolando à medida que penetra no labirinto, e depois o segue de volta, até encontrar a saída. "Tudo o que ele tinha era o fio. É tudo quanto você precisa".

Campbell: É tudo o que você precisa, um fio de Ariadne.

Termino com uma fala de uma personagem chamada Penélope do (eu sei, é esquisito) seriado Lost. (Por sinal, foi essa personagem que me deu vontade de criar a Penélope do Sark)...
"All we really need to survive is someone that trully loves us."

terça-feira, novembro 14, 2006

Por que não estás onde estou?

Sabem, o que vou dizer agora é blásfemo e proibido. Mas é algo que tem me incomodado muito esses dias e não acho a solução. Qualquer que seja a solução - ela pode não existir.
Se bem que devemos considerar que a resposta provavelmente será algo como "Deus não existe". Mas isto também me incomoda: para mim o ateísmo é uma religião.
Escutem, o que eu gostaria de perguntar é: onde está Deus no mundo?
E tudo começou quando conversávamos com um garoto que não havia passado em uma prova. "Na próxima eu passo" ele disse, ao que outro cara adicionou: "Se Deus quiser a gente passa".
Algo me bateu nessa hora: o que tem Deus a ver com passar ou não? É Ele quem escolhe o que vai acontecer? Imediatamente pensei: "Não, Deus não controla o nosso destino. Senão, para quê estudar para a prova? Deus é quem vai decidir se a gente passa ou não, a gente não tem nada a ver com isso. Posso responder tudo errado, mas se Deus quiser, Ele faz uma magiquinha e tudo fica bem."
Assim, pensei, Deus não está no controle dos nossos destinos. Ele não manda em nós, não pode nos controlar (vide Adão e Eva).
Bom, então digamos que Deus é um ser inserido no tempo, sei lá, vamos imaginar. Ele pode mudar alguns eventos, mas não entrando em nossas cabeças e nos fazendo fazer coisas. Ele pode, sei lá, colocar uma luz em uma floresta escura para ajudar alguém perdido, colocar um galho ao alcance do afogado, afastar a doença de algum bebê, esses milagres de sempre...
Então Deus pode evitar problemas, ele tem o poder de influenciar-nos e mudar a direção de certos eventos. Então, porque não impedir as guerras, as chacinas? Sei que não há como ele mudar a idéia fixa de destruição na cabeça de um certo general, mas ele poderia proteger os chacinados com tempestades de areia, ferrugens nos tanques, aqueles truques impressionantes do Velho Testamento. Ouço alguns falando "Deus me iluminou e me ajudou a ver que o (insira problema de vida aqui) era um caminho ruim. Agora fui salva por Jesus!" Ok, Jesus salva pessoas de (insira problema de vida aqui) mas deixa as crianças entrarem no ciclo do tráfico de drogas, carregando metralhadoras. Onde está Deus ali? Quem sabe é isso o que acontece com as pessoas que rejeitam o caminho divino? Não sei, não sei...
Ao fim e ao cabo, Deus não tem lugar aqui. Eu olho para o céu e vejo que ele não está lá. Simplesmente não consigo entender uma força onipresente que decida nossos destinos, que tenha poderes sobre nós. E se for o caso de alguém dizer que ele não tem poderes sobre nós (somos livres), ou que não cabe a Ele criar tempestades para evitrar guerras então me digam: para que serve Deus? O que afinal ele faz no mundo? Só existe? Só está lá? Então não há motivo para rezarmos, para irmos aos templos. Não há motivos para crermos em Deus, ele não pode nos ajudar mesmo.
O que quero dizer é que a sociedade está mudando. Agora já não há mais lugar para Deus, o ateísmo se espalha com rapidez. Se a modernidade tirou a Terra do centro do universo a Era contemporânea deu um passo à frente e extinguiu Deus.
Venho imaginando, cada vez mais, que Ele é apenas uma invenção humana. Um recinto seguro para onde se voltar em épocas de problemas. E não há nada errado com isso! É absolutamente humano e natural crer em algo maior. Tenho até um pouco de preocupação ao ver as pessoas "matando" Deus, profetizando seu fim. Porque o ser humano precisa de religiões, precisa de fé. Como eu disse, o ateísmo é uma religião também, tem ritos e dogmas e visões de mundo. Sentir-se seguro ao rezar é o ato mais humano possível, é desejável até. Confesso, não sem um certo embarasso, que por mais que não acredite em Deus já rezei a Ele em certas ocasiões.
Talvez Deus esteja lá, mas seu pensamente é tão diferente do nosso que não podemos compreender. É claro que ele não pode parar as guerras que estão acontecendo: para ele elas já foram, ou ainda serão. A vida humana é vista de um todo, um mesmo instante. Se eu fosse uma criatura onipotente e onipresente eu... Não sei o que eu faria, mas não me preocuparia de modo algum com o resultado de uma prova. Talvez. Eu não acredito em Deus do modo como as religiões o apresentam, eu não consigo entender algo assim no mundo.
Salman Rushdie disse que o espaço para Deus é um espaço para sonhar. Um dia eu entendi o que isso queria dizer, mas agora esqueci; hoje só sei que faz sentido. E sonhar é algo que sei fazer. Talvez seja saudável resgatar os mitos e a espiritualidade que o mundo contemporâneo esqueceu.
Quem sabe até mesmo Deus esteja em algum lugar por aí.

segunda-feira, novembro 13, 2006

A tristeza de Angkor Wat


- O que as pedras falaram? - perguntou Mizudinie, sentando-se ao lado da arqueóloga.
- Não sei ainda, não ouvi nenhum sussurro - respondeu Hoshy abaixando o caderno. - Não sei o que há de errado aqui, mas não sinto aquela curiosidade em descobrir o que há por trás. Como se as pedras quisessem ser deixadas sozinhas.
- O passado quer descansar. Vocês historiadores estão sempre tentando acordá-lo e revive-lo - sorriu Mizudinie - O que você acha deste templo?
- Até agora conheci o observatório, onde eles desenharam as constelações no chão, a sala de audiências onde o grando rei Khmer recebia seus convidados e os porões onde eram torturados os prisioneiros. Às vezes a fantasia é melhor que a realidade. Eu gostaria que este templo e o palácio fossem apenas lugares incríveis, sem ter que me lembrar de todas as crueldades e problemas que aconteceram em seus corredores escuros.


Hoshy tenta, ao fim, se lembrar de coisas que não existem mais. O que resta das pedras senão a sua tristeza e vontade de ficarem em silêncio?
O que resta das pedras senão seu nome de pedras? O que antes era tomo, chave, portão, estátua, banco, marca, agora se mistura e fica tudo uma coisa só, com aparência de tempo e noção desconhecida.
As estrelas dos khmer não tem mais seus nomes hoje. O som se perdeu. As coisas se perdem.
Onde estão, neste labirinto de pedras, os sons pronunciados nos cumprimentos de vizinhos, ou nos rituais de encantamento, para que o mundo ficasse de pé.
- Hoje em dia nós não temos rituais para mantermos o mundo de pé - comentou Hoshy - e calmamente suspiramos nossas vozes sem saber que elas também sumirão no tempo, ficarão vazias e cessarão de existir.
O tempo é uma ilusão, disse Buda.
Khmer está aqui hoje, junto à Hoshy e Mizudinie no portão. Charles escreve enquanto a guerra primitiva se desenrola. Ao mesmo tempo o homem descobre o fogo, o garoto descobre o amor e a arqueóloga a câmara subterrânea.
Se estamos todos no mesmo tempo, porque a tristeza no sorriso da estátua?




O Anjo de Puerto Sol



Quando o furacão subsistiu e se acalmou, os habitantes de Puerto Sol foram saíndo de suas casas e esconderijos para ver a cidade destruída. José Horácio, o carpinteiro, se viu preso por sob os escombros de sua casa, sem conseguir sair.
Sua filha Maria correu para buscar ajuda. O que viu pelas ruas foi o medo e a surpresa estupefata dos cidadãos diante de uma tragédia tão irreparável. Muitos ainda não acreditavam no poder desencadeado pela Rainha e olhavam assombrados o que sobrara da cidade colorida.
Maria passou correndo pelo padre Miguel e pelo coronel aposentado. Foi direto para onde Hoshy estava deitada atõnita e pediu-a:
- Ajude-me Viajante. Meu pai está preso sob as madeiras.
A historiadora assentiu, sem palavras diante da força do vento destruidor. As duas correram pelas ruas de volta até a orla de núvem onde antes havia uma casa branca.
- O que houve? - perguntava José Horácio - Quando que pecamos tanto para merecer um castigo assim?
Hoshy calou-se de raiva pelos atos crueis que a Rainha demonstrara. Maria mandou chamarem muitos homens para levantarem as madeiras para ver se podiam retirar o carpinteiro ali debaixo.
Depois de várias tentativas comandadas por Hoshy, os cinco irmãos José e Teobolt largaram cuidadosos a grande viga que segurava o pobre homem ao chão.
- Ai Deus! Ajude meu pobre paizinho, por favor - rezou Maria.
Pouco tempo depois chegava do céu o mensageiro divino trazendo um milagre. Era Etlyr que assistira à tragédia do alto, que falhara em sua luta contra o furacão. Arrasada, ela descia para desculpar-se perante Puerto Sol, quando viu Hoshy acenar.
José Horácio conta até hoje aos seus netos a história. Quando se sentia preso pela viga e pronto a encomendar sua alma de volta ao Criador, uma luz se acendeu e brilhou em seu rosto.
Ao olhar para cima ele viu a mais magnífica presença descendo em sua direção.
- Minha Nossa Senhor da Conceição! ele gemeu enquanto a figura branca tocava de leve sua mão, com o olhar mais puro e mais doce que ele já vira. Era um olhar sobrenatural, ao mesmo tempo alegre e triste, capaz de curar todas as dores.
Com a maior das gentilezas, quase sem fazer nenhuma força com sua pele de vidro, a mulher luminosa puxou-o para fora dos escombros, sem nenhum arranhão, sem nenhuma dor, sem esforço algum
As núvens estávam douradas no céu, enquanto a aparição ia deslizando pelas ruas, concertando tudo o que havia de errado no mundo. Sua existência era certamente a contraparte luminosa da Rainha, ela era o anjo iluminador de asas douradas, a Piedade. Quando ela andou pelas ruas todos estivemos bem.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Prólogo

Era uma vez uma terra onde não havia nem Sol nem Lua. Os dias e as noites se alternavam repetidamente monótonos, sem nenhum astro a brilhar lá em cima. Claro, escuro, dia, noite, azul, estrelas. A alternância permanecia, mas sempre com a ausência: Sol e Lua haviam sido roubados há muitos e muitos anos.
O nome desta terra era Kyzywky, e seus habitantes, cansados de viverem em um dia claro, porém cinza, e nas noites ecuras, porém assustadoras, começaram a inventar lendas e histórias, esperando que algum dia voltassem ao céu os raptados astros. A história favorita destes habitantes era a lenda dos Escolhidos.
Dizia essa lenda que muitos e muitos anos atrás as Trevas chegaram a Kyzywky e os deuses foram raptados e aprisionados. Principalmente o Deus Sol e a Deusa Lua, que nunca mais passearam iluminantes pelo céu. Era preciso então que alguém resgatasse os deuses e os trouxesse de volta a Kyzywky; mas seriam necessárias pessoas especiais, com poderes vindo direto do panteão mítico e celeste, capazes de controlar os elementos. Essas pessoas, que seriam selecionadas pelos deuses diretamente de seus cativeiros, foram nomeadas de Escolhidos. Era preciso que os escolhidos voltassem, afirmavam as pessoas que passaram a esperar.
Em Kyzywky essa lenda circulou durante muito tempo, até que novas religiões foram inventadas e as pessoas resolveram que haviam coisas mais úteis para se fazer. Demorou muito tempo sem que nada acontecesse, e logo a lenda virou lenda, virou estória, e ninguém mais queria saber de sair em busca de poderes divinos para resgatar um certo Sol e uma coisa chamada Lua, o que quer que fossem isso. Tudo do passado foi deixado no passado e uma nova sociedade, acostumada ao céu cinzento, se estabeleceu.
Era uma vez ou não era. Talvez tenha existido ou foi tudo inventado. Quem sabe o que está além da nossa memória?
Um dia, (ou talvez nunca) uma história começa, e é uma história que acredita nas histórias antigas de Sol e de Lua. Ela começa em uma cidadezinha pequena, chamada Hinée, onde as pessoas eram tranqüilas e onde moravam três pessoas que se tornariam personagens desta narrativa.
Porque aqui se inicia uma história diferente e esquecida. Sobre o Sol, a Lua e sobre Kyzywky.
Era uma vez:

terça-feira, novembro 07, 2006

Luck? Nimb? Not for me...

- Fomos passar o dia no Jóquei. Era almoço de aniversário da Carol, ela chamou amigas e tal, foi divertido. Bom... Exceto pela parte em que eu e a Gabi (amiga da Carol) descobrimos que somos verdadeiros azarões na hora de apostar em cavalos. Resolvemos decidir (de brincadeira) qual cavalo ganharia a cada rodada. Depois de um tempo perdendo, resolvemos levar a sério. Ok, vamos olhar bem para os cavalos, prestar atenção, seguir os instintos. Uma hora a gente ganha.
A Gabi escolheu o cavalo nº4. Parecia bom, era rápido, ganhara antes. Eu escolhi o cavalo nº1, chamado de Almirante. Almirante! Que nome legal...
Começa o páreo, todos olhamos ansiosos. E qual cavalo sai na frente? O nº4! Gabi, você não tem mais azar! O seu cavalo está na frente. Vai lá nº4!
A corrida continua e os cavalos aceleram. A Gabi, um tanto confusa vê o seu 4 perdendo posições. Segundo... Terceiro... Quarto... Quinto... E achávamos que o azar tinha terminado!
No final o cavalo da Gabi chegou láá atrás.
E o meu? Boa pergunta, e o meu?
Depois que todos os cavalos passaram, procurei pelo nº1. Cadê? Ele não correu?
Todos os cavalos passaram. Aí o nº4 da gabi. Então um intervalo e por fim, passa o cavalo nº1. Só o cavalo. Sem o homem em cima. Só o cavalo. Sabe aquele que eu tinha escolhido? O Almirante? Então, ele derrubou o seu jóquei e terminou a corrida sozinho, por último.
Somos ou não somos azarados? Dessa rodada em diante, ninguém mais apostou nos cavalos que escolhíamos (o que foi bom, nenhum ganhou mesmo...)

Penélope - três / H. Sark - cinco


"No meu quinto dia de estadia no templo de Campostela eu tentei o proibido: experimentei os meus recém-adquiridos poderes. Depois de verificar se o austero quarto estava trancado e se o corredor lá fora estava silencioso, reclinei-me sobre a cama espartana e olhei as sombras dançando no teto por efeito da vela bruxuleante. Eram horas silenciosas, da madrugada fria, e acho que apenas eu estava acordada naquele momento.
Sabendo-me sozinha, comecei a mover as mãos em uma dança sem sentido. Percebi assustada que as sombras me seguiam, que a matéria escura estava junto aos meus dedos: eu poderia controlá-la e movê-la o quanto quisesse!
Fiquei orgulhosa, e também me odiei por isso. Ainda não havia aceitado ser Escolhida, portanto estava proibida de me divertir movendo sombras. Era um destino que eu relutava, negava, e que, por enquanto, não seria aceito sem explicações. Mas não havia maneira de entender. A estátua não voltou a falar, o deus ficou silencioso; mesmo agora a Sala das Sombras foi fechada sem razão e não posso mais rondar por ali, esperando outra manifestação divina (Que provavelmente não virá nunca).
Porque gosto tanto de ter poderes? Acho que isso me faz sentir única, o que significa que as atenções se voltarão para Penélope. Eu, que tinha inveja dos peregrinos por terem deuses para pedir, tenho que ser a deusa de alguém, oferecendo o que me pedem.
Não que alguém tenha me pedido alguma coisa. Ainda. Não sei. Talvez nunca saibam sobre mim.
Eu terei de dizer para as pessoas que sou a...
*
Por outro lado, acho que tenho um certo orgulho de meus poderes, por causa Dele. Sim, eu gostaria que ele prestasse atenção em mim. Será que o que eu quero é impressioná-lo? Mostrar a ele que sou única e supreendente? Isso seria tão mesquinho e arrogante!
Vi-o poucas vezes depois de nosso primeiro encontro. Uma vez no refeitório, com seus estranhos companheiros de viagem; outra caminhando ao redor do altar central; e a terceira foi no salão vazio cheio de janelas.
Não cheguei a conversar em nenhuma das vezes. Ao contrário, quem me interpelou outro dia foi seu companheiro, um tal de Ganz, que perguntou:
- Senhorita, conhece a Sala das Sombras?
- Conheço, respondi timidamente, esperando um olhar do outro estranho.
- Já ouviu falar de coisas anormais acontecendo lá dentro?
- Não, respondi. (Isto é, sem contar com a garota que entrou lá dentro outro dia e escutou um deus falar pela voz de uma estátua, escolhendo-a para salvar o mundo).
Insatisfeito, o homem foi embora.
E ontem mesmo a Sala das Sombras foi fechada. Pensei que poderia levar o estranho até lá e mostrar a ele as estátuas, tudo uma desculpa para conversarmos e eu conhecê-lo melhor. Mas agora já foi. Agora já acabou.
É por causa dessa Sala que estou aqui, em meu quarto, esperando o silêncio atingir o corredor para poder praticar ainda mais. Já consigo coisas incríveis: desde que tentei pela primeira vez minhas habilidades cresceram e se aprimoraram: Agora consigo escurecer levemente uma sala - declinar a luz e aumentar a sombra de um lugar. É divertido praticar em meu quarto, fazendo a vela dançar de confusão.
Também aprendi sozinha uma habilidade sem nome, a que eu chamo de "pegar" as
sombras. Nada mais é do que poder mover a matéria escura, como se eu tivesse uma mão sobrenatural capaz de tocar o abstrato.
Posso sentir as sombras, saber onde está o escuro e em que lugar é noite.
Consigo mover este elemento e moldá-lo. Já tenho muitas habilidades, mas ainda não sou um Escolhida, não sei lidar com meu poder. É que, afinal, não sei para que usá-lo! Ninguém nunca me pediu nada (mas ninguém nem sabe de nada!), não saí daqui de dentro do templo, não busquei ajuda. Tenho medo do que pode acontecer nestes tempos turbulentos. Notícias terríveis chegam do norte, de Estafansa. Dizem ser o fim de Olstomé.
Consigo mover as sombras, mas será que eu terei que... atacar? Luta? Guerra? Eu não! Me recuso terminantemente a matar outra pessoa, não sou do tipo de brigar. Mas agora nem sei mais de que tipo eu sou, vida roubada que tenho.
Ouviu Penélope? Você é a Escolhida das Sombras.
Acontece que não sei quando e por quê usar os meus poderes.

Eles já me meteram em confusão. Devia ter ficado quieta, mas insisti em ser curiosa e em testar-me. Pois bem. Aconteceu.
Outro dia comecei a reparar nas sombras das pessoas (de um certo modo, estes exercício são muito bons, pois distráem minha mente dos grandes problemas). É engraçado perceber como as nossas sombras têm dentro de si muito de nós. Elas nos tráem; contam para os outros quem somos. Muito silenciosa e dissimulada eu espreitei os peregrinos que chegavam, vendo na sua projeção escura seu segundo eu separado do corpo. Vi alguns sonhos, de relance. Desejos, insinuações, tentativas e coisas que poderiam ter sido. Descobri a minha mais incrível habilidade: conversar com sombras.
Elas não falam com vozes, como nós. Mas usam palavras. Como se isto fosse a sua matéria-prima, sua comosição inicial.
É possível saber o outro através de palavras? Pois eu soube sombras, rastros de pessoas, irmãs-gêmeas tristes e vingativas.
Dizem, em lenda, que quando uma pessoa está para morrer sem cumprir o seu destino, sua sombra a salva. Ela é a eterna companheira, elo de ligação com a morte. Assim, as sombras podem acelerar ou retardar nossa partida.
Se tenho medo? Claro que mexo com coisa perigosa, além do sentido humano normal, mas medo não tenho. Ou melhor, ele é afastado pela sensação de que, uma hora ou outra eu tenho que fazer isso, então vamos em frente, vamos lá, ouvir o que elas tem a dizer. Não sobra tempo para o medo.
Mas a maior das descobertas, a que desencadeou toda essa escrita, foi na madrugada que iniciava o meu oitavo dia no templo.
Era tudo silêncio àquela hora. Cansada de sempre treinar na solidão do meu quarto, fui dançar com as sombras por entre os corredores vazios de Campostela. As estátuas se erguiam mais ameaçadoras do que nunca e eu temia ser descoberta.
Coração palpitando, fui tentar mais uma vez entrar na Sala das Sombras. Nada. Desisti. Era impossível abrir aquela porta fortemente trancada. O que havia de tão proibido ali? De repente, percebi: será que sabiam sobre o deus? Era por isso que trancaram a sala, para que ninguém se encontrasse com o divino? Será que eu corria algum risco? Sabiam sobre mim também? E quem era esses eles que minha paranóia insistia em criar?
Ah não, ah não, ah não!
O que será agora? Perceberam tudo o que eu tentei dissimular?
Corri pelo escuro, o medo dominando meus pensamentos. Na hora não fui esperta, não percebi as pistas que me deixavam. Com medo de estarem me seguindo, fugi na direção do meu quarto.
Quando parei, ainda na sala das janelas, não conseguia mais respirar. O que será que haviam descoberto sobre a Sala? Eu estava em perigo?
Tentei me acalmar olhando para as colinas de capim ondulante sob o céu noturno.
- Eles não sabem de nada.
Saindo das paredes uma voz grave e sibilante cortou a escuridão. Arfando mais do que nunca eu gritei:
- Quem disse? Quem é? O que está acontecendo?
- Eles não sabem do que nos aconteceu. O deus vai ficar bem. Nós ficaremos bem.
Comecei a tremer sem saber de onde vinha a voz misteriosa. Estava apavorada, amaldiçoando a minha curiosidade, quando percebi:
Era minha sombra quem falava. Encostada na parede da sala a minha sombra conversava comigo!
- O que... O que... balbuciei
Tenho a impressão de que ela deu uma risada. Era um som chiado e penetrante que me deixou mais assustada ainda.
- Sou sua irmã, (foi essa a palavra usada pela sombra: irmã) não se assuste. Eu queria dizer que estou orgulhosa do seu progresso, você vai bem como Escolhida. Por isso achei que esta era a hora de me revelar, de conversar contigo.
- Eu não... eu não entendo!
- Ora, você já conversou com outras sombras antes! Já a vi tentando com os peregrinos. Por que comigo é tão diferente assim?
- Eu não sei, respondi. Conversar com a minha prórpia sombra era algo pessoal e esquisito. Ali, na semi-escuridão da luz de velas, estávamos sozinhas. Tive medo do que ela pudesse fazer.
- Vamos, não tema, não tema. Eu vim aqui com um conselho.
Afastei a cabeça com suspeita. Ela fez o mesmo.
- Queria te contar, minha cara Penélope, sobre o seu caminho como Escolhida. Está disposta a ouvir?
- Estou, falei. Mas antes, eu tenho uma curiosidade: como eu posso te chamar?
Ela riu novamente, e quando moveu a cabeça para o lado eu fiz o mesmo. (Começara a imitar a minha sombra?)
- Pode me chamar de Epolenep, só por diversão.
- Não acho que vou conseguir pronunciar isto...
- Escute: vai ouvir o que tenho a dizer? (aquiesci com a cabeça) É isso, tenho que lhe falar sobre uma missão que pensei para ti. Você deve começar a agir como Escolhida, portanto elaborei algo que poderia fazer para ajudar as pessoas. (a encarei com suspeita e um pouco de raiva. Não queria ser a Escolhida. Ainda não. Mas bem, vamos ouvir tudo o que ela tinha a dizer.)
- Você já ouviu falar, minha querida Penélope, do Rei das Sombras? Nunca? Eu sei. Sombras sabem coisas além dos seus gêmeos. Por isso te digo: aqui perto de Campostela, em uma colina mágica e perigosa, existe uma série de túneis subterrâneos, esquecidos há anos pelos humanos. Lá dentro é o palácio do Rei das Sombras, onde as Sombras-livres, aquelas sem os seus humanos-irmãos, moram e dançam o dia todo. Se você for até lá e prender o Rei, você terá salvo as pessoas das vilanias e crueldades das Sombras-livres. Não é isso o que uma Escolhida deve fazer? Ajudar o mundo? E como fica aqui perto, eu imaginei que você gostaria de começar a sua... carreira.
- Parece um bom plano, mas você se esquece de que eu ainda não sei usar os meus poderes. Se terei que prender uma criatura tão perigosa como você diz ser esse tal de Rei das Sombras, prefiro descobrir a extensão de minha força antes, ou poderei morrer sozinha em algum dos túneis devido ao meu despreparo.
- Bobagem, não creio. Você parece estar pronta. Eu te ensinarei tudo sobre as sombras e com esse conhecimento você poderá derrotá-lo.
- Mas eu nunca briguei com ninguém antes. Agora terei que derrotar uma criatura?
- Não, basta uma magia para prendê-lo. Eu te ensino tudo o que você precisa saber. Conheço-te a vida inteira Penélope, conheço-te por dentro e sei que você é capaz. Cansei-me de te ver aqui nesse templo escuro e velho; vamos sair, vamos nos mover. Quero ver os seus primeiros passos como Escolhida!
A vela rodou no vento, fazendo a sombra se indefinir.
Acenei afirmativamente e Epolenep começou a me ensinar tudo o que hoje sei sobre as sombras. Ela falou das lendas sobre a nossa morte e nossa sombra andarem lado a lado, sobre o aspecto vingativo e traidor de nossas irmãs-gêmeas, sobre como elas espiam nossa vida, mas podem escapar à noite sem que saibamos e sobre o perigo que são as Sombras-livres, capazes de fazerem o que quiserem. Ficamos conversando na sala e depois no quarto escuro. Por fim, quando achou que eu estava pronta, a minha irmã escura se calou e ficou sendo apenas uma imagem na parede.
Apaguei rapidamente a luz, para que ela sumisse dissolvida no escuro.
No entanto, a noite toda senti sua presença, querendo, sussurrando, instruíndo...


Quando pensei estar pronta para enfrentar o Rei das Sombras, nós duas, eu e minha irmã-gêmea, saímos para fora do grande templo negro de Campostela. Era o entardecer do meu nono dia ali.
Assim que coloquei os pés na grama macia, minha sombra se dissolveu no capim alto e sumiu muda nos múltiplos feixes de planta. As primeiras estrelas piscaram sonolentas e, por costume, fiz um desejo:
"Que tudo corra bem".
Um grupo de peregrinos extasiados passou por mim, todos rindo contentes. Dei alguns passos ouvindo o shoque shoque de grama raspando em roupa, quando uma voz me chamou:
- Você já vai embora? ele perguntou doce e angustiado (quase cortante, disfarçando). Engoli em seco e virei-me, dando de cara com o estranho que olhara em meus olhos outro dia.
Desta vez nos encaramos com sobriedade. Olhares sérios e comuns. Vi o seu cabelo escuro, suas mãos nervosas e seus ombros largos.
Ele baixou o olhar encabulado - Me perdoe, foi desrespeitoso de minha parte intrometer-me assim em sua vida.
Eu, que havia visto sua alma, que poderia dizer?
- Não foi nada desrespeitoso senhor! (e, para evitar um silêncio:) Eu não estou indo embora. Pensei apenas em caminhar por estas colinas, conhecer um pouco a região.
- São lugares perigosos, principalmente à noite, é melhor não ir sozinha.
- Conte a verdade.
- Como? perguntei de um salto
- Me desculpe! (atrapalhou-se o estranho) Pareceu que eu estava te oferecendo minha companhia, mas, acredite, não queria forçá-la a nada (colocava as mãos atrás da cabeça e depois as torcia e depois coçava o rosto, sem saber como se desculpar) Só estava preocupado, as colinas são mesmo perigosas.
Sorri diante da sua confusão. Mas estava mais interessada era na terceira voz, que logo repetiu:
- Conte a verdade.
- A verdade? sussurrei olhando para Epolenep. A sombra estava quieta.
O viajante me encarou sem entender.
- Conte-lhe a verdade.
- Quem é? falei assustada. Dera para ouvir vozes misteriosas agora? Olhei para a longa parede do templo e a compreensão bateu-me.
Encarei devagar o estranho e expliquei a ele minha triste situação.
- Gostaria que não pensasse em mim como louca. Porém (por que dizia isso ao homem por quem eu me apaixonara?) o caso é que a sua sombra está falando comigo.
Desta vez seus olhos se fecharam. Baixara as cortinas do assombro, incredulidade e surpresa.
- Conte-nos tudo, pediu a sua sombra.
- Meu nome é Penélope Noite (eu comecei. Por essa loucura perderia meu amor?) e consigo falar com as sombras e entender o escuro. Eu estava saindo na verdade para encontrar o palácio do Rei das Sombras-livres, porque sou...
- Mas não tudo! gritou-me Epolenep - Vamos ter alguns segredinhos, pois não.
A sombra do homem concordou com um aceno de sim.
E o homem? E meu caro estranho que eu queria tanto impressionar?
Pois ficou ainda um tempo parado, olhando para mim come se fosse mesmo uma maluca pregadora de algo inconcebível. Que minutos mais desesperados! Não achávamos, nenhum dos dois, algo a dizer para o outro. Como já havia dito demais, resolvi ficar em silêncio. Por fim, ele disse:
- Meu nome é Sark. (e pausou, olhando agora em meus olhos) Não sei se acredito no que você diz, mas uma garota tão determinada como você parece decidida a ir atrás deste Rei das Sombras. Como eu havia dito, as colinas são perigosas, então me ofereço para te acompanhar. Desta vez ofereço mesmo minha proteção de guerreiro. Minha cara Penélope, você aceita?
Seus olhos brilharam de ironia e alegria, talvez entusiasmado por ir atrás de algo desconhecido. Só posso imaginar, mas me sinto segura ao dizer que os meus olhos brilharam de volta com esperança. Finalmente saía de dentro do detestável templo escuro e mergulhava nas colinar-mar. Melhor do que isso? Era acompanhada pelo belo viajante, que se oferecera para proteger-me. Tudo o que precisara era afirmar-me como Escolhida... Algo pelo qual relutara, mas...
(hesito)
Não sei agora o que quero. Não sei mesmo meu caminho. Gostaria de poder escolher quem sou, ao invés de estar à disposição de um poder divino silencioso.
Por enquanto me basta narrar o nosso breve passeio:
- Muito obrigado viajante (agradeci enquanto dávamos nossos primeiros passos pelo capim macio) Me sinto muito contente agora (shoque shoque). Mas, se me permite uma pergunta: você disse que o seu nome é Sark, mas (olhe minha intromissão!) poderia jurar que ouvi seus companheiros te chamarem diferentemente, outro dia, lá no templo.
Seu rosto se fez uma careta.
- É uma brincadeira, um jogo de mau gôsto. Eles às vezes me chamam pelo primeiro nome(ele pausou). Mas eu prefiro Sark. É um nome mais forte, intimidador.
- E você quer ser intimidador? Eu gostaria de saber o seu primeiro nome.
Ele riu, baixou o rosto e voltou a olhar para as estrelas.
- Eu me chamo Henry Sark, se você insiste.
- Eu insisto. E prefiro muito mais te chamar de Henry. É mais doce.
- Eu não sou doce, ele afirmou categórico.
- Não vejo razão para não ser. Você me parece triste e sozinho, mas não é alguém cruel ou malvado. (olhei para o seu rosto. Ele ficou quieto. Sark entendia a extensão de seu ser. Talvez eu estivesse enganada. Ele era cruel? Gostaria de sabê-lo, entender até onde ele ia.)
- Você pode me cahamar de Kras, disse a sua sombra, dando continuidade à brincadeira dos nomes invertidos.
Caminhamos em silêncio pela grama alta, buscando uma referência qualquer. O que seria uma colina mágica e pergisosa? O que seria, naquela escuridão estrelada, uma colina?
- O que vamos fazer com o Rei das Sombras quando o encontrarmos? - Henry Sark me perguntou.
- Eu vou derrotá-lo.
Olhou para mim incrédulo. Era porque sou uma menina? Por entender minha inexperiência? Por ainda me achar um tanto maluca?
Ergi o pote-estrela e expliquei: Aqui dentro deste vidrinho está um feitiço, capaz de prender sombras-livres em seu interior. Minha própria sombra me ajudou a fazê-lo. Se jogarmos isso em cima do Rei quando ele estiver enfraquecido, o feitço irá prendê-lo.
- Mas e se o vidro quebrar?
- O vidro tem que quebrar. Por isso devemos jogá-lo em cima do Rei, para abrir e liberar, e com isso prender.
Caminhamos silenciosos.
- Eu já vi coisas muito estranhas, ele confidenciou. Creia em mim, o mundo é um lugar esquisito. Então, quando você diz coisas sobre o escuro, eu decido acreditar.
Nos olhamos de novo. Ele tinha decidido acreditar em mim? Não via mais hesitação em seus olhos.
Porém... Em sua sombra, ainda havia um rastro...
- A sua sombra te contou tudo isso?, Henry perguntou, com suspeita - Eu não acho seguro confiar em algo tão maligno e traidor.
- Porque você diz isso delas?
- Por que ela traiu suas iguais. Se ela te contou tanto sobre o Rei delas e como capturá-lo, as sombras não passam de traidoras vingativas. E ninguém é capaz de contrariar a sua própria natureza. Você devia ter cuidado com o que ela te ensinou, pode ser tudo enganação.
Mais um pilar de segurança caiu.
- Não gostei de nosso companheiro - resmungou Epolenep - Muito maledicente se você quer saber.
- Mas ele está certo - continuou Kras - Ninguém pode ir contra a sua natureza.
E a minha natureza, qual era? Escolhida, filha, apaixonada? Eu iria descobrir isso algum dia? Talvez agora, caminhando por entre o ondulante capim noturno, em direção a algo sinistro e desconhecido, eu descobrisse, afinal, quem é a Penélope Noite. Ou então eu estaria, nesta aventura assustada, construíndo quem eu sou.
...
Quem eu sou? Talvez as sombras saibam a resposta.
(shoque shoque fazia o capim, à medida que avançávamos)
De repente, não estava mais com tanta vontade de avançar.



Quem é esta garota? Por que em sua presença eu me desdobro em ridículas gentilezas? Resolvi segui-la em sua peregrinação até o Rei das Sombras-livres. Acreditava nela? Não sei. Conversar com o escuro... suspeito de enganação.
Mesmo assim a dama Penélope precisava de um guerreiro que a protegesse de sua prórpia curiosidade. Deixei Ganz e Pátroclo dormindo lá em cima e caminhamos pelo capim alto.
Coloquei a mão sobre a bainha de Kagemonji. Seguro. Prendi a capa de viagem para afastar o frio e olhei para ver se Penélope não se sentia incomodada no anoitecer. Ela caminhava devagar, atenta para o seu passo incerto.
Tento entender agora, após todos os acontecimentos, o que senti naquele momento. Era um sentimento apreensivo, tímido, ainda suspenso em desconhecido nas névoas da minha consciência. Não havia nome, mas em mim havia uma falta de ar, um constante deslumbramento.
E era tudo por causa dela. Agora eu sei, tenho um nome. Posso definir e cercar este sentimento. Não vou dizer por enquanto, mas era coisa tola, juvenil. Eu sei, eu sei, que vergonha! Mas tenho as idades trocadas.
Nunca tive juventude. Passei da curta infância à maturidade séria rapidamente, graças à minha estadia em uma tumba e ao treinamento severo de mestre Haramis. Agora, que me empenhava em ser um adulto respeitável, esta garota aparece e me transforma em um jovem suspirador.
Me confundo. Que idade tenho? Como devo agir? O amável, prestativo e cheio de ideais Henry ou o cruel, decidido e poderoso Sark?
H. Sark (eu) terá de viver como uma eterna contradição.
Mas de volta à história:
O vento aumentou e agora o capim ondulante nos fustigava os braços e rosto.
- Minha sombra nos diz que devemos nos apressar - falou Penélope - Pois logo vai chegar o dia.
- Achei que sombras se enfraquecessem na luz - respondi, pronto a desacreditar aquela maluquice.
(Após uma pausa, em que ficou a olhar o chão à sua esquerda, ela me respondeu: )
- Não. Durante o dia a escuridão se concentra na gruta e o Rei fica mais forte. Então vamos logo, ela ordenou.
A grama farfalhava alegre enquanto buscávamos alguma trilha por onde passar. Olhei novamente para Penélope, que transitava com os olhos entre o capim e as estrelas, talvez atrás de uma pista qualquer.
Por fim, ao chgarmos às colinas, e ela sorriu-me, e o luar branco de seus dentes encantou-me de tal modo que ainda fiquei por um momento parado, deslumbrado pelo seu eco. Meu coração deu uma fisgada - que papel de tolo eu faço - e abandonei o reflexo para correr atrás da dona da ilusão, que deslizava em seu vestido escuro por entre o mato.
- Kras diz que é logo ali naquela colina, ela sorriu. E como era lindo o seu sorriso!
- Quem é Kras? Uma das sombras?
- A sua sombra, ela respondeu impaciente, fazendo-me olhar com extrema suspeita para a figura escura que caminhava ao meu lado.
- Não vejo nada por aqui, só as colinas - Estávamos agora no alto, com uma bela vista do Campo das Estrelas sob o céu noturno, uma das mais lindas visões no mundo todo. Lá longe se via o vácuo no céu que identificava o templo de Campostela. Por todos os lados os astros celestes nos confidenciavam segredos e mistérios, junto ao balouçar sereno do capim no chão.
- Olhe só Sark! - Penélope chamou, mostrando-me algo no chão: um enorme buraco, mais escuro que a treva da noite, no topo da colina maior.
Era definitivamente a entrada do Palácio do Rei das Sombras. Quem entraria primeiro?
- Eu vou, - falei, decidido a agradá-la e já colocando as pernas para dentro da boca negra.
- Cuidado, ela pediu - Epolenep me diz que as sombras-livres são extremamente perigosas. Sem seus humanos-gêmeos elas podem liberar toda a sua maldade e vingatividade. O mesmo vale para homens que perderam a sua sombra-gêmea: estes não tem arrependimento.
Acenei devagar com a cabeça.
- Dê-me o seu pote, eu vou enfraquecer o Rei para você. Deixe que eu o prendo enquanto o distraímos: não quero te ver chegando tão perto de uma criatura perigosa.
Penélope demorou para responder. Por fim, resolveu dar-me o pote-estrela com o tal feitiço dentro.
Olhamos um para o outro mais uma vez. Que brilho era esse que eu enxergava em sua íris? Seria todo um arco colorido de sentimentos desconhecidos? O que os meus olhos lhe revelavam? Seria aquele desconhecido e brumoso sentimento-sem-nome?
Perturbado afastei a cabeça. Começara a minha missão; era tempo de ser um guerreiro.
Entrando pela terra seu sorriso me iluminou a queda escura. Com um baque, cego e tonto, aterrisei sobre uma matéria desconheida.
Com outro baque, Penélope aterrisava sobre mim. Doloridos e assustados pela súbita cegueira que a treva nos provocava, começamos a tatear as paredes de terra.
- Epolenep! Epolenep! ela chamava - Ah Sark!, onde estão as nossas sombras? Que lugar é esse? Não vejo nada neste escuro.
- Está tudo bem, acho que há um caminho por aqui. Segure minha mão.
De fato. Conseguimos seguir por um corredor estreito, temendo pela tolice irrevogável de nossos atos. Quando viramos a esquina - uma luz!
- Há algo ali, sussurrei devagar. Vamos tentar ser o mais discretos possível.
Caminhamos agachados pela escuridão, eu com meu sentimento desconhecido e simples, ela com seus segredos. A luz aumentava, vindo de uma série de archotes colocados nas paredes. Estranhamente, também a música aumentava: vindo de algum lugar do fundo da caverna um som macabro e crepitante tocava, nos arrepiando até os ossos. E nos seguindo, mais definidos do que nunca, iam os sinistros Kras e Epolenep.
A caverna estreita se abriu em um grande salão, iluminado por milhares de chamas no teto. No centro, infinitas figuras escuras de sombras-livres rodopiavam sozinhas no ar, independentes dos restritos anteparos. Apontei para Penélope uma sombra maior, sentada em um não-sei-o-que-em-ruínas - uma porta, um portal? - com uma brilhante e reluzente coroa na cabeça - isto é, supondo partes humanas para sombras.
Estávamos no Palácio do Rei das Sombras-livres!
Involuntáriamente nossas mãos se buscaram. Por pouco tempo ficaram unidas em seu abraço cálido antes que uma presença fria e ameaçadora pousasse sobre elas: Epolenep debruçou-se ao nosso lado, olhando fixamente para o centro do salão. Como que então as sombras ainda ligadas deram para moverem-se sozinhas? Reparei na face pálida de Penélope e encarei furioso a minha própria sombra, ordenando interiormente que ela ficasse quieta.
- Ela diz... - suspirou a garota, falando obviamente de sua sinistra irmã-gêmea - que devemos nos apresentar. Que é mais educado assim. Ou senão - e seu rosto empalideceu ainda mais - Epolenep o fará por nós.
- Maldita! sibilei. Coisa velha e escura, monstro terrível! Deixe a pobre Penélope em paz!
- Não Henry, está tudo bem.
- Não, não está! - revoltei-me briguento - Se essa bruxa vai nos trair de qualquer modo, deixe que eu vá. Você fica aqui escondida e tente não se preocupar. O pote está comigo, eu ficarei bem.
- Cuidado então. Por favor, não faça nada perigoso - ela pediu. A doce e encantadora Penélope! Enquanto ela me encarava com temor, sua sombra se interpunha dissimulada entre nós, sem revelar emoção alguma, fingindo não ser com ela.
- Fique aí - eu ordenei, enquanto descia a escada circular para o luminoso salão. Assim que meus pés tocaram o círculo interno, a música e os guinchos pararam de um rasgão. Uma risada tenebrosa ecoou e o Rei das Sombras, erguendo-se mais alto do que dois homens, falou a mim:
- Humano! Que diversão! Olhem sombras-sombras, quem veio nos visitar.
Precisava ganhar tempo, me aproximar. Comecei a conversa:
- Meu nome é H. Sark. Eu vim do norte, do decadente reino de Olstomé.
- Um reino decadente? E o que as Sombras-livres têm a ver com sua tola política? Tudo patetagem para nós! - ouvindo isto todas as figuras escuras do salão se aproximaram de mim - Vamos ouvir, o que você tem a dizer que interesse a nós, habitantes das profundezas.
(e agora, o que dizer?) - Vim aqui fazer um trato.
- Um trato? - todas as sombras se inclinaram.
Acenei ao Rei para que este se aproximasse, como se tivesse um segredo a contar-lhe. Mudando sua forma para deslizar pelo ar, ele colocou o seu ouvido escuro próximo à minha boca - fora pego!
Comecei a sibilar palavras sem sentido para o ouvido ávido - Lá em cima... no Campo... das Estrelas - minha mão pegou secretamente Kagemonji e entrei em posição - onde... tem... uma... grande... Agora! - com um grito saquei a espada e cortei um rasgo no rosto parado e atônito do Rei.
Percebi lívido a minha estupidez. Nenhum arranhão - era óbvio - na grande sombra negra!
Erguendo-se alto e furioso, a coroa piscando brilhante, o Rei das Sombras urrou:
- Olstomé? Campostela? Acho que você não veio aqui falar de nenhum dos dois, não senhor! Eu enxergo a sua intenção. Você pode tê-la ocultado em seu rosto, mas seu gêmeo - sua aberração gêmea! - me diz que você busca me matar!
Então, pela primeira vez - e foi neste momento em que qualquer dúvida a respeito de Penélope se dissipou - eu ouvi Kras falar, talvez efeito daquela caverna que fazia as sombras agir tão estranhamente:
- Me desculpe irmãozinho, nada pude fazer. Você é um bom companheiro, não desejava te fazer mal. Mas não posso contrariar a minha natureza traiçoeira, me desculpe Farei o que pudermos para não nos matarem, prometo.
Eu sorri para o meu irmão-gêmeo. Certo, não podemos evitar, o que eu fiz era estupidez de qualquer modo. Não seria certo culpar apenas minha sombra, por agir como sabia agir.
- Que aberração! Que aberração! - o Rei gritava enquanto seus súditos me prendiam em seus abraços opacos e arrepiantes - Olhem que humilhação, que tonteira! Uma grande sombra se rebaixando perante um homem qualquer! Vamos meus amigos, vamos libertar este companheiro de sua prisão de carne. Tragam a faca!
- A faca! A faca! A faca! - cantavam as sombras-não-mais-gêmeas, dispostas a me matarem para que Kras se unisse às suas legiões. E não vou dizer que este foi contra, afinal, como ele disse, sua natureza traiçoeira não era contornável.
O Rei das Sombras, segurando em suas mãos uma reluzente faca de prata, cresceu e mutou em um monstro pluriforme, de vários braços e olhos sombrios, pronto para dilacerar o intruso que era segurado contra uma parede de terra. Ele que viesse! Já segurava em minha mão o pote-estrela com sua magia, e me preparava para joga-lo sobre o monstro. Talvez não funcionasse - o Rei estava forte e poderoso naquele momento - mas era minha única chace de sobreviver!
Já levantava as mãos segurando o recipiente de vidro quando um grito interrompeu e silenciou o ritual macabro:
- Parem!
As sombras arfaram de surpresa, olhando para onde Penélope estava de pé, sozinha no salão. Tanto Kras quanto o Rei permaneceram impassíveis, este último ainda me segurando firme contra a caverna com um de seus múltimplos braços.
- Não Penélope! eu gritei.
A garota andou até o Rei e ordenou a ele "Solte-os!". Era preciso coragem - devo admitir - para ordenar ao monstro o que quer que fosse.
Foi com uma gargalhada cruel saída de suas muitas bocas dentadas que ele respondeu:
- Eu sou o Rei das Sombras-livres! Vivo em meu Palácio subterrâneo com minha côrte, praticando a cada dia atos de vingança livre-arbitráriamente! Ninguém pode me matar: sou sombra - como seu amigo acabou de perceber. Meu trono é uma das portas dos antigos, a Porta da Morte. Vê agora o meu poder? Meu reino é esta caverna de terra, o medo, o sussurro intencionado, o temor do fim, o desespero dos condenados e o oculto por trás dos assassinatos! É isso o que eu sou. E você?, você pode me vencer? Quem é a garota que desafia as sombras-livres?
No silêncio que se seguiu todos rondaram a pobre Penélope.
E ela? Ela olhou para o Rei. Olhou bem dentro dos seus olhos - poços de trevas. A garota versus Sombra-Rei. Encarando-o firmemente ela lhe disse:
- Eu não quero ser quem eu sou. Minha missão ainda não aceitei. Por isso, por explicação, eu digo apenas: Eu sou Penélope Noite.
Como um vento, como um chiado, Rei das Sombras ergueu a faca e condenou sua adversária à morte.
E, como um eco débil de sua irmã, Epolenep gritou:
- Parem!
Desta vez todas olharam surpresas.
- Há uma solução... - começou dizendo a sombra-irmã. Ah! Aquela bruxa, aquela monstra! Certamente planejava algo... - Proponho, me escutem bem, uma troca. Talvez o Rei concorde. - e, se aproximando teatralmente do centro do salão, expôs seu plano - Talvez possamos deixar os dois humanos escaparem com vida. Para isto basta deixarem algo para trás. O que proponho, meu caro Rei, minha querida Penélope, é o seguinte: se nós duas nos separarmos e deixarmos de ser irmãs, vocês podem escapar. Assim todos teremos o que queremos: eu serei livre, o Rei aumentará sua legião e os intrusos ficarão à salvo. O que acham? É um excelente trato, não é?
- Maldita sombra interesseira! - gritei com fúria, fazendo apertar o abraço aprisionante das sombras - Era isso o que queria desde o princípio! Foi por isso que nos trouxe até aqui, não é mesmo, criatura do abismo? Sombra maldita! Monstra! Não acredite em uma palavra do que ela diz, Penélope.
- Devemos admitir irmãozinho - disse Kras seriamente - que estamos sem opções. Epolenep parece oferecer a única saída. Mas será seguro confiar nela?
Olhamos todos para Penélope, afinal, era sua a decisão:
- Você me ensinou bem, minha cara sombra-irmã. Mas nem você ou Kras serão libertados. Acho que agora eu entendi, já sei do que as sombras sã feitas. Se por um lado você me trái para unir-se ao Rei, também escuto seus sussurros propondo-me outra alternativa. Eu declino a sua oferta. Vou derrotar o Rei do meu modo.
A esperta Penélope! Será que já esboçava o seu plano àquela altura ou antes mesmo já sabia o que devia ser feito?
Ela estava certa. Sombras são parte de nós. Uma parte escura e sussurrante, muito além de um apêndice removível, que pode atrair ou afastar a morte. Como Penélope mostrou, o faziam ao mesmo tempo.
- Eu quero que vocês dois, Henry e Yrneh - ela disse à mim, usando meu primeiro nome para brincar de inverter - se preparem para o momento certo e usem "aquilo". Sigam minhas indicações.
Segurei firme o pote-estrela e olhamos apavorados, Yrneh/Kras e eu, enquanto a linda e doce garota que acabávamos de conhecer avançava de punho em riste na direção do grande Rei das Sombras.
- Humana! - urrava este, espumando de fúria - Ousa então jogar fora a sua salvação para me enfrentar? É tão fraca como os outros, não vai sobreviver! Você será esmagada pela treva infinita!
- À morte! À morte! - gritava esta, sempre avançando, em língua inventada de medo e heroísmo - Sark, Rosnado, Epolenep!
Um espasmo de fúria percorreu meu corpo e tentei brandir minha espada - Afastem-se de mim, seus seres anômalos e assombrados! Eu tenho que salvá-la! - gritei, erguendo o pote-estrela para o alto.
As duas forças convergiam com rapidez e raiva na caverna. Penélope e sua sombra, bradando gritos desconhecidos, correndo para a boca da fera! A fera escura, feita de sombras-livres mutáveis, crueis e insatisfeitas, prontas para engolirem a garota e soterrá-la eternamente em suas múltiplas escuridões! No momento exato, no clímax do encontro e do choque, Penélope Noite olhou para mim com suas íris poderosas e me ordenou que jogasse o pote de vidro.
As sombras ganem, gritam, guincham e se jogam por sobre a garota, agarrando-a, erguendo, cobrindo-a. Mas esta planejara tudo! Ela move suas mãos de encontro e as separa. As minhas acabam de largar o projétil de vidro quando as mãos de Penélope ordenam que se faça a treva! - em um instante toda a galeria se escurece e mergulha na mais indistinta indefinição!
Na noite eterna não existem sombras. Percebo a genialidade da moça, a extensão de seu poder - e foi neste instante confuso de queda e barulho que o vago sentimento ganhou seu nome de Amor em meu coração. Amor e orgulho. O Rei das Sombras e seu exército minguaram enfraquecidos, mergulhados no escuro primordial, sem luz para definirem-se, sem separação dentro do todo, presas fáceis do feitiço que escapava do pote de vidro. Não existem sombras na noite eterna.
Sinto vultos roçando meu rosto, ouço fantasmas chorando. Um desespero me domina - também eu sumira engolido pela treva? Perdi meus sentidos, onde está Kras? Tateando desorientado chamei por Penélope. Ouço sua voz:
- Você foi preso Rei das Sombras, junto ao seu exército de desejos corrompidos e insinuações perigosas. Por cem anos deverá habitar esta sua pequena prisão de vidro: este é o seu castigo!
Ouço os protestos do rei deposto e busco desesperado pela vencedora deste duelo sobrenatural em meio à sombra que me rouba a capacidade de sentir distâncias ou espaços.
Por fim, esbarramo-nos no meio do nada universal. Ela está no chão, ajoelhada, e chora. Minha querida Penélope! Seguro seus finos antebraços, cobertos de terra e lágrimas. Nossos corpos se abraçam aliviados, não vemos nada, eu tento consolá-la. No meio da sombra silenciosa, cegante e assustadora, sem vontade ou controle, beijamo-nos. Com um ímpeto úmido e desesperado, na treva escura do centro do mundo.